Página Principal             Próxima Página

                  

 SHIVA GITA

Tradutor  Satyaraja Das

 INVOCAÇÃO

     Presto minhas humildes reverências àquele que possui a cor branca com o matiz dourado do sol da manhã, àquele que se veste com o céu azul da primavera, que corporifica as montanhas dos Himalaias, que vive adornado com marcas inauspiciosas mas cujo nome é a própria auspiciosidade, àquele que é livre de todo dualismo, e o esposo de Maya, o benquerente de todos as entidades vivas, o maior devoto de Sri Hari, dotado de humor refinado e versado em todas as escrituras sagradas. Que este senhor Siva me conceda suas bênçãos na forma de iluminação para que eu seja capaz de apresentar a todos os devotos vaisNavas do Senhor este pequeno trabalho adaptação para o português desta sua canção.

 

     Todas as glórias a Sri Hari, que na era de Kali surgiu como o sol dourado no horizonte Bengala Ocidental e dançando, cantando, viajando e comendo preparações deliciosas veio ensinar a todas as entidades vivas a como desfrutar de uma vida sadia, consciente de Deus, cheia de felicidade, auspiciosidade e bem-aventurança, cantando os Santos Nomes de Deus em todas as cidades, vilas e aldeias do planeta. Que este Senhor Caitanya me conceda uma gota da Sua misericórdia.

 

     Todas as glórias a Gurudeva, que é muito querido por Srila Prabhupada por ter se abrigado aos seus pés de lótus e que por sua infinita bondade deseja apresentar a todos os leitores que se expressam em português uma maravilhosa obra de adoração à literatura védica, tornando os textos purânicos acessíveis a todos, empregando para isso alguém tão insignificante como eu.

 

     Peço a todos os devotos que desculpem as minhas falhas na tradução e apresentação desta obra, que perdoem o meu orgulho, a minha arrogância e pretensão, mas esta obra é inteiramente dedicada a vocês.

Om tat sat!

 

 

INTRODUÇÃO

     Este trabalho está baseado no Padma PuraNa, mais especificamente na seção Uttara-khaNa, que é baseada num maravilhoso diálogo entre o Senhor Siva e Narada Muni. O Senhor Brahma tem uma apreciação especial por este diálogo e por isso o apelidou de "Siva Gita", ou a "Canção de Siva." Como o Senhor Brahma é o líder da nossa sucessão discipular, adotamos este nome em sua homenagem.

 

     Os PuraNas são cantados por Sri KrsNa a Brahma, logo no início da criação do Universo. O senhor Brahma é dotado de um assombroso intelecto (ele possui quatro cabeças), por isso Sri KrsNa conta os PuraNas em 300 bilhões de versos, narrando eventos de criações passadas, das dinastias que administraram a Terra, sobre os administradores de todos assuntos Universais, os semideuses, sobre o processo de criação material, sua finalidade e propósitos e sobre as Suas diferentes encarnações e atividades nos Universos materiais. O que é mais importante é que Sri KrsNa fala também sobre Ele mesmo, quem Ele é, quem são os Seus associados, como Ele executa inúmeros passatempos, onde Ele mora e como é a Sua morada transcendental, como devemos fazer para nos relacionarmos com Ele e vivermos com Ele eternamente. Ele nos informa quem nós somos, que existimos eternamente para servi-lO num relacionamento de desfrute e felicidade eternos baseado numa incrível troca amorosa. Tudo isso é transmitido na forma de um conhecimento enciclopédico, muito extenso, que atinge muitas vezes níveis de complexidade incalculáveis.

 

     Atualmente vivemos numa era em que as condições intelectuais da humanidade se deterioram gradativamente. Esta era surge periodicamente, assim como as estações do ano aparecem todos os anos, e no decorrer de um dia de Brahma, ocorrem mil ciclos de eras, ou yugas. Na era de ouro, ou Satya-yuga o intelecto humano é cerca de cem mil vezes o desta era, e os PuraNas são conhecidos em toda a sua extensão. Com a degradação do intelecto,  Sri KrsNa providencia uma enorme simplificação de todas as escrituras reveladas, e na forma de Sua encarnação responsável pela edição da literatura védica, Vyasadeva, resume todas as escrituras ao seu formato atual. Mesmo assim o volume é enorme, são cerca de 420 mil versos, em sânscrito. Só o Padma PuraNa tem cerca de 55 mil versos, tratando de detalhes sobre as inúmeras atividades religiosas prescritas para todas as eras.

 

     Srila Prabhupada é um representante autorizado de Srila Vyasadeva, e veio nos ensinar como apresentar a literatura védica nesta era de Kali. De uma maneira maravilhosa ele apresentou o Bhagavad-gita e o Srimad Bhagavatam numa linguagem moderna, simples e muito clara. Ele desejava que os seus discípulos continuassem apresentando as escrituras védicas da mesma maneira. E os discípulos dos seus discípulos vêm tentando servi-los fazendo a mesma coisa.

 

     Srila Bhaktivinoda µhakura julgava que o Padma PuraNa era um PuraNa muito importante para os vaisNavas, e que com certeza teria grande importância para o movimento do Senhor Caitanya à medida em que ele se propagasse pelo mundo. Srila Bhaktivinoda no século XIX reuniu e publicou os 55 mil versos que atualmente compõem o Padma PuraNa. Ele não traduziu e nem comentou este PuraNa, apenas reuniu a obra toda que se encontrava dispersa.

 

     Os nossos mestres espirituais na sucessão discipular utilizam-se freqüentemente de citações do Padma PuraNa em seus comentários e significados em praticamente todas as suas obras. Este PuraNa é de grande importância, e todos são unânimes em dizer que a seção Uttara-khaNa é a mais bela e importante. Nesta seção, Srila Bhativinoda µhakura diz ter encontrado a essência de todo o estudo da literatura védica (niyama):

 

     smartavyaƒ satatan visNur

      vismartavys na jatucit

     sarve vidhi nisedehaƒ syur

      etayor eva kiaka etaƒ

 

     "VisNu, ou KrsNa, deve ser sempre lembrado e nunca esquecido nenhum instante. Todas as regras e regulações mencionadas nas escrituras devem ser servas destes dois princípios."

     Este PuraNa é considerado o coração de VisNu, por tratar quase que exclusivamente da religiosidade, dharma. Os acaryas anteriores são unânimes em salientar que o primeiro fruto de se cantar os santos nomes, ainda em namabhasa, é o despetar da religiosidade. Nesta seção do Padma PuraNa, o Senhor Siva, um devoto muito avançado, guru e com grande experiência em lidar com devotos neófitos, ensina a Narada Muni como utilizar esta religiosidade, aparentemente mundana, a serviço de Krsna para o avanço na vida espiritual. Somos quase todos devotos neófitos, ainda na plataforma quase que exclusivamente material, e por receber as bênçãos concedidas neste PuraNa, com certeza vamos pavimentando a estrada do serviço devocional. Ninguém tem nada a perder por executar atividades piedosas e por evitar a vida pecaminosa. Esta é a opinião de todas as autoridades.

 

     Oferecendo esta pequena obra a meu mestre espiritual e a todos os devotos, pedindo-lhes misericórdia, temos a esperança de satisfaze-los.

 

                   Capítulo I

                    Um Breve Resumo do Uttara-kaNha

     Om saudações a Sri VisNu.

     Om saudações a Srila Vyasadeva.

 

     Om, depois de saudar NarayaNa, e também Nara, o ser humano perfeito e depois de saudar a Sarasvati e Vyasadeva, devemos narrar as glórias de Deus. Saudações ao guru que abre os olhos de quem está cego devido à escuridão da ignorância com o colírio do conhecimento.

 

     Na floresta de Naimisaranya, onde os sábios estavam reunidos para ouvir os PuraNas, Sata, o narrador, a pedido dos sábios continua a narrativa do Padma PuraNa:

 

     - Ó sábios, ouçam o que Sa‰kara respondeu às indagações de Narada Muni. Este conhecimento destrói os pecados. Uma vez Narada perambulava por estes mundos e foi até a montanha Mandara pedir para Sambhu a revelação de alguns segredos. Lá ele encontrou o senhor Siva sentado e o saudou. O senhor Siva então pediu a ele que sentasse, e Narada perguntou a Sambhu exatamente o que vocês estão indagando agora.

 

     Narada disse:

     - Ó senhor, deus dos deuses, ó Senhor de Parvati, ó preceptor do mundo, diga-me como podemos ter o conhecimento que revela a verdade sobre o Senhor.

 

     Siva respondeu:

 

     - Ó Narada, ouça ao PuraNa que eu vou lhe contar, ele é como os Vedas e por ouvi-lo um homem se livra de todos os pecados. Não tenha a menor dúvida a este respeito. Primeiro vou lhe contar as glórias de Uttara. Depois a história da montanha Parvata. Depois há uma narrativa sobre Haridvara; e depois um relato de como o Ganges nasceu dos pés de VisNu. Também devo descrever o local sagrado de Prayaga e também um local sagrado denominado Asvamedhika. Vou lhe contar sobre a grandeza de tulasi e também descrever a concha, a maça, o disco e o lótus de VisNu. Vou falar sobre Dvaraka. Sobre as regras de um grande festival. E também vou descrever o mérito religioso que se obtém por se banhar num lago, e por se banhar num reservatório d'água, num poço ou numa cisterna. Vou descrever os aspectos de GaNapatya, dos textos sagrados dos vaisnavas, onde há a descrição da grandeza em se reformar templos antigos, de visitar o Ganges, da grandeza de Sabhramati, das margens dos rios, dos deveres das mulheres e dos sadras e qual a conduta a ser seguida pelos renunciantes.

 

     Vou lhe contar um diálogo que tive com minha esposa Uma sobre "Os Mil Nomes de VisNu." Ó Narada, você é quem divulga estes nomes, que devem ser recitados com a mente concentrada por todas as pessoas, brâmanes, Ksatriyas e especialmente pelas as mulheres e os sadras. Esta recitação é muito santa, pura e aumenta a duração da vida. Esta recitação favorece a união dos homens com VisNu. Este hino que contém os mil nomes de VisNu purifica o mundo inteiro.

 

 Aqui também vou lhe revelar sobre o local das vinte e quatro imagens. Também vou lhe narrar sobre os seus pais e o seu interior. Vou lhe contar sobre as suas famílias, seus Vedas, suas atividades; e também sobre as suas esposas, conforme o meu conhecimento. Vou dizer da importância dos dias de ekadasi e dvadasi. Vou lhe contar sobre a grandeza do Godavari e sobre a grandeza de se colocar a concha e o disco sobre uma pessoa. Os brâmanes, principalmente, é quem devem seguir este ritual. Devo descrever a importância do Yamuna, e também de GaNdika. É claro que vou falar sobre a grandeza de Vetravati. Vou lhe falar sobre o mérito religioso de se visitar um local sagrado chamado Gilli e vou falar sobre a grandeza de Sila Ksetra.

 

     Tudo isso está nesta seção chamada Uttara. Vou narrar para você a grandeza de Arbudesvara e dos locais sagrados que lá existem. Da mesma maneira, vou descrever a importância de Sarasvati e de um local sagrado denominado Siddhaksetra. Vou lhe contar como surgiu Padmanabha e a respeito da importância de se usar as folhas, guirlandas, flores, etc., de tulasi. Vou lhe contar a grandeza de gopicandana e sobre como adorar o trono. Também vou lhe contar a algo a respeito de mim mesmo; sobre a importância do conhecimento, de se oferecer lamparinas e especialmente sobre o incenso. Vou lhe contar a importância dos meses de kartika e magha. E sobre a grandeza de se respeitar os votos sagrados.

 

     Ó Narada, vou lhe contar sobre um local sagrado denominado Jagannatha, o melhor dos locais sagrados, que só por vê-lo um homem se livra de um pecado tão grave quanto matar um brâmane. Ouça por favor, tudo o que é executado e experimentado lá nos conduz ao outro mundo. Até os brâmanes bem versados nos Vedas comem lá, porque lá o alimento é sagrado, o que dizer das outras pessoas? Lá existem vinte e cinco serpentes e muitas dançarinas famosas. Ao ver Jagannatha os pecados cometidos pelo assassinato de um brâmane, de uma criança ou de uma vaca, desaparecem. Só por se proferir o nome Jagannatha nos livramos de todos os pecados.

 

     Vou falar sobre a adoração de VisNu com flores e da sua importância. Vou lhe contar tudo isso - a descrição das montanhas, dos países, a grandeza suprema de se adorar uma vaca, etc.; e também sobre a adoração de siddhas e sobre o mérito religioso que é obtido quando é dado arroz cozido aos brâmanes. Vou lhe contar sobre o presente de uma kadali, o presente de uma árvore. Depois vou falar sobre o presente de um cavalo, o de um elefante e também da suprema importância de se proferir um hino. Sobre o conhecimento de hinos e iniciação; sobre as características de um preceptor (guru).

 

     No Uttara-kaNha também devo falar sobre as características de um discípulo, como o público leitor dos PuraNas devem reconhecê-los. E também sobre a importância da água que flui dos pés de pessoas espiritualmente avançadas e informações sobre a cerimônia de sraddha oferecida aos ancestrais mortos; e também sobre os presentes a serem dados para os espíritos dos ancestrais e os dias adequados para este oferecimento. E também sobre o ritual das safiras. Esta seção também contém informações sobre os eclipses solares e lunares e quais os presentes que devem ser oferecidos nestes dias.

 

     Há o relato da importância de dar uma salagrama de presente; e também os presentes de sândalo e de flores. Vou falar sobre o décimo, décimo primeiro e décimo segundo dias das quinzenas lunares e sobre os dias consagrados a VisNu. Esta seção contém informações sobre a grandeza dos nomes de Rudra, e também sobre a grandeza de Mathura, Kuruksetra, etc. Também há um relato sobre a construção da ponte sobre o oceano e sobre Sri Ramesvara. Também há informações sobre a grandeza de Tryambaka e sobre o fruto de permanecer sob pañcavadi, as cinco árvores sagradas. Ó brâmane, você vai ouvir sobre a importância da floresta de DaNaka e sobre a causa do aparecimento de Nrsinha. Vou falar sobre a grandeza do Bhagavad-gita e também da grandeza do Srimad Bhagavatam. Sobre a importância do rio Yamuna e a descrição de Indraprastha.

     Vou falar sobre a vida de RukmaNgada e sobre a grandeza de um devoto de VisNu. Ó melhor dos brâmanes, ouça; se alguém alimenta um devoto de VisNu uma única vez, recebe o mérito fruitivo de doar a Terra inteira, com os seus continentes e oceanos. Os sattvika estão dotados de bondade, os rajasa de luxúria. Os tamasa são descritos como viciados.

 

 Aqui também vou falar sobre as características de um devoto de VisNu. Narada, vou contar a grandeza dos brâmanes que são devotos de VisNu e que praticam o estilo de vida indicado pelos Vedas. Ó grande sábio, e depois vou lhe contar o pecado que cometem as pessoas que, cobiçado bens materiais, vivem censurando VisNu. Vou lhe falar sobre Jvalamukhi e sobre a importância de se ver os Himalaias. E também vou descrever a região onde Brahma nasceu. Vou lhe contar sobre a origem dos kayasthas e também vou falar sobre Gaya. Vou lhe descrever a natureza de Gadadhara e lhe dar uma descrição do rio de Gaya, chamado Phalgu.

 

     O Padma PuraNa descreve a importância de tudo isso. Ele também contém a natureza do grande conhecimento, e a glória de Kalki. Ele contém a descrição de Ramagaya e Pretasila. Vou lhe falar sobre Brahma e Sila, sobre a origem de Brahma e sobre uma figueira-de-bengala chamada Aksaya, e sobre o grande mérito religioso que se obtém ao realizar uma cerimônia de saddha naquele local. Vou lhe contar tudo isso. E também vou lhe contar sobre a adoração de Siva feita pelo nobre Senhor VisNu. Até hoje Maharudra (Siva) vive proferindo o nome de Anamaya (VisNu). Depois disso, ó Narada, vou descrever a grandeza do oceano; e também sobre o mérito religioso de se oferecer grãos de gergelim e de grãos de cevada; e também o mérito religioso de se oferecer água misturada com folhas de tulasi e aquele que se recebe por se adorar a Deidade.

 

     Vou lhe contar sobre a grandeza disso tudo como Brahma me contou. E também vou descrever a grandeza do som do búzio e as inúmeras variedades de mérito religioso. Vou lhe falar sobre a grandeza do domingo e na meditação abstrata nAquele que Se chama VisNu. Vou falar sobre a importância de Vyastipata (uma grande calamidade) e sobre Vaidhrta. Como já disse, ó Narada, vou lhe contar tudo isso.

 

     O Uttara-kaNha fala sobre o presente de alimentos, o presente de vestuário, o presente de terra e o de um touro. Fala sobre a grandeza de Janmasdami, sobre a importância do Matsya PuraNa, do Kurma PuraNa e também do Varaha PuraNa. Vou falar sobre a importância de se dar vacas de presente. E depois vou descrever a grandeza de devotos como Prahlada e outros, que são bem conhecidos em todo mundo. Ó melhor dos sábios divinos, esta seção contém narrativas sobre a importância de ficar acordado durante determinadas noites; e também a importância do presente de lâmpadas e o fruto obtido com a adoração em horas diferentes. Ela contém um relato sobre Parasurama; sobre o assassinato de ReNuka; sobre o presente de terra dada aos brâmanes e tudo o que Rama fez.

 

     Devo descrever completamente o mérito religioso alcançado por se permanecer no eremitério de Rama. Vou lhe fazer um relato sobre o Narmada e o mérito religioso alcançado por adora-lo. Também sobre o mérito religioso de se dar os textos védicos e purânicos de presente e a maneira de viver nos vários estágios da vida.

     Vou lhe falar sobre o mérito religioso em se dar ouro de presente; sobre presentear com o Padma PuraNa e a natureza dos kaNhas deste PuraNa. O primeiro kaNha é o Srsdi-khaNha, o segundo é o Bhami-kaNha, o terceiro é o Svarga-kaNha e o quarto é chamado Patala. O quinto é chamado Uttara. Esta é a ordem dos kaNhas. O nobre Vyasa compôs este Padma PuraNa para o bem estar das pessoas e para o bem estar dos brâmanes. Ele cria mérito religioso nos sadras e acaba com a pobreza aguda. Concede salvação e felicidade e rapidamente faz surgir uma boa fortuna inexaurível. Ó Narada, depois de ouvi-lo, um homem deve dar presentes conforme os rituais nele descritos.

 

 

 

                                                      CAPÍTULO II

 

 

                   NarayaNa Concede uma Bênção a Rudra

 

     Mahesa disse:

 

     - Existem cento e vinte cinco mil montanhas. Lá no meio delas há um lugar muito sagrado, o excelente Badarikasrama. Narada, é lá que vivem Nara-NarayaNa. Agora vou lhe falar sobre Sua glória e esplendor. Ó brâmane, dois homens que possuem a forma de KrsNa, chamados Nara e NarayaNa vivem no pico do Himalaia. Um é branco e o outro é escuro. Muita gente se esforça para escalar o Himalaia para vê-lOs. O grande Senhor tem uma compleição amarelo escura muito formosa e Seu cabelo é emaranhado. Ele é KrsNa, NarayaNa, a origem do mundo e o grande Senhor. Ele possui quatro braços, é grande, rico, manifesto e imanifesto e é o mais antigo. No período do solstício de verão acontece uma grande adoração naquele local. Por seis meses a adoração é oferecida, depois a região fica coberta pela neve durante o período do solstício de inverno. Portanto esta Deidade jamais foi vista no passado e nem será vista no futuro.

 

     Lá vivem os semideuses e existem muitos eremitérios de sábios. São realizadas oblações para Agni e o som dos Vedas sempre é ouvido. Um homem deve ver a Deidade, que destrói bilhões de pecados de matar brâmanes e deve se banhar na confluência do Alakananda-Ga‰ga. Ele fica livre de grandes pecados por se banhar ali. Não há dúvidas que Deus, o Senhor do Universo, reside ali. Ó brâmane, numa ocasião eu pratiquei uma grande penitência naquele lugar. Então, o Senhor NarayaNa, que favorece os Seus devotos, Aquele que é o Purusa, que na verdade é o Deus que tem Garua como emblema, ficou muito satisfeito e me disse:

     - Você praticou um belo voto. Peça uma bênção. Concederei tudo o que você desejar. Você é o senhor de Kailasa, na verdade você é Rudra, o protetor do Universo.

 

     E eu disse:

     - Ó Senhor Janardana, Você ficou satisfeito! Vou aceitar as bênçãos. Se Você desejar, conceda-me duas bênçãos. Permita que eu tenha sempre devoção por Você. E permita que eu seja o chefe dos Seus devotos. Permita que as pessoas digam: "Este indivíduo é um devoto determinado." Ó Senhor, com o Seu favor especial deverei ser eu quem concederá a liberação. Eu concederei a liberação às pessoas que recorrerem a mim. Ó Senhor permita que aquele a quem eu conceder a liberação seja liberado. E com os cabelos emaranhados e o corpo coberto de cinzas sagradas, permanecerei perto de Você. Pela misericórdia dos Seus pés de lótus deverei ser muito conhecido neste mundo.

 

 

 

                   CAPÍTULO III

 

 

                   Jalandhara Nasce e é Abençoado por Brahma

 

     Sata disse:

 

     - Uma vez Narada foi para a floresta de Kamya para ver os PaNavas que estavam emaciados devido à tristeza. Eles receberam o brâmane apropriadamente. Ao saudar o grande sábio Yudhisdhira disse: "Ó senhor venerável, qual foi a atividade que praticamos anteriormente e que agora nos obriga a suportar este oceano de aflição?" O sábio respondeu: "Ó filho de PaNu, abondone a sua dor. Que homem é feliz nesta existência mundana que é uma assembléia de prazeres e aflições? Até o Senhor não é estável. Ele vive atormentado por um montão de corpos (o Senhor está dentro de todos os corpos).   Ninguém está livre da aflição; todo mundo é colocado em condições aflitivas, uma vez que até o sol é afligido por Rahu. E Rahu também teve a sua cabeça cortada por VisNu na hora em que desfrutava o néctar. Até mesmo o Senhor que carrega o arco Sar‰ga (VisNu) uma vez foi atirado nas profundezas do oceano pelo bravo Jalandhara. E Jalandhara acabou sendo morto por Siva.

 

     Yudhisdhira indagou:

     - Quem foi este bravo Jalandhara? Ele era filho de quem? Por que ele era tão poderoso? Como o semideus que tem como emblema um touro (Siva) matou Jalandhara numa batalha? Ó tesouro de penitência, conte-me tudo isso em detalhes.

 

     Ao ser indagado desta maneira pelo rei Yudhisdhira, Narada disse:

     - Ó rei, ouça esta história divina, que destrói toda a corrente de pecados. Ouça também a maravilhosa narrativa sobre a batalha entre Siva e Jalandhara, o filho do oceano.

 

     Uma vez Indra, que estava acompanhado por um grupo de ninfas celestiais, rodeado por vários semideuses e por gandharvas especialistas na arte de tocar alaúde, foi louvar o senhor Siva. As ninfas celestiais Rambha, Tilottama, Rama, Karpara, Kadali, Madana, Bharati e Kama, adornadas com todos os ornamentos e inúmeras outras dançarinas celestiais, se aproximaram do senhor Siva. Gandharvas, yaksas, siddhas e até eu mesmo e Tumburu, os kinnaras e suas esposas, costumávamos ir até lá. E também Vayu, VaruNa, Kuvera (o concessor das riquezas), Yama, Agni, Nirrti e outros semideuses iam para lá. Indra, sentado em seu aeroplano, senhoras celestiais em seus aeroplanos e outros semideuses em seus veículos, aproximavam-se rapidamente de Kailasa.

 

     Os semideuses avistaram Kailasa, uma montanha magnífica, a mais eminente das montanhas, um verdadeiro ornamento para a Terra. Ela permanece dando prazer a todas as direções, toda pura, como uma montanha de poderes sobre-humanos. As árvores de lá são árvores dos desejos. As pedras concedem tudo o que se deseja.  A montanha é encantadora, com inúmeras árvores punaga, naga, campa, tilaka, devadaru, asoka, patala, mangueiras e mandara. A brisa carrega a fragrância da floresta adjacente. Os reservatórios têm degraus de cristal e a água é límpida e profunda. Lótus dourados possuem caules de esmeralda e o brilho dos lótus brancos resplandece em todas as direções. Os reservatórios com seus lótus brancos são recobertos de rubis e são decorados com pedras preciosas verdes e pedras gomeda (uma pedra preciosa dos Himalaias com quatro tonalidades diferentes). A estrutura de rubis é decorada com vários outros.

 

     Ao verem o grande monte Kailasa, todos ficaram surpresos. Indra e os demais semideuses desceram de seus aeroplanos. Eles se aproximaram do porteiro, Nandin, e disseram: "Ó melhor dos excelentes serviçais, ouça às nossas belas palavras - vá informar respeitosamente ao senhor dos deuses que o rei dos semideuses, Indra, acompanhado por todos os demais semideuses, chegou até aqui para dançar." Nandin informou a Siva: "Senhor, o rei dos semideuses, Indra, veio até aqui com todos os semideuses para dançar." Então Siva lhe disse: "Traga-os até aqui, depressa!" Então Nandin os acompanhou até Siva. Indra, ao ver o senhor Siva, que tem como emblema um touro, o saudou. Todas as dançarinas começaram a dançar perto de Siva, acompanhadas por tambores, alaúdes e outros instrumentos musicais. Os outros semideuses, tocando instrumentos musicais de bronze, alaúdes e grandes tambores, realizaram uma dança esmerada.

 

     Até mesmo Indra dançou de uma maneira maravilhosa, que dificilmente os semideuses podem assistir. Siva ficou muito deleitado e disse estas palavras para Indra: "Ó melhor dos semideuses, estou muito satisfeito com você! Peça uma bênção." Quando Siva falou desta maneira, Indra que vive sempre muito orgulhoso do seu poder, respondeu para Hara: "Peço por uma batalha onde tenha que enfrentar um guerreiro como você." E depois de obter esta bênção do senhor Siva, Indra foi embora.

 

     Quando Indra saiu, Siva disse estas palavras: "Ó serviçais, ouçam às minhas palavras. O rei dos semideuses veio muito orgulhoso." E ao dizer isso Siva ficou irado. Sua fúria se manifestou em uma forma corporificada e permaneceu diante dele. Era um ser irado, muito escuro, que disse para Siva: "Dê-me uma ordem. Senhor, o que devo fazer para servi-lo?"

     Então Siva, o senhor de Uma, disse: "Você deve ir para o Oceano através do rio celestial e conquistar Indra. Assim que ouviu estas palavras, a ira personificada desapareceu. Os serviçais ficaram surpresos. Depois que Siva deu esta ordem, o rio celestial se encheu de luxúria devido ao poder daquela jovem, e o Oceano se encheu de bolhas. E assim, ó rei, ocorreu a união entre Ga‰ga e o Oceano (nos PuraNas os rios são personalidades femininas).

 

     Nisso, nasceu um filho muito poderoso daquele grande rio, gerado pelo Oceano. Ó rei, assim que nasceu, o filho do grande Oceano começou a chorar, agitando a Terra. Os três mundos ecoavam. Brahma interrompeu a sua profunda concentração. E ao ver os três mundos alarmados, foi ver o grande Oceano, a pedido de Indra. Imaginando ver algo maravilhoso, Brahma, sentado em seu cisne, seguiu para o Oceano. Ao ver o senhor Brahma chegando, o Oceano ofereceu-lhe adoração. E então Brahma perguntou: "Ó Oceano por que você está rugindo a toa?"

 

     O Oceano respondeu: "Ó senhor dos semideuses, não estou rugindo. É o meu poderoso filho quem está rugindo. Por favor, proteja esta minha criança. Ter o privilégio de ver o senhor é algo muito raro." E disse para a sua esposa: "Apresente seu filho para o senhor Brahma." A pedido de seu esposo Ga‰ga se aproximou de Brahma com o filho no colo e colocando-o no colo de Brahma, ela se prostrou aos seus pés.

     Ao ver o filho do Oceano Brahma ficou muito surpreso. Brahma estava sendo agarrado pela barba pelas mãos da criança e era incapaz de se livrar, o Oceano riu e segurando as mãos da criança, se retirou.

     O Brahma não-nascido, vendo o valor de uma criança como aquela, afetuosamente a chamou de Jalandhara, e concedeu-lhe uma bênção: "Este Jalandhara será inconquistável até mesmo pelos semideuses. Com o meu favorecimento desfrutará da soberania celestial e das regiões inferiores." Ao dizer isso Brahma subiu em seu cisne e desapareceu apressado.

 

 

 

                   CAPÍTULO IV

 

 

                   O Casamento e a Consagração de Jalandhara

 

 

 

     Narada continuou:

     - Aquele menino foi crescendo gradualmente, pulando do colo da sua mãe e pulando no oceano. Ele capturou alguns leões jovens e os colocou em jaulas, para brincar com eles. Ela como se um elefante lutasse com leões, ele era muito poderoso. De lá ele costumava voar para o céu e fazia os pássaros caírem no chão. Por meio dos seus rugidos ele assustava o céu e o oceano. Ó rei, todos os seres do oceano tinham muito medo dele e por isso viviam escondidos. Ao ver a água do oceano sem os seus habitantes, o Fogo submarino ficou com medo e foi se abrigar nos Himalaias.

 

     Aquele filho do Oceano gradualmente deixou a infância e alcançou a juventude e seguiu valentemente para o céu. Uma vez Jalandhara disse para o seu pai, o Oceano: "Ó pai, me conceda um local bem extenso apropriado para a minha residência." Compreendendo as palavras do seu filho, o Oceano respondeu: "Ó filho vou lhe conceder um reino difícil de ser obtido aqui na Terra."

 

     Então Sukracarya, o guru dos demônios, foi para o Oceano. Ao vê-lo chegando, o Oceano ofereceu-lhe as devidas reverências, sentando-o num assento que tinha o brilho das pedras preciosas, que lhe fora oferecido pelo senhor dos rios, este trono era tão brilhante quanto o ocupado pelo senhor Brahma no pico da montanha Mandara, que também é muito encantadora.

 

     O Oceano de mãos postas, disse para Sukra: "Que boa fortuna que você tenha vindo até aqui. Diga-me como posso servi-lo." Então, Sukra, o preceptor da família dos demônios, disse: "Para que serve uma pessoa que nasceu apenas para roubar a juventude da sua mãe e que não se destaca sobre os membros de sua família como um estandarte? O seu filho, devido ao seu valor, desfrutará da alegria dos três mundos. Você inundou um grande local em Jambadvipa que era procurado pelas atendentes de Durga. Ó Oceano, dê aquele lugar para o seu filho. Lá ele será inconquistável e estará livre da morte." Obedecendo a este conselho de Bhargava (Sukra), o Oceano muito amorosamente mostrou a seu filho aquele local na água. Ele tinha a extensão de cem yojanas de largura e trezentas yojanas de comprimento. Este país auspicioso então se tornou conhecido como Jalandhara em sua homenagem.

 

     Chamando o grande demônio Maya, o Oceano lhe disse: "Construa uma cidade para Jalandhara na região de Jalandhara." Maya então construiu uma cidade cheia de pedras preciosas, com fortificações, portais e casas com escadarias. Lá os pavões em suas danças violentas, nos jardins daquelas mansões, confundiam a decoração de safiras com o movimento das nuvens. Os pássaros confundiam o brilho da decoração do chão, de corais e rubis, com maravilhosos brotos de manga.

 

 Os pavões ao verem o dourado das mansões, que brilhavam como fogo, corriam com medo do fogo na floresta. Todas as direções eram ofuscadas com o brilho que vinha dos assembléias de cristal. Aqueles prédios se destacavam como se estivem se levantando do monte Mandara, ou do oceano como a espuma. Neles as mulheres deslumbrantes, em grupos em suas mansões e com suas faces parecendo a lua cheia surgindo no final da tarde, provocavam uma intensa paixão. As delícias daquele parque, a brisa, a fragrância das flores indranipa, entravam nos corações das mulheres e neles provocavam a febre do fascínio.

 

 Os homens ao verem desenhos ilustrativos de atividades sexuais, se indulgenciavam nestas atividades com as suas esposas. As névoas da fumaça de incenso que saiam pelas janelas, faziam com que o céu se parecesse com aquele que é visto na confluência do Ganges com o Yamuna. Parecia que o céu estava todo coberto por um arco-íris devido ao brilho que provinha daquelas mansões e que as nuvens de outono pairavam sobre o lugar. Os cavalos do deus do sol pareciam repousar sobre aquelas mansões, devido à sua fadiga provocada pelo constante cavalgar. As encantadoras mulheres de algumas mansões, usando grinaldas de flores de jasmim, brilhavam como as estrelas ao cair da noite. O som provocado pela fricção de seus adornos de tornozelo feitos de ouro, faziam o chão maravilhoso como o do monte Meru.

 

     O Oceano e os rios, acompanhados por Sukra consagraram Jalandhara o rei daquele lugar com instrumentos musicais que tocavam automaticamente. Cremos que Sukra deva ter realizado todos os rituais auspiciosos na ocasião do casamento de Jalandhara com a Terra e na sua consagração como o rei daquele lugar, com mantras festivos. Foi uma ocasião onde se realizaram todos os rituais auspiciosos, como os que o senhor Brahma executou na ocasião da vitória de Skanda sobre Taraka, ou como aqueles que Brhaspati realizou na ocasião do festival da coroação de Indra.

 

     O grandioso Oceano deu a Jalandhara um temível exército que surgiu do seu interior e que reunia mil mahapadmas. Sukra também deu a Jalandhara com muito amor a sua apaixonante coleção de textos sagrados, chamada Mrta-sañjivani, que deixou o próprio Rudra apaixonado. Brahma deu ao filho do Oceano inúmeras outras escrituras secretas sobre armas e mísseis. Sukra lhe explicou o significado de todos aqueles textos.

 

     E depois de consagrar o seu filho, o Oceano, acompanhado pelos rios, foi com o seu corpo divino para sua morada. Jalandhara viu aquela cidade divina adornada com os seus portais; e depois de ser honrado por um grupo de brâmanes, para lá se mudou com Sukra. Enquanto isso, todos os demônios poderosos que viviam nas regiões inferiores, liderados por Kalanemi, vieram ver Jalandhara. Então, os poderosos heróis apontaram Sumbhasura como o general do exército, que se assemelhava ao oceano de leite. Jalandhara, tendo o exército sob o seu controle, fazendo com que a água se tornasse estável, contemplou o reino dado por seu pai.

 

     Antigamente havia uma ninfa celestial chamada SvarNa. Ela foi favorecida por Krauñca com uma filha chamada Vrnda. O próprio Criador foi o responsável pelas feições do corpo de Vrnda, parece que Ele reuniu toda a beleza e esplendor naquele corpo. SvarNa deu aquela sua filha encantadora a Sukra, que a havia solicitado para casá-la com Jadhnadara.

     Sukra disse a Vrnda:

     - Ó senhora encantadora, tenha uma vida longa e seja feliz com a maravilhosa arma de Cupido, que fere os os olhos do mundo. Receba este belo e valoroso guerreiro como seu esposo. Para você ele será o próprio Cupido.

     O filho do Oceano desposou Vrnda de acordo com o tipo de casamento gandharva. Ó rei, o casal causou deleite nas pessoas. Ela abandonou toda a leviandade feminina e ele, seguindo a prática dos homens sábios, não desejou nenhuma outra mulher.

     Uma vez, sentado na sua assembléia, Jalandhara viu Rahu com a sua cabeça cortada e perguntou a Sukra:

     - Onde está o resto do corpo dele?

     Sukra contou ao filho do Oceano a antiga narrativa do início da criação, como o oceano de leite fora batido pelos semideuses para a obtenção do néctar. Ao ouvi-la, o demônio Jalandhara ficou surpreso, e disse estas palavras:

     - Você deve ficar favorável a Rahu, para que ele possa ter uma bela forma.

     Seguindo o conselho de Sukra, o valoroso filho do Oceano, à semelhança do seu tio paterno, começou uma guerra contra os semideuses.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                   CAPÍTULO V

 

                   A Guerra Entre os Semideuses e os Demônios

 

     Yudhisdhira indagou:

 

     - Quem é o tio paterno do filho do Oceano? O que aconteceu com ele na guerra? Como o demônio lutou? Ó Narada, conte-me tudo isso.

 

     Narada respondeu:

 

     - Ouça, ó melhor dos reis. O Oceano de Leite é o tio paterno de Jalandhara. Depois da sua batedura os semideuses e demônios extraíram dele Laksmi, a Lua, o elefante Airavata, o cavalo Uccaiƒsravas e os semideuses agarraram tudo o que era valioso. Ao ouvir isso o demônio Jalandhara resolveu lutar contra os semideuses. Aquele poderoso demônio instruiu o seu mensageiro DurvaraNa  sobre o que dizer e o enviou até a morada do senhor dos semideuses. Então, conduzindo a sua quadriga, DurvaraNa foi para o céu. Quando desejava entrar na residência de Indra os porteiros proibiram-no de fazê-lo.

 

     O mensageiro disse:

 

     - Sou mensageiro de Jalandhara. Vim ver Indra. Por favor, deixem-me entrar e informa-lo respeitosamente sobre o motivo de minha chegada.

 

     Então um mensageiro, ao ouvir estas palavras, foi informar Indra, o senhor de Saci. Depois de saudá-lo, disse: "Ó senhor, chegou aqui um mensageiro da Terra." E Indra respondeu: "Traga-o até aqui." Segurando o mensageiro pela mão, o porteiro o levou até Indra. DurvaraNa entrou na assembléia dos semideuses. Viu Indra rodeado por trinta e três bilhões de semideuses, sentado num divino trono de ouro, abanado pelas brisas provocadas pelo abano de finas tapeçarias, com os seus mil olhos semelhantes a lótus abertos, cheios de amor por Saci. Então DurvaraNa, vendo o rei dos semideuses junto com Brhaspati, sorrindo ante a beleza dos seus olhos, o saudou.

 

     O mensageiro de Jalandhara ocupou o assento a ele indicado. Indra lhe disse: "Quem o enviou até aqui? Qual é a sua missão?" E ele respondeu para Indra: "Sou um enviado de Jalandhara. Ele é o rei de todos os mundos. Quero que ouça a ordem que ele envia: 'Por que você bateu o Oceano de Leite, o meu tio paterno, usando a montanha Mandara? Você levou todo o tesouro, riquezas imensas como Laksmi, a Lua, o elefante Airavata, o cavalo Uccaiƒsravas e pedras preciosas como os corais. Devolva tudo isso. E também, ó Indra, saia do céu depressa. Eu ordeno-lhe que faça tudo o que é apropriado. Se você deseja viver, trate de me pedir desculpas.' Então Indra riu e disse para DurvaraNa: "Ó mensageiro, ouça sucintamente o motivo da batedura do Oceano de Leite.

 

 Antigamente o meu inimigo Mainaka, o filho de Himalaia, se aliou ao tolo Oceano, e o patife Oceano também mantinha o Fogo na forma de um cavalo, que queimava todas as criaturas móveis e imóveis. Este senhor é o local de refúgio de demônios, os que odeiam Dharma. Ele sempre dá iogurte, ghee e leite para os demônios. Portanto, DuvaraNa, ele foi batido por nós; e perdendo as suas riquezas, foi devidamente punido pelos semideuses. Ouça, ó mensageiro. Ele foi seco pelo brâmane Agastya, que nasceu de um pote, por Agastya ter se associado a mim. O Oceano além disso vive atormentado devido à má companhia. Se ele vier com todo o seu exército, por estar certo que encontrará a sua destruição."

     Depois de dizer isso, Indra se calou. O matador de Vrtra (Indra) saudou o mensageiro do filho do Oceano, que voltou para transmitir ao seu senhor o que o rei dos semideuses havia dito.

     Narada disse:

     - Depois de ouvir as palavras de Indra através do relato do mensageiro, o filho do Oceano ficou irado e convocou todo o seu exército. Então, por ordem de Jalandhara, os demônios que viviam nas regiões infraterrenas, e também aqueles que viviam na Terra, reuniram os seus exércitos ao de Jalandhara. Jalandhara partiu em marcha. Devido o rugido do exército de Jalandhara, ó rei, o céu, as regiões infraterrenas e todas as direções se agitaram. Demônios medonhos com faces de cavalo, elefantes, tigres, camelos, gatos, leões, ratos, com olhos faiscantes; demônios com cabelos de serpentes, corpos enormes, alguns com unhas semelhantes a espadas, corriam e rugiam como trovões. Ó rei, todo o exército, cheio de quadrigas, elefantes, cavalos e infantaria, medonho devido à multidão que o compunha, seguia agitado com a perspectiva da guerra. Jalandhara ia célere na vanguarda, num aeroplano puxado por bilhões de cisnes, repleto de uma parafernália bélica incalculável. No primeiro dia e e suas forças chegaram ao monte Mandara ao meio-dia. Suas divisões incluíam muitos carregadores de palanquins e elefantes. No segundo dia chegaram ao monte Meru. O grande exército permaneceu num pico chamado Ilavrta.

 

     Então o chefe dos demônios destruiu o KhaNava, a floresta de Nandana. O grande demônio despedaçou os picos do Meru, e depois de amarrar os cisnes nas árvores santana, flertou com as mulheres siddhas. O rio Meru ficou cheio de açafrão dos seios delas, de tambulas, sândalo, agaru, flores e ornamentos que caíram de seus cabelos. A porção leste do grande Meru foi sacudida pelos seus elefantes. As quadrigas se deslocavam pelo sul e os guerreiros pelo norte e oeste. Então o demônio Jalandhara fez com que os demônios se exibissem, e sob o som de marchas militares, partiram para o pico Mahendra. Depois de destruir a cidade do rei dos reis, e as cidades de Yama e VaruNa, das cidades dos regentes das direções, ele se aproximou de Amaravati.

 

     Então presságios inauspiciosos surgiram no céu, na Terra e na atmosfera. Caiu muita poeira e uma grande escuridão tomou conta de tudo. O raio de Indra, já sem brilho, caiu das suas mãos. Observando estes presságios terríveis, Indra disse para Brhaspati:

     - O que devemos fazer? Onde vamos nos refugiar? Veja, a guerra é iminente.

     Brhaspati respondeu:

     - Aproxime-se dos pés de VisNu e vá viver em VaikuNdha.

     Assim orientado por Brhaspati, Indra partiu para a morada de VisNu, VaikuNdha, indo se abrigar no inimigo de Kaidabha (VisNu). Vijaya, o porteiro de VaikuNdha, foi informar a VisNu da chegada dos semideuses:

     - Os semideuses, tremendo de medo de Jalandhara, vieram até aqui.

     Sri, a esposa de VisNu, Lhe disse:

     - Sei que Você vai tomar o partido dos semideuses, mas por favor, não mate Jalandhara, ele é Meu irmão. Ele só deve ser amaldiçoado, mas não o mate.

     Ao ouvir estas palavras de Laksmi, VisNu, o protetor dos três mundos, montou sobre Garua, que encobriu o céu com o bater das suas asas. Hari Se deslocou rapidamente de VaikuNdha e foi ver os semideuses que tremiam de medo de Jalandhara e tinham perdido todo brilho corpóreo. Os semideuses, viram VisNu, que parecia uma nuvem carregada, com as Suas quatro mãos adornadas com o arco Sar‰ga, o búzio, a maça e o disco. Depois de adorá-lO com um hino de louvor, Indra disse:

 

     - Ó Deus, Jalandhara, o filho do senhor dos rios devastou o céu.

 

     Ao ouvir estas palavras de Indra e depois de garantir a segurança dos habitantes do céu, VisNu, o destruidor dos demônios, salientou-Se entre os semideuses para conquistar o demônio. Então Indra, segurando o raio e embarcando na quadriga conduzida por Malati, seguiu à frente de VisNu. Todos os semideuses seguiam pelo lado esquerdo. Agni, que gosta muito das oblações, sentado num carneiro, ia pelo lado sul. O filho de Indra, Jayanta, montado no elefante Airavata e Indra montado no cavalo Uccaiƒsravas, seguiam à frente do Senhor. Lá estavam Dhatr, Aryaman, Mitra, VaruNa, Ansa, Bhaga, Vivasvat, Pasan, Parjamya. Tvasr e o irmão mais novo de Indra (VisNu) se destacavam. Acompanhando Indra também estavam os doze ndityas e os onze Rudras: Virabhadra, Sambhu, o glorioso Girisa, Ajaikapada, Ahirbudhnya, Pinakin que nunca foi derrotado, Bhuvanadhisvara, Kapalin, SthaNu, Bhaga e Bhagavat. Ó rei, com Indra também seguiam os oito Maruts (Svasana, Sparsana, Vayu, Anila, Maruta, PraNa, Apana e Sajiva). Visvavat também se juntou a ele com suas dez formas.  Num palanquim, lá estava Kuvera, o senhor do tesouro.

 

     Os Rudras montavam touros, Maruta era carregado por um gamo, levando armas como tridentes e uma maça de ferro, e iam à frente do exército. Gandharvas, caraNas, yaksas, pisacas, serpentes, guhyakas se adiantavam levando todo tipo de armas. Os soldados atravessaram os oceanos leste e oeste. Foi neste oceano que Hari, com a forma de um javali, se adiantou desejando matar o exército de demônios, depois de vir correndo lá do céu. Toda a parte norte do Sumeru estava coberta pelo exército dos semideuses. O grandioso exército de Jalandhara se agrupou rapidamente no pico sul da montanha dourada. O campo de batalha seria a região de Ilavrta, entre os montes Mandara e o Meru. Os demônios correram para lá, cheios de alegria, pois aquela região era tida como muito auspiciosa para a vitória de Sukra. Os semideuses também correram para lá, pois aquela região era descrita como sendo muito favorável a Brhaspati.

 

     Ali se reuniram excelentes quadrigas, uma enorme multidão de elefantes parecia uma massa compacta de nuvens. A terra brilhava com inúmeros cavalos e ruidosa infantaria, que avançavam à frente de Garua. Então houve um som tumultuoso de instrumentos musicais tocados por ambos os exércitos; e também o tumulto dos rugidos dos guerreiros de ambos os lados.

 

     Uma guerra de grandes proporções, medonha, acontecia entre os semideuses e os demônios. O atrito entre os exércitos parecia que iria destruir os três mundos. Sruti (o texto sagrado) cheio de medo e muito fadigado, chorava inconsolavelmente. Naquele momento o campo de batalha estava cheio de setas que ocultavam as formas das quadrigas.

 

     O céu, encoberto pela poeira, era horripilante. Ela chorava de medo (o céu nos textos védicos é feminino) com a sonoridade dos pássaros. Então Indra ordenou que grandes nuvens como a Sanvartaka se aproximassem e elas montadas sobre seus elefantes entraram na batalha. Gandharvas e kinnaras passaram a ser os condutores dos cavalos dos semideuses. Sadhyas e siddhas passaram a ser os quadrigiários. Yaksas e caraNas, os condutores dos elefantes. As serpentes que comem ar e alguns kinnaras se tornaram soldados de infantaria. Ó rei, Yama se tornou o comandante das doenças.

     Uma batalha feroz ocorreu entre os demônios e as doenças. Os demônios acometidos por doenças agudas como a dor e a febre caiam e rolavam pelo chão. As doença atacadas pelos demônios caiam no campo de batalha. Algumas doenças fugiram para as montanhas. Lá elas encontraram ervas naturais que as deixaram viver sem problemas. As tropas de infantaria dos demônios mataram todos os soldados da infantaria dos semideuses com suas flechas, malhos, lanças aguçadas, espadas afiadas e machadinhas. Bilhões de soldados, com os corpos ensanguentados, se matavam uns aos outros. Os velozes cavalos arrojavam os cavaleiros no céu, e com os corpos tintos de sangue, eles se degladiavam, ferindo-se em combate.

     Uma terrível multidão de combatentes em quadrigas cobria a terra. Lutavam com flechas aguçadas, e se depedaçavam uns aos outros. Os elefantes, com as têmporas emaciadas devido à jornada, irados, lutavam com as trombas e presas. Um demônio ergueu uma quadriga com as mão e subiu para o céu. Ele derrubou um grupo de cavaleiros e de elefantes e os carregou nos ombros indo ao encontro de Jalandhara. Outros demônios, pegando um elefante de cada lado, outro na barriga e outro na cabeça, corriam com eles pelo campo de batalha. Um demônio sacou sua espada e a agitou no céu, derrubando milhares de semideuses no campo de batalha.

     Uma semideusa capaz de voar, luxuriosa, com grandes seios, corpo esguio, veio rapidamente do céu e levou um demônio do campo de batalha. Ela beijou a face dele e o espetou com flechas agudas. Então Kalanemi, depois de assolar o exército dos semideuses, dançou.

     VisNu, irado, foi atacar Kalanemi; Yama lutava contra DurvaraNa e Rahu contra a Lua e o Sol. Vaisvanara foi atacar Ketu e Brhaspati foi combater Sukra. Os cautelosos Asvinis foram atacar o demônio A‰garaparNaka. Jayanta, o filho de Indra, atacou Sanharada e Kuvera atacou Niharada. Os Rudras se lançaram sobre Nisumbha e os Vasus sobre Sumbha. Os Visvedevas foram atacar Jambha que estava sob a forma de uma nuvem. Os Vayus foram atacar Vajraroman, e Mrtyu foi atacar Maya. Vasava com um míssil sakti em suas mãos correu para atacar Namuci que estava distraído. Os outros semideuses marchavam sobre os demônios com muito valor.

 

 

 

                   CAPÍTULO VI

 

 

                   A Morte do Demônio Bala

 

 

 

     Narada continuou:

 

     - Quando inúmeros duelos começaram, VisNu, irado, golpeou Kalanemi com a Sua maça. Este, depois de se recuperar do desmaio, atacou VisNu com flechas. Então VisNu, irado, o matou, prostrando-o ao solo. Ó rei, depois de refletir, Candrama (a Lua) atacou Rahu com uma espada. Rahu a deixou, indo atacar o Sol. Depois de conquistar o Sol, Rahu voltou para atacar a Lua. A senhora da noite (a Lua) o golpeou com a espada.

 

 Devido à dureza do corpo de Rahu a espada se pulverizou. Rahu passou a golpear a Lua com os punhos. Depois de derrubar Candra, ele a engoliu rapidamente e logo a cuspiu. E pondo a sua marca, um gamo, no peito da Lua, ele a abandonou. Rahu capturou o cavalo Uccaiƒsravas e o levou para Jalandhara, oferecendo-o com devoção. O irado DurvaraNa golpeou Yama com uma maça de guerra. Sanhrada foi ferido com as flechas de Jayanta e derrubou Jayanta do seu elefante Airavata com o golpe de uma maça e o levou desacordado para Jalandhara. Kuvera também golpeou Nirhada com a sua maça. Os Rudras atingiram Nisumbha com as suas pontas de suas lanças. E este demônio também estava sendo atacado com saraivadas de flechas.

 

 O demônio Sumbha cobriu a legião dos semideuses com uma chuva de flechas. Maya, cheio de falsidade, amarrou Yama com cordas e o levou para Jalandhara. Ele o deu para Jalandhara que deu Yama e Jayanta para o Oceano. O Oceano engoliu Yama para que o mundo ficasse livre do medo da morte. Indra agarrou Namuci, o destruidor do Universo, e o levou. Ó rei, houve uma batalha feroz entre Indra e Bala. O esplendor do corpo de Bala brilhava como o Sol, iluminando todas as direções. Todos os mísseis de Indra atingiram o corpo de Bala. O poderoso Bala atingiu o peito de Indra com um malho. Indra então rugiu furioso. Ouvindo isso Bala riu. Da sua boca que ria saíram pérolas. Desejando a segurança do seu corpo, Indra não lutou. Ele elogiou Bala, o oceano de força. O demônio, muito orgulhoso disse:

    - Ó senhor dos semideuses, solicite uma bênção!

    Ao ouvir isso, Indra respondeu:

    - Ó senhor dos demônios, se você está satisfeito, então me dê o seu corpo.

    Ao ouvir estas palavras de Indra, Bala respondeu:

    - Corte o meu corpo com as suas armas e carregue-o. O que um nobre não pode dar? A riqueza é inútil para um miserável, assim como são as palavras para quem não pode ouvir, ou como uma bela mulher para os olhos inúteis de um cego, ou como uma guirlanda para um morto. Os nobres não matam os inimigos derrotados apesar dos malefícios por eles causados. Assim como um homem generoso, dedicado ao bem estar dos outros, não fica preocupado nem com o cataclismo universal. A árvore de sândalo apesar de ser cortada, torna a lâmina do machado perfumada. Mesmo um corpo divino perece, mas nunca o fruto da riqueza dada a uma pessoa meritória.  Quem exibe generosidade com aqueles que o molestam, são os bons e estão no no cimo da Terra. Até um patife ama a quem permite que o seu corpo seja retaliado por quem anteriormente o agrediu."

 

     Dizendo, "Está bem!" Indra atingiu Bala com um malho. Contudo o seu corpo não se desfez. Indra ficou preocupado. Matali o aconselhou a golpeá-lo com o raio. Com o golpe do raio de Indra o corpo de Bala se despedaçou. Uma parte dele caiu sobre a montanha de ouro e outra sobre os Himalaias. Uma terceira caiu na montanha Go, outra no rio sagrado. A quinta caiu sobre a montanha Mandara e outra caiu numa mina de diamantes.

 

     Devido a este ato puro, todas as partes do seu corpo ficaram puras e se tornaram fontes de pedras preciosas. Partículas de ossos caíram do raio e os hexágonos se tornaram pedras preciosas. Dos seus olhos caíram safiras. Seu sangue e suas orelhas produziram rubis. Esmeraldas foram produzidas do seu tutano. Sua língua produziu corais. Os dentes se tornaram pérolas, e mais esmeraldas foram produzidas do seu nariz. Seu excremento virou bronze. O semem virou prata. O cobre foi produzido da sua urina. O unguento do corpo virou latão. Das suas vísceras surgiram o lápis-lazuli e outras gemas encantadoras. O ouro foi produzido das suas unhas. O mercúrio saiu do seu sangue. Seus tutanos também viraram cristal. Sua carne virou coral. Foi desta maneira que as gemas foram produzidas na Terra do corpo de Bala. Elas são desfrutadas pelas pessoas puras devido à riqueza que elas têm de mérito religioso acumulado.

 

     Nisso, sua rainha chamada Prabhavati, ao ficar sabendo que Bala havia sido morto por Indra, aproximou-se do local. Ao ver o seu esposo despedaçado, Prabhavati, cheia de lágrimas, com o cabelo em desalinho, aos prantos lamentou:

 

     - Ó senhor! Ó Bala! Ó bravo guerreiro, você tinha um corpo tão belo, todo mundo o estimava, por que você me abandonou e partiu com tanta indiferença? Os homens nunca desejam abandonar seus corpos, mesmo sabendo que estão sendo oprimidos pela velhice ou pela lepra. Ó meu querido, no entanto, você abandonou o seu corpo em vão. Ó querido, seu corpo divino agora virou minerais preciosos. Ó querido, agora estou sendo afligida pela viuvez, devido ao seu anseio em lutar.

     Ao ver a rainha assim tão aflita, o filho do Oceano disse para Sukra:

     - Ó Bhargava, traga-o de volta à vida!

     Sukra respondeu:

     - Ele morreu voluntariamente, como posso trazê-lo de volta à vida? Mas devido ao poder do meu mantra, ele será capaz de falar novamente.

 

     Jalandhara disse:

 

     - Ó Bhagava, quero ver a forma de Bala e ouvir suas palavras.

     Após esta solicitação de Jalandhara, Sukra entrou num transe através da meditação. E então da sua boca surgiu uma voz que se dirigiu a Prabhavati. Era como a de um instrumento musical:

     - Ó Prabhavati, una o seu corpo com as partes do meu corpo.

     Ao ouvir estas palavras, Prabhavati se transformou num rio. Ela então se uniu às partes do corpo de Bala e passou a fluir rumo leste. Devido à sua água as gemas adquiriram um brilho excelente.

 

 

                   CAPÍTULO VII

 

 

                   Laksmi Intervém na Luta entre VisNu e Jalandhara

 

 

 

     Narada continuou:

     - Então muito irado, Jalandhara falou para Indra, que havia matado o demônio:

     - Ó seu patife, o que você pretende fazer depois de ter matado Bala tão traiçoeiramente?

     Ao dizer isso, o bravo filho do Oceano atingiu a quadriga, o quadrigiário, os cavalos e a bandeira de Indra. Indra ferido pelas flechas, desmaiou e caiu da quadriga.

 

     Ao ver Indra caído, o filho do Oceano deu um forte rugido. Recuperando a consciência, Indra disparou o seu raio contra Jalandhara. Segurando um pico de montanha o filho do Oceano conteve o raio e desceu rapidamente da sua quadriga, correndo para Indra, desejando agarrá-lO. Indra desceu da sua quadriga e fugiu apavorado, lembrando-se de VisNu. O arrogante filho do Oceano subiu na quadriga de Indra, fazendo de Matali o seu quadrigiário, satisfazendo um antigo desejo. Nesta quadriga Jalandhara agora corria célere como as nuvens. Então, irado, VisNu ergueu a Sua espada, a Nandaka, e incitando Garua, que tem a velocidade da mente, golpeou o exército dos demônios com muita fúria. Ele derrubou quadrigas, cavalos, elefantes e milhares de soldados de infantaria.

 

     VisNu acompanhado pelo filho de Kasyapa (Garua) combatia ferozmente. O campo de batalha havia se transformado num rio, levando cabelos, ossos, tutano numa corrente de sangue, que reunia duendes, vampiros e pássaros, cheia de mãos, pernas, coxas, mísseis e armas, que era muito difícil de se atravessar, que também era procurada por tigres e grandes elefantes, decorados com sangue, entranhas, colares e pulseiras. Ao verem o exército golpeado desta maneira por VisNu, Jalandhara ordenou que os mais valorosos demônios tentassem contê-lO por todos os meios.

 

     Então aqueles demônios lançaram uma chuva de flechas, que ocultou a luz do dia como um enxame de abelhas, ou uma revoada de pássaros, ou uma imensa névoa de incenso no céu. Naquela perigosa batalha, VisNu não era visível, e nem mesmo Garua. Todos aqueles temíveis demônios, que combatiam em seus carros, rugiam de forma assustadora, golpeados pelas armas de VisNu.

     VisNu, o irado inimigo dos demônios, com uma forma terrível, golpeava implacavelmente todos eles, derrubando-os como o vento derruba as folhas das árvores. Então o demônio Sailaroman, correu irado contra VisNu. Até mesmo as flechas de VisNu se depedaçavam ao atingirem o corpo daquele demônio. Sailaroman também arremessava flechas contra VisNu, que erguendo a Sua espada, cortou-lhe a cabeça. Quando a cabeça do demônio foi cortada, o seu corpo começou a andar pelo campo de batalha e foi agarrado por Garua. A sua cabeça também saiu pulando rapidamente e foi se unir ao corpo. Ao ver a disposição de luta naquela face, até VisNu ficou surpreso. Ao ver aquela cabeça vindo se encravar no corpo, Garua caiu ao solo assustado. E voando com rapidez ela voltou ao corpo. Então poderoso Sailaroman derrubou VisNu de Garua. VisNu deu-lhe um tapa com a palma da mão e Sailaroman caiu morto no chão. Nisso, Jalandhara disse para Khagaroman, seu quadrigiário:

 

     - Dirija o carro até lá onde está VisNu.

     Com esta ordem Khagaroman dirigiu o carro até lá. Ao ver VisNu diante dele, o filho do Oceano disse:

     - Ó VisNu, não tenha medo, mate-me. Eu não vou matar Você, ó Madhava!

 

     Ao ouvir estas palavras do demônio, VisNu, com os olhos rubros de ira, cobriu-o com flechas fatais. O valente filho do Oceano, com o corpo todo perfurado por VisNu, arremessou uma chuva de flechas contra Ele. Garua, atingido por centenas de flechas, caiu inconsciente. Ao ver Garua caído no chão, depois de atingido pelas flechas de Jalandhara, VisNu Se lembrou da Sua quadriga, que havia ficado em VaikuNdha. A quadriga, sem o condutor, mas com os cavalos atrelados, chegou até Ele. Ao ver a quadriga e os cavalos atrelados no campo de batalha o Senhor ficou surpreso.

 

     Despertando Garua, Ele o designou como quadrigiário. VisNu, colocando a coroa sobre a Sua cabeça e a jóia Kaustubha em Seu peito, ordenou que os cavalos se aproximassem rapidamente de Jalandhara. Ele foi rasgando a terra com as rodas da quadriga e desferiu uma chuva de flechas contra o exército dos demônios. Os semideuses, comandados pelo Senhor, atearam Agni (o Fogo) no exército dos demônios, com a ajuda do deus do vento. Neste momento, o Senhor, juntamente com os semideuses, destruiu o exército dos demônios. Ao ver que apenas uma pequena parte do exército havia sobrado, Jalandhara ficou taciturno e disse para Sukra:

 

     - Mesmo você estando aqui presente e sendo muito versado em encantamentos, os semideuses destruíram o meu exército. Você é muito conhecido pela sua habilidade na compreensão dos textos sagrados. Ó brâmane, qual a utilidade deste conhecimento se ele não protege aqueles que são acometidos pelas doenças e qual a utilidade de um ksatriya se ele não dá proteção a quem busca refúgio em sua força?

 

     Ao ouvir estas palavras de Jalandhara, Sukra respondeu:

     - Ó rei, agora veja o meu poder bramínico.

     Ao dizer isso ele tocou a água e borrifou algumas gotas sobre eles, proferiu o som "hum" e todos os demônios foram ressussitados. O filho do Oceano passou a desferir inúmeras flechas contra os semideuses, que caiam pelo campo de batalha. Ó rei, com os seus corpos feridos pelas flechas, eles ainda mantinham as suas vidas. Eles não morriam devido à sua imortalidade. Então VisNu disse para Brhaspati:

 

     - Ó guru dos semideuses! Que vergonha que você não possa ressussitar os semideuses!

     Brhaspati então imediatamente respondeu ao Senhor dos mundos:

     - Ó Senhor, devo revitalizá-los novamente com o poder das ervas.

     Dizendo isso, Brhaspati foi para a montanha DroNa, que repousa no oceano e de lá trouxe as ervas. Ao usá-las ele revitalizou os semideuses. Os semideuses se ergueram novamente e atacaram os demônios, matando todo o exército. Ao ver os semideuses assim revitalizados, Jalandhara disse para Sukra:

     - Ó Sukra, como eles se levantaram assim contrariando os seus poderes?

     Ao ouvir estas palavras Sukra respondeu para o filho do Oceano:

 

     - Há uma grande montanha chamada DroNa, que está no oceano. Lá existem ervas, que podem fazer até um morto voltar a viver. O guru dos semideuses, Brhaspati foi até lá, colheu as ervas e com o seu encanto revitalizou todos os semideuses que haviam tombado na batalha.

 

     Ao ouvir o que Sukra disse, Jalandhara deixou o seu exército sob os cuidados de Sumbha e foi para o Oceano.

     Ao chegar no Oceano de Leite, ele entrou numa casa divina, muito brilhante e viu os aposentos de prazer do Oceano de Leite. Lá dentro nenhuma brisa, fria ou quente, soprava. Lá não havia escuridão. Haviam lindas moças, com fartos seios, com cinturas esbeltas e bons dentes, cantando, dançando e se divertindo. Aquelas moças lançaram-lhe olhares amorosos, movendo-se por todas as direções, com os seus corpos fascinantes, agitando seus braços com movimentos encantadores em compasso com os seus passos, proferindo doces palavras e louvores, dando prazer enorme com sua fragrância, agitando divertidamente tapeçarias que serviam de abanos, com guirlandas, todas sorridentes. Ao chegar lá, o filho do Oceano, ansioso em lutar e em se encontrar com o Oceano de Leite, saudou o seu tio e lhe disse:

     - Ó tio, você está me matando! Você vem fornecendo ervas medicinais de DroNa a Brhaspati.

     O Oceano de Leite respondeu:

     - Ó filho, como posso inundar com minhas ondas quem vem buscar refúgio em mim? Os sábios não louvam a conduta de quem abandona àquele que vem em busca de refúgio.

     Ao ouvir estas palavras do seu tio paterno, o rei dos demônios muito irado passou a desferir ponta-pés na montanha DroNa. Então, ó rei, a montanha DroNa com muito medo de Jalandhara surgiu diante dele em sua forma original e disse:

 

     - Eu me tornei sua serva. Proteja quem vem se refugiar em você. Por sua ordem devo me dirigir às regiões inferiores. Devo permanecer lá enquanto você for o rei daquele lugar.

     Acompanhada pelo choro das ervas e pelo lamento dos sábios, DroNa foi para as regiões infraterrenas, enquanto o filho do Oceano a observava. Então o herói Jalandhara voltou ao campo de batalha. Subindo numa quadriga, ele correu para onde estava VisNu. Ao ver VisNu sentado em Sua quadriga, ele deu uma gargalhada e disse:

 

     - Espere em Sua quadriga enquanto mato os outros inimigos.

     Depois de dizer isso, o demônio saiu golpeando o exército dos semideuses. Os semideuses assolados pelas flechas, disseram a Brhaspati:

 

     - Proteja-nos!

     Brhaspati então se dirigiu rapidamente ao Oceano de Leite. Ó rei, ao não encontrar a montanha DroNa, ele ficou muito ansioso, e voltando ao campo de batalha, disse para os semideuses:

     - Ó semideuses! Corram! A montanha DroNa desapareceu.

     O filho do Oceano, rindo dos semideuses, cortou o cordão sagrado e os cabelos de Brhaspati com suas flechas aguçadas. Brhaspati, temendo por sua vida saiu correndo. Ó rei, então todos os semideuses fugiram em debandada. Depois de fazer os semideuses debandarem, Jalandhara correu até VisNu. VisNu também, ansioso em lutar, correu para encontrar o senhor dos demônios. Houve uma feroz batalha entre VisNu e Jalandhara.  O demônio recepcionou VisNu com uma chuva de flechas. O poderoso VisNu despedaçou todas as flechas de Jalandhara com as Suas flechas, deixando-o muito preocupado. Jalandhara, atingido pelas flechas de VisNu, abandonou a sua quadriga, e correu até VisNu na tentativa de conquistá-lO. Ao vê-lo chegando, VisNu o atingiu com inúmeras flechas. Com o corpo todo trespassado, Jalandhara se aproximou da quadriga de VisNu. Com uma das mãos ele girou Garua no ar e com a outra a quadriga de VisNu e os arremessou sobre Svepa-dvipa. Garua, arremessado pela mão de Jalandhara, caiu ao solo, ficando sem sentidos por um longo tempo. VisNu, livrando-Se da quadriga rodopiando no ar, desceu ao campo de batalha e disse para o senhor dos demônios:

     - Espere só!

     O filho do Oceano, desejando lutar, ao ver que VisNu voltava para o campo de batalha, arremessou inúmeras flechas e rugiu. VisNu com toda a presteza atingiu o peito de Jalandhara com um míssil chamado sakti-vibrava. O demônio foi arremessado ao solo. O filho do demônio então o levou do campo de batalha para a sua residência, e lhe disse:

 

     - Oh! Quem me fez passar esta vergonha?

     Então houve uma terrível luta entre VisNu, o inimigo dos demônios, e Jalandhara. VisNu não matou o demônio por amor a Laksmi e foi duramente atingido pelas flechas de Jalandhara. Ao ver VisNu caído no chão, o filho do Oceano, O ergueu e O levou na quadriga. Nisso, Laksmi a amada de VisNu, veio se lamentando. Vendo Seu esposo caído, com lágrimas em Seus olhos de lótus, Laksmi disse para o demônio:

     - Ó irmão, ouça as Minhas palavras. Você conquistou e capturou VisNu. Você é muito valoroso, não é apropriado que agora faça a sua irmã ficar viúva.

 

     Ao ouvir estas palavras, ele libertou o Senhor dos mundos, VisNu. Então, Jalandhara de braços poderosos, saudou à sua irmã devotadamente. E depois adorou os pés de lótus de VisNu por Sua devoção à sua irmã. VisNu disse para Jalandhara:

     - Estou satisfeito com a sua atitude. Ó senhor dos demônios, peça uma bênção. Que bênção devo conceder-lhe?

     Jalandhara disse:

     - Ó VisNu, se Você ficou satisfeito com este meu ato de valor, então vá residir com Laksmi na morada do meu pai.

     Dizendo: "Está bem", o Senhor do Universo, meditou em Garua, e montado sobre ele chegou ao Oceano de Leite com Sua esposa Laksmi. Desde então, KrsNa vive na casa do Seu sogro. O Senhor dos deuses, desejando o que satisfaz Laksmi, vive no oceano.

 

 

 

                   CAPÍTULO VIII

 

 

                   As Condições Durante o Reinado de Jalandhara

 

 

 

     Yudhisdhira disse:

     - ó Narada, diga-me o que fez Jalandhara, o filho do Oceano, depois de fazer com que os semideuses fugissem do campo de batalha e depois de mandar VisNu ir morar na sua própria casa.

     Narada disse:

     Depois de distribuir presentes aos heróis como Sumbha, muito satisfeito, Jalandhara foi para o céu, e chegando lá viu as árvores que carregam frutos constantemente, decorando as pessoas com salvas de ouro. Este é o fruto de um sacrifício de cavalo. As pessoas nobres que dão um elefante, roupas, ouro, uma vaca, uma menina em idade de se casar, sementes de gergelim, flores, cânfora, tambala, almíscar e açafrão, vêm Amaravati. Elas podem ver Amaravati por dar uma casa que abrigue durante a estação das chuvas e que dê calor na estação do inverno. Aquelas que tocam instrumentos num templo de Siva, ou aquelas que arrumam um local onde se distribua água no mês de caitra, também têm a oportunidade de ver Amaravati. Nesta cidade os balanços de repouso balançam automaticamente. Existem sarikas, papagaios, cisnes, abelhas e cucos que agem como mensageiros e provocam a união entre os amantes.

 

     Lá vivem as ninfas celestiais como Rambha, Menaka, Tilottama, Susama, Sundari, Ghrtaci, Pañjikasthali, Sukesi, Sumuki, Rama, Mañjughosa e Malini e também Mrgodbhava, Sukhada, Dhanadansdra, Tilaprabha, que fazem com que os homens recebam os frutos dos sacrifícios de Asvamedha e que dão os frutos dos sacrifícios Rajasaya. Lá bilhões de ninfas celestiais imaculadas desfrutam despreocupadas. O filho do Oceano estabeleceu o demônio Sambham que lhe era muito querido, num céu como aquele. E depois de voltar do céu, ele consagrou Nisumbha como o seu dignatário. Jalandhara governou, devido ao seu grande poder, por cerca de duzentos milhões de anos.

 

     Yudhisdhira disse:

     - Ele combateu os semideuses e não foi derrotado por eles. O que o filho do Oceano fez depois disso? Desejamos ouvir sobre isso, por favor, conte-nos em detalhes.

 

     Narada disse:

     - Ó rei, ouça apropriadamente o que fez o filho do Oceano. Depois de conquistar os semideuses, ele governou sem nenhum problema. Gandharvas como Citrasena eram seus serviçais. O senhor dos demônios também desfrutava de parte das oferendas dos sacrifícios. O poderoso demônio sequestrou todos os bens dos semideuses derrotados.

 

     Ó rei, quando o filho do Oceano governava sobre a Terra, nenhum ser humano morria e ninguém ia para o inferno. Não havia nada a fazer a não ser desfrutar. Não haviam mulheres estéreis desafortunadas.  Não havia nenhuma mulher feia, aflita ou malévola. Não haviam viúvas e nem homens pobres. Todo mundo fazia doações e nada desejava. As pessoas meritórias davam caridade aos brâmanes. Em todas as casas as mulheres eram muito belas e jovens. Havia abundância de leite de vaca, iogurte e ghee. Os homens não envelheciam. Todos eram muito felizes, não havia nada que os estorvasse. Ninguém maltratava os outros. Não haviam assassinatos. Ninguém tinha que suportar dívidas. Todas as pessoas eram ricas. Ó rei, os súditos vivam contentes, as colheitas eram abundantes. Em todas as casas havia fartura de sucos, caldo de cana, preparações lácteas e doces.  As pessoas davam ouvidos às palavras benéficas. Não havia ladrões. As chuvas eram regulares. Havia muita abundância na época do reinado do filho do Oceano.

 

 

 

                   CAPÍTULO IX

 

 

                   Siva Cria uma Nova Arma Muito Poderosa

 

 

 

     Yudhisdhira disse:

     - O melhor dos brâmanes, o que fez Indra e os outros semideuses, derrotados por Jalandhara, quando o reino celestial lhes foi roubado?

     Narada disse:

     - Os semideuses, depois de abandonarem o céu, viram-se numa péssima situação. Eles não tinham nem ambrosia e nem mais partilhavam das oferendas sacrificiais. Eles foram até a morada de Brahma, onde encontraram Paramesdhin (Brahma), meditando na Superalma. Os semideuses o louvaram com palavras escolhidas. Então o senhor Brahma ficou satisfeito e disse:

 

     - O que posso fazer por vocês?

     Os semideuses então relataram para Brahma todas as atividades de Jalandhara e sobre a sua derrota. Pensando um pouco, Brahma decidiu seguir com os semideuses até o monte Kailasa. Ao chegarem nas proximidades de Kailasa, os semideuses, liderados por Brahma e Indra, saudaram Siva:

 

     - Nós te saudamos, ó Bhava, Sarva, Nilagriva. Nós te saudamos, Sthala, Saksma, Bahurapa.

     Siva, olhando à sua volta ao ouvir estas palavras, disse para Nandin:

     - Vá buscar os semideuses imediatamente. Traga-os até a minha presença.

     Ao ouvir estas palavras de Siva, Nandin se aproximou rapidamente dos semideuses. Os semideuses entraram nos aposentos privados de Siva, com os olhos cheios de admiração e lá viram o senhor Siva sentado sobre um assento. Siva, que confere a felicidade ao mundo, que é servido por bilhões de servos devotados, estava grisalho devido a poeira sobre seu corpo. Os semideuses o saudaram e o senhor Brahma disse:

     - Uma vez que Indra está com um problema, muito tolamente ele veio até aqui. Ó grande deus, és um benquerente daqueles que buscam refúgio em ti. Por favor conceda-nos os teus favores.

     Depois de ouvir uma sonora gargalhada do portador do tridente (Siva), Brahma disse para o senhor dos semideuses:

     - Veja a condição dos residentes do céu.

     Então, o poderoso senhor Siva, sabendo o que Brahma desejava e sabendo como Indra havia sido insultado, e devido a um pedido afetuoso de Parvati, falou estas palavras:

     - Como poderei matar um inimigo que não foi morto por VisNu? Ó venerável senhor Brahma, antigamente foram construídas armas como o raio. Este demônio Jalandhara jamais poderá ser morto por estas armas. As armas antigas não têm nenhum poder contra ele. Que os semideuses construam uma nova arma com a minha energia, para que ela possa ser bastante poderosa.

 

     Depois de ouvir esta resposta de Siva, Brahma lhe disse:

 

     - Então crie esta nova arma. Só o senhor é quem conhece o teu poder.

     Ao ouvir estas palavras, Siva respondeu:

     - Ó Brahma e semideuses, descarreguem o seu brilho unido à sua ira.

     Então Brahma, que ensina a brahmastra (o míssil de Brahma), descarregou o seu brilho. Depois disso, Rudra descarregou o seu brilho produzido pelos seus três olhos. E todos os semideuses também descarregaram o seu brilho irados. Nisso, VisNu, que fora lembrado por Siva, surgiu ali. Siva então Lhe perguntou:

     - Ó VisNu, por que Você não matou Jalandhara na guerra? Como foi que Você abandonou os semideuses e foi para o Oceano de Leite, para lá residir?

     VisNu respondeu:

     - Ó senhor dos semideuses, se Eu o matasse, o que iria dizer para Laksmi, que Me é tão querida? Portanto, você, o esposo de Parvati, é quem deve matar Jalandhara num combate.

     Então Siva pediu para VisNu:

     - Descarregue o Seu brilho com a Sua ira.

     O brilho de VisNu e tudo o que se expande foi descarregado. Vendo o brilho também se expandir e ficar muito extenso, Siva disse para os semideuses:

     - Por favor, criem meu míssil com este brilho.

     Ao ouvirem estas palavras de Siva, Visvakarman e outros semideuses, entreolharam-se, pensando: "O que devemos fazer?" Ao vê-los em silêncio e sabendo o que passava em suas mentes, Brahma disse:

     - Os semideuses não podem suportar o seu brilho, eles são incapazes de olhar para ele. Quem pode manipular o seu brilho?

     E então saltando sobre o brilho, o senhor Siva dançou vagando por todas as direções com a sola do seu pé esquerdo. Vendo Siva dançar sobre o brilho, Indra e os outros semideuses começaram a tocar instrumentos musicais com muita alegria. Devido à pressão exercida pela dança de Siva foi produzido um disco, que tinha trezentos mil raios e que estava cheio com bilhões de ossos. Por serem esmagadas pelos pés de Siva, saíram inúmeras partículas do brilho. Com estas partículas Visvakaraman construiu um míssil e aeroplanos. Ó rei, os semideuses ao verem o disco Sudarsana, disseram amedrontados:

     - Ó Siva, proteja-nos!

     A Terra ficou abalada com o brilho dos metais. Visvakaraman construiu um revestimento para o disco, mas ele foi reduzido a cinzas. Kala foi queimado por aquela arma e caiu no chão. Então Siva passou o disco para as mãos de Brahma. O senhor de Uma viu que a barba de Brahma foi queimada pelo brilho do disco, riu e pegou novamente a arma das mãos de Brahma, e a colocou sob a sua axila, como um pobretão que recebe um tesouro. O disco, sob a axila de Siva não foi mais visto, assim como o fruto de um presente que é dado a um grande tolo.

 

 

 

                   CAPÍTULO X

 

 

        Rahu, o Mensageiro de Jalandhara se Encontra com Siva

 

 

 

     Narada continuou:

     - Depois disso eu fui até o filho do Oceano e lhe disse: "ó melhor dos heróis, Siva fez um voto de matar você."

     Jalandhara respondeu:

     - Ó grande sábio, é verdade que existe uma grande coleção de pedras preciosas na casa de Siva? Conte-me a respeito disso. Nenhuma guerra acontece sem alguma motivação material.

     Narada disse:

     - Siva aplica cinzas sobre o corpo, o touro que lhe serve de condução está muito velho, existem serpentes sobre o seu corpo, há veneno em sua garganta e na sua mão há uma tigela para esmolar. Os seus dois filhos são Gajanana e Kartikeya. Esta é a sua riqueza. Agora, ele tem uma coisa que talvez lhe interesse: Sua esposa é a filha do senhor das montanhas. Ela é nobre e tem seios rígidos. Siva, apesar de ter incinerado Cupido, é fascinado por sua beleza. Ela é muito conhecida como Parvati. Ela é o limite divino da beleza. Ó rei, a maravilhosa Vrnda e todas estas ninfas celestiais não têm sequer a décima-sexta parte da beleza de Parvati.

 

     Depois de dizer isso ao intolerante Jalandhara, desapareci no instante em que todos os demônios estavam observando. Então, o filho do Oceano enviou Rahu como mensageiro. Logo ele chegou em Kailasa e viu a morada de Siva. Enquanto isso, VisNu, deixando a morada de Siva, voltou sem ser notado para o Oceano de Leite, temendo ser acusado de trapaça. Rahu viu a extremamente luminosa morada de Siva. Muito surpreso com o que via, ele pensou: "O que é isso?"

     Ao desejar entrar, ele foi barrado na porta pelos porteiros. E quando ele tentou entrar apesar de proibido, eles ergueram as suas armas. Acalmando aqueles serviçais de Siva, Nandin disse para Rahu:

     - Ó criatura baixa, quem é você? Por que você veio para cá? Diga-me qual é a sua missão, para que estes serviçais pavorosos não matem você.

     Rahu respondeu:

     - Sou mensageiro de Jalandhara. Leve-me até Siva. O grande rei Jalandhara não fala com intermediários.

     Depois de ouvir estas palavras do mensageiro, Nandin foi avisar Nalalohita (Siva). Depois de prestar suas reverências a Sa‰kara, ele se levantou e disse:

     - Senhor, Rahu está lá na porta com alguma missão. O senhor deve dizer se ele deve partir ou se vai recebê-lo.

     O grande senhor Siva depois de ouvir as palavras de Nandin, mandou que Parvati saísse dos seus aposentos rapidamente. Ela havia dormido ali e estava acompanhada por suas amigas. Então ele disse para o porteiro:

     - Ó Nandin, mande o mensageiro entrar.

     Então, levando o mensageiro pela mão, o poderoso Nandin o acompanhou até onde Siva estava sentado em meio aos semideuses. Rahu então viu Siva, que usava uma serpente como cordão sagrado, que estava sem Parvati, que estava adornado com a lua crescente na sua fronte, e era atendido por um grupo de serpentes sibilantes, que estava acompanhado pelos semideuses e servido por bilhões de serviçais. Notando a chegada do mensageiro, Siva olhou para ele e disse:

     - Pode falar.

     Rahu então disse:

     - Ó senhor, fui enviado por Jalandhara. Ó Siva, ao ouvir esta minha mensagem trate de obedecer. Ó Girisa, você está praticando penitências. Você não possui atributos. Não possui nenhum mérito religioso. Não possui nenhuma riqueza e nem família. O poderoso Jalandhara desfruta os três mundos. Você também está sob o controle dele. Portanto, obedeça. Como é que você sendo um deus tão antigo não possui nenhum brilho e cavalga um touro velho?

     Enquanto Rahu falava desta maneira, chegaram os dois filhos de Siva, GaNesa e Kartikeya. Neste momento Siva massageava o seu corpo com as próprias mãos. Ao ser tocada pela mão de Siva, Vasuki foi arremessada ao solo. Então a serpente (Vasuki) agarrou a cauda do rato que transporta Gajanana. Ao ver o seu veículo sendo aprendido, GaNesa disse:

 

     - Solte-o, solte-o!

 

     Vendo o veículo agitado e o olhar severo de Skanda, Vasuki o soltou. Temerosa, ela largou a cauda do rato. Depois ela começou a subir pelo corpo de Siva, se enrolou no pescoço dele e lá permaneceu.

     Devido ao calor, a lua crescente se abrigava nos cabelos emaranhados de Siva. Ela estava suando e sua umidade molhava o corpo de Siva com ambrosia. A guirlanda de caveiras de Siva voltou à vida e começou a recitar textos sagrados na ordem em que elas haviam estudado. E então, as cabeças ao ouvirem a recitação uma das outras, começaram a discussão:

 

     - Eu sou o primeiro, eu estou na sua frente. Eu sou o maior, eu sou o criador. Eu sou o protetor.

     Nisso apareceu um grande serviçal do senhor Siva, com o cabelo todo entrelaçado. Ele tinha três faces, três olhos, três unhas e sete mãos. Era o grande atendente chamado Kirtimukha, aquele que tem cabelos emaranhados. Ao verem-no, o colar de caveiras ficou calado, tremendo de medo. Após saudar o senhor Siva, Kirtimukha falou:

     - Ó senhor, estou com muita fome.

     O senhor Sa‰kara lhe disse:

     - Oh! Coma aqueles que foram mortos em combate.

     O serviçal ficou pensando por um instante, e não vendo nunhuma batalha em canto algum, foi comer Brahma, mas foi repelido por Siva. Então Kirtimukha, que estava faminto e que foi impedido de comer Brahma, começou a comer o próprio corpo. Vendo aquela atitude maluca e a devoção de Kirtimukha, o senhor Siva, ficando satisfeito com ele, lhe disse:

     - Permaneça sempre no meu palácio. Aquele que viver na minha casa e não pensar em você, logo cairá.

     Ao ouvir isso, o serviçal sossegou. Neste instante os semideuses fizeram cair uma chuva de flores sobre a cabeça de Siva.

     Ao ver aquelas maravilhas na assembléia de Siva, Rahu ficou muito surpreso, e disse novamente para o senhor dos semideuses:

 

    - Como que as paixões podem afetá-lo, se você é tão restrito e um santo meditante? Como você é honrado pelos órgãos dos sentidos? Como você é alcançado pelos objetos dos sentidos? Você aceita toda a adoração oferecida pelos regentes das direções como o senhor Brahma e os demais semideuses, mas não cuida de nenhum deles. Você é o senhor e como pode viver mendigando, comendo esmolas? Ó senhor dos santos meditativos, você está protegendo a maravilhosa Parvati. Dê ela para mim. E com os os seus dois filhos, vá mendigar de porta em porta, todos os dias, com a sua vasilha.

 

     E Rahu começou a falar coisas deste tipo para Siva. O senhor Siva ao ouvir aquelas palavras não deu resposta. Vendo que o senhor permanecia em silêncio, Rahu disse para Nandin:

     - Você que tem uma face redonda hedionda é ministro e chefe do exército de Siva. Você deve dizer que ele está se desviando da conduta correta. Trate de corrigi-lo, caso contrário, devido a este pecado ele acabará sendo golpeado num combate e acabará caindo como Indra.

     Ao ouvir estas palavras, Nandin falou respeitosamente com o senhor Siva, e compreendendo a posição de Siva através de um sinal de sobrancelhas, Nandin, o chefe dos serviçais saudou Rahu e o despediu. Ao chegar ao palácio de Jalandhara, Rahu fez um relato de como Siva procedeu e sobre a beleza de Parvati.

 

 

 

                   CAPÍTULO XI

 

 

                   O Serviçais de Siva Lutam Contra os Demônios

 

 

 

     Narada continuou:

     - Então o valoroso Jalandhara, depois de ouvir as palavras do seu mensageiro, chamou todo o seu exército e o fez marchar contra Siva. O clamor daquele exército se fez ouvir. Ele despertou os kinnaras que descansavam com as suas esposas nas cavernas do monte Mandara. Ele despertou os elefantes ecoando nas cavernas do Meru e do Mandara. Os leões ficaram tão assustados que perderam suas direções. O som tumultuoso daquele exército assustava os três mundos. Ó rei, no palácio de Jalandhara ouvia-se o som dos tambores marciais. Devido àquele som, tão querido pelos combatentes, as montanhas estremeciam e os palácios oscilavam.

 

     Os danavas e daityas saiam do interior dos sete oceanos. Eles estavam prontos para a guerra e rugiam embarcados em seus vários veículos. Do fronte ouvia-se o relinchar dos cavalos. A Terra parecia satisfeita com o mover das rodas das quadrigas. A Terra e as florestas estavam tomadas por míriades de elefantes e quadrigas, conduzidos por guerreiros terríveis, convocados por Jalandhara. Haviam duzentos bilhões de cavalos e cem milhões de elefantes. O exército consistia de cem mil quadrigiários e noventa bilhões de parardhas de chefes militares.

 

     O exército enorme, vinha cobrindo o sol com guarda-sóis. A marcha provocava uma enorme nuvem de poeira. O céu estava colorido por incontáveis pendões, estandartes e guarda-sóis; todas as direções estavam repletas de tapeçaria ostentada pelo exército dos demônios. Então o demônio Jalandhara ficou ansioso em marchar. Armando-se com o míssil chamado sakti, decorado com muitas gemas preciosas, ele foi até o grande VisNu, que estava deitado no Oceano avisá-lO que iria combater. Depois de saudar VisNu, Jalandhara disse estas palavras:

 

     - Ó esposo de minha irmã, o que devo dar para Você desfrutar? Diga-me?

     Ao ouvir estas palavras do filho do Oceano, VisNu, deleitado, falou:

     - Como poderei satisfazer os seus desejos, querido filho do Oceano?

     O demônio ao ouvir estas palavras de VisNu, Jalandhara muito satisfeito, respondeu para VisNu:

     - Estou indo para o campo de batalha. Você viva feliz aqui no Oceano.

     Lá ele recebeu grãos sagrados de Laksmi e foi honrado por VisNu. Saindo da morada de VisNu, Jalandhara foi comunicar ao Oceano que iria combater Siva. Depois de saudar o Oceano, ele disse:

     - Pai estou indo conquistar Siva numa guerra. Por favor, me dê a sua permissão.

     Ao ouvir estas palavras do seu filho, que intensionava marchar contra Siva, o senhor dos oceanos lhe disse:

 

     - Ó filho, deixe aquele asceta em paz. Desfrute do reino que lhe dei e esqueça o asceta. O seu valor é maravilhoso, não existe rei como você. Você fez a Terra ficar superior ao céu. Em seu reino a Terra brilha como VaikuNdha. Deus, que jamais foi derrotado pelos demônios, está vivendo aqui com Laksmi por sua causa. Ó filho, ouça o que estou lhe dizendo. Deixe em paz aquele mendicante, Siva.

     Apesar de ser assim aconselhado pelo Oceano, Jalandhara, por estar muito apegado a Parvati, não levou em conta as palavras do seu pai e foi se reunir aos seus soldados. Ao notar que seu esposo estava pronto para a luta, Vrnda lhe disse:

 

     - Ó senhor dos reis! Você não deve lutar com um santo condenado, que vive meditando. Veja se desvia a sua mente de pensar em Parvati. Por que você deseja Parvati? Por acaso Pavarti é superior a mim? A coitada não tem nenhum arrimo. Ela vive apegada por Siva. Nem Narada conseguiu convencê-la a esquecer Siva. Pare de pensar nela e desfrute de mim.

     Ao ouvir estas palavras de Vrnda, o filho do Oceano respondeu:

     - Sem contemplar a beleza de Parvati a minha mente não ficará tranquila. Ó Vrnda, cuide deste país e da capital. Ó mulher irada, você deve sempre se lembrar de mim, caso Siva me mate.

     Ao ouvir estas palavras do esposo, Vrnda riu e se dirigiu ao palanquim onde estava Jalandhara, para se despedir.

     Narada continuou:

     - Então o poderoso filho do Oceano seguiu para Kailasa. Ele estava acompanhado de sessenta mil soldados mahapadma. Enquanto isso, vivendo lá em Kailasa, acompanhado de seus filhos e de Parvati, seguiu para a região de Kailasa ao norte do lago Manasa. Logo no primeiro dia de marcha Jalandhara chegou a Kailasa. Estacionando seu exército, ele estava ansioso em conhecer Kailasa. Ele já sentia a suavidade da brisa, com massas de filamentos divinos de pólem de flores mandara, refrescada com gotas d'água gelada. Brisas encantadoras, como os rijos seios das mulheres siddha, aromatizadas com o mel de mandara. Ao ver as beldades locais, brilhantes e formosas como flores de asoka, o senhor dos demônios se encheu de desejo sexual. Lá as árvores mandara com seus brotos alvos, brilhavam por todo lado, excitando sexualmente os amantes kinnaras. Os bosques com inúmeras árvores eram ocupados pelos atendentes de Siva. Eles pareciam ser mantidos pelo próprio Cupido. Os enxames de abelhas intoxicados com a fragrância de sândalo e de almíscar pareciam as cinzas do corpo de Cupido sopradas pelo vento. Haviam lagos com lótus brilhantes como pedras preciosas. Havia locais com mangueiras em flor, frequentadas por inúmeros cucos. Os gamos pastavam num prado de arroz sali. E as esposas dos semideuses, de grande beleza, santificavam os bosques floridos, podendo causar mudança até na mente dos sábios.

     Ao ver a morada de Siva, com todas estas qualidades, a maravilhosa Kailasa, a morada de todas as gemas preciosas, o demônio ficou muito surpreso e disse para Sukra:

     - Ó querido mestre, como as pessoas podem chamá-lo de sábio, se ele tem uma esposa assim tão bela e mora num local tão encantador?

     Não avistando Siva, ele perguntou para Sukra:

     - Onde está Siva? Para onde ele foi? Ele foi embora com medo de mim?

     Sukra respondeu:

     - O grande senhor Siva foi para a parte da montanha ao norte do lago Manasa. Ninguém pode ir para lá.

     Ao ouvir estas palavras de Sukra, o demônio disse:

     - Devo ir até onde o senhor dos semideuses se encontra. Sukra, vá você na frente.

     Ao dizer isso, ele foi até onde Siva estava. O filho do Oceano viu aquela parte excelente da montanha, ao norte do lago Manasa.  Ela tinha uma altitude de sessenta mil yojanas. Esta parte da montanha, que é chamada Manas, foi então sitiada pelo exército de Jalandhara. Os demônios, arrogantes, a estavam escalando. Por toda a volta havia escuridão devido aos seus guarda-sóis. Havia um tremor devido ao intenso som dos instrumentos musicais. O rumor do exército enchia o céu e a Terra.

     Narada continuou:

     - Vendo aquele exército enorme se aproximar, o senhor Siva escondeu Parvati, acompanhadas de suas amigas, num pico muito alto daquela montanha. O senhor Siva estava acompanhado de seus serviçais, que estavam prontos para a luta e estavam enlouquecidos pelo espírito da guerra. Lá estavam mais de trinta mil mahabjas de pramathas (duendes). Siva disse para Nandin, o chefe dos serviçais:

     - Você deve matar aquele grande e destemido demônio no combate. Vá lutar e leve Mahakala e outros campeões com você para o campo de batalha. Lute com bravura enquanto o inimigo não for derrotado.

     Ao ouvir estas palavras de Siva, Nandin disse para o seu quadrigiário:

     - Ó KatatuNa, agora traga a minha quadriga.

     Ao ouvir esta ordem de Nandin, o quadrigiário foi buscar a quadriga. Ela tinha trinta e dois cavalos atrelados e dezesseis rodas, com sessenta bandeiras, e trinta yojanas de comprimento, cheia de armas. Siva ordenou aos seus filhos, Kartikeya e Gajanana, que protegessem as tropas de Nandin. Eles estavam a postos em seus veículos. Nandin estava acompanhado pelos seus atendentes. Depois de honrar o seu senhor com palavras, embarcou na quadriga. e foi lutar contra os demônios. Sobre a sua cabeça brilhava um guarda-sol que media doze yojanas. Quando Nandin saiu, os demônios haviam escalado as montanhas. Atacados pelas tropas de Siva, os demônios deixaram a montanha em fuga. Os atendentes de Siva vinham descendo a montanha como uma densa fumaça e golpeavam os demônios com as suas potentes armas. Ao verem as montanha cheia de divindades, os demônios a bloquearam. Então houve uma luta feroz entre os demônios e os atendentes de Siva. O poderoso KakatuNa e outros serviçais, com faces flamejantes, mataram todos os elefantes, destruíram carros de combate e mataram inúmeros soltados de infantaria. Com gargalhadas sonoras e cabeças medonhas arrancadas dos terríveis demônios mortos, eles encheram o céu. Também haviam leões com as jubas fulvas, com mandíbulas e olhos ferozes destroçado troncos, pernas, dorsos e braços. A terra estava coberta de corpos destroçados e tinta de sangue. Então, o senhor dos demônios fez um barulho muito alto, em correria com as quadrigas, os soldados estavam todos alvoroçados, como o oceano ao rugir durante a dissolução universal no fim da yuga.

 

 

 

                   CAPÍTULO XII

 

 

                Siva Chega ao Campo de Batalha

 

 

 

     Narada continuou:

     - Ao ver o exército dos demônios aniquilado pelos atendentes de Nandin, os demônios Sumbha e outros, ficaram irados e foram lutar contra os atendentes de Siva. Nisumbha lutou com Mahakala e Kala com Lokesvara. Sailaroman lutou com Puspadanta e Mahabala com Malyavat. Devido ao poder da ilusão, ó rei, havia escuridão no campo de batalha. Bhayanaka atacou CaNa e Rahu atacou Skanda. Sarparoman atacou KasmaNa e Gharghara atacou Madana. Ketumukha foi matar Subha e Jambha foi matar Vinayaka. Pataketu correu para matar Hasa e RomakaNdaka correu para matar BHr‰gisa. Bilhões de serviçais de Rudra lutavam contra bilhões de demônios.

     Os chefes dos dois exércitos desferiam flechas uns contra os outros. Nandin arremessava suas flechas como um violento aguaceiro. A face de Sumbha ficou coberta de flechas como as folhas que são levadas pelo vento para dentro de uma grande caverna. Kumbha largou o seu arco e correu para atacar Nandin, ele arrancou uma montanha e a arremessou contra o peito de Nandin, e depois de despedaçar o carro de Nandin, a montanha se espatifou no chão, como se fosse atingida por um raio. Nandin caiu desmaiado, e depois de voltar a si, saiu correndo. Nisumbha desferiu um golpe de malho no peito de Mahakala, que por sua vez atingiu o demônio com a sua maça. Sem dar importância a este golpe, Nisumbha agarrou o pé daquele poderoso adversário, girou-o no ar e o arremessou com um urro. Com o corpo ensanguentado, aquele demônio permaneceu urrando. Puspadanta foi atingido na face por Sailaromanan e em seguida atingiu Sailaroman com uma maça, derrubando-o ao solo. Ao vê-lo caído no chão, o poderoso Giriketu atingiu Puspadanta com um malho. Então Puspadanta cortou a cabeça de Giriketu com uma espada e saiu correndo, levando a espada e o escudo de Giriketu. A cabeça do demônio então lhe disse:

     - Por que você sai correndo ,abandonando quem deseja lhe dar combate? Você não tem vergonha de sair correndo enquanto este meu corpo se encontra desprovido das pernas?

     Ao ser comandado pela cabeça, o corpo de Giriketu agarrou Puspadanta pelos pés e rasgou a barriga sua com uma espada afiada. De dentro da barriga de Giriketu saiu um demônio muito forte, com cem cabeças. Ele tinha duzentos olhos e cem braços. A cabeça do demônio veio rodopiando no ar, e se aproximou do corpo. Ao ver aquela cabeça chegando, Puspadanta a despedaçou com a espada. Então Puspadanta foi atacado por dois demônios terríveis, Bhakampana e Jvara. Ó rei, Puspadanta estava sendo afligido pelos dois demônios. Jvara era muito rápido e insuportável, e estava provocando muita aflição a Puspadanta. Então, o atendente de Siva debandou do campo de batalha e tremendo, foi para o monte Kailasa. O grande arqueiro Kolahara feriu Malyavat com três flechas no ombro, e Malyavat atingiu a face do demônio. Kolahara continuou exibindo sua destreza, deferindo golpes de diversas armas em Malyavat. Malyavat, um dos chefes dos serviçais de Siva, ignorando a dor causada pelos ferimentos, pegou uma pedra enorme e com ela atingiu Kolahara. De dentro de Kolahara saiu uma febre terrível, chamada Jvalana. Ela era feroz, tinha três cabeças, nove mãos, nove pés e era muito escura. Esta febre iludiu Malyavat com o seu brilho. Malyavat, derrotado, saiu do campo de batalha e foi para o monte Kailasa. CaNi foi atingido por uma forte corda e o seu cavalo saiu em correria do campo de batalha e o arremessou no oceano.

     Kartikeya atingiu Rahu com flechas pontiagudas, e depois de cobri-lo com uma saraivada de flechas, disparou um míssil chamado sakti contra o demônio. Ao ver sakti, queimando e brilhando intensamente, se aproximando, Rahu subiu ao céu e agarrou a arma. Capturando a sakti, Rahu a arremessou de volta contra Kartikeya. O míssil atingiu o peito de Kartikeya e um rio saiu de dentro do seu corpo. O filho de Mahadeva (Kartikeya) foi lavado por aquele rio. De alguma maneira, o rio foi contido, mas uma inundação saiu do rio. O filho do Oceano, ao saber de Jvara da desvantagem do inimigo, urrava de alegria. Barbara, matou Agni, que estava coberto de flechas, com uma espada. Sarparoman golpeou Kasma a com os punhos. Pataketu atingiu Hasa com um malho. O elefante que transportava o demônio tentou golpear Hasa com a presa, mas foi atingido duramente pelo punho de Hasa. RomakaNdaka feriu Brr‰gin com suas armas. Bhr‰gin, muito assustado, debandou rapidamente para Kailasa.

     O alvo DhamravarNa, de repente caiu na boca de Ketu. O demônio, enorme, com uma bocarra, engoliu o serviçal de Siva, que deu um grito pavoroso ao ser engolido. Jrbha despedaçou o corpo de Ganesa com flechas aguçadas e cortou a sua tromba. O rato que serve de veículo a Ganesa também foi atingido pelas flechas do demônio e entrou numa toca. Ganesa ao ser ferido desta maneira, muito agitado, gritava:

     - Ó mãe, ó pai, ó irmão, ó meu rato querido!

     Ao ouvir os gritos do filho, Parvati, veio do pico onde se encontra até o local onde se encontrava Siva, e lhe disse:

     - Ganesa está sendo morto pelos demônios. Kartikeya também foi ferido. Ó Siva, você fica aí brincando na montanha. Proteja os seus dois filhos e os seus serviçais. Agora chegou a oportunidade de usar o seu tridente e as outras armas poderosas que você possui.

     Ao ouvir as palavras de Parvati, Siva disse para Virabhadra:

     - Prepare o meu touro! Vamos depressa!

     Virabhadra logo obedeceu à ordem do seu amo. Nandin, o touro de Siva, foi adornado com um diadema nos chifres, que brilhava como o sol; com centenas de sinos em volta do pescoço, dois espelhos nas orelhas, grandes pulseiras em suas patas e uma massa de sinos em volta do seu corpo. O corpo do touro foi coberto com milhares de tapetes e foram colocadas oito cordas em sua boca. A deusa Ambika, com oito cordas e segurando uma espada, sentou-se sobre o touro para ficar ao lado de Siva. Todas as armas de Siva foram postas nas costas do touro. O touro estava pronto. Parvati o adornou com as próprias pulseiras. A deusa também colocou uma marca na testa do touro, e depois de lhe prestar respeitos, disse:

     - Ó melhor dos touros! Nunca deixe Siva sozinho numa batalha perigosa. Depois de derrotar os inimigos, você deve trazer Siva de volta.

     Depois de ouvir estas palavras da sua esposa, Siva, adornado com todos os seus ornamentos, levando milhares de armas, montou sobre o seu touro. Com o devido respeito, ele disse para Parvati:

     - Estou indo para o campo de batalha. Você vai ficar sozinha, trate de se cuidar, pois os demônios têm sempre más intenções com as mulheres. Você deve se proteger.

     Siva estava rodeado por trinta mil mahabja pramathas, os duendes que são seus serviçais. O bravo Virabhadra foi protegendo o flanco esquerdo do seu senhor, montado em seu leão. O arqueiro MaNibhadra, poderoso combatente, montado em seu carro de combate ia protegendo o flanco direito de Siva. Siva desceu a montanha e chegou ao campo de batalha com os seus atendentes.

     Ao verem o grande senhor Siva montado em seu touro, os demônios urraram. Havia uma escuridão enorme provocada pelo exército dos demônios e pelos pramathas. Ó rei, houve uma terrível destruição em ambas as forças. Todos os que haviam debandado voltaram ao campo de batalha: Nandin, Mahakala, Kala, Skanda, o poderoso Malyavat, Puspadanta, Vrsalin, SvarNadantika, CaN/sa, Madana, CaNa, KasmaNa e Guptalomaka. Os poderosos demônios lutaram diante de Siva, e houve um combate medonho entre eles e os atendentes de Siva.

     Os poderosos demônios fizeram todo o exército de Siva debandar e depois cercaram Siva por todos os lados, desferindo flechas, lanças, golpes de maça, malhos e bastões de ferro, assim como os óorgãos dos sentidos encobrem a alma com os cinco objetos dos sentidos. Siva, com as suas poderosas flechas, matou inúmeros demônios, assim como o mês de magha destrói rapidamente os pecados quando se toma banho neste mês.

 

 

 

                   CAPÍTULO XIII

 

 

             Jalandhara Vai Até Parvati Disfarçado de Siva

 

 

 

     Narada prosseguiu:

     - Ao ouvir dizer que os demônios estavam em desvantagem diante de Siva, Jalandhara veio com o seu carro de combate e se aproximou de onde estava Siva. Irado, ele disse para o seu quadrigiário:

     - Vou atacar e matar este asceta, que vive adornado com cinzas, ossos e um cabelo todo emaranhado. Qual é o poder deste mendigo montado num touro?

     Ao dizer isso, Jalandhara, muito irado, sacou o seu arco e se aproximou com a quadriga. Virabhadra o recepcionou com uma salva de flechas. Jalandhara revidou ao ataque, cravando inúmeras flechas em Virabhadra e deixando-o sem fôlego. Nisso, MaNibhadra também atacou Jalandhara com inúmeras flechas. O demônio o matou usando uma corda, e disse para Siva:

 

     - Ó Mahadeva, se você é perito na arte de lutar, venha me enfrentar! Você pode me golpear. Eu não golpeio quem usa cabelo emaranhado (um mendigo).

     Ao ouvir isso, Virabhadra ficou muito irado e disparou uma quantidade de flechas enorme sobre o demônio, ofuscando o sol.

     Então MaNibhadra veio golpeando todo o exército dos demônios com uma maça. O herói veio derrubando tudo o que havia à sua frente, cavalos, elefantes e quadrigas. Num instante o chão ficou vermelho, enlameado com sangue, dificil de se caminhar sobre ele. O chefe dos serviçais de Siva vinha abatendo os demônios que estavam sobre a montanha. Os demônios caiam e o chão estava repleto de troncos, braços, cabeças e dorsos de animais e demônios.

 

     Jalandhara e não avistou Siva, que é extremamente difícil de ser conquistado num combate. Ele também notou sinais estranhos no mundo: Um brilho diferente nas estrelas, na lua e em todos os objetos. O brilho do sol estava diferente. O demônio estava desapontado:

     - Eu nem vi Parvati, a quem Narada descreveu de uma maneira maravilhosa. Agora como é que poderei ver Parvati? É melhor eu ir vê-la primeiro e depois dar combate a Siva.

     Pensando desta maneira, o filho do Oceano disse para o demônio Sumbha:

     - Ó bravo guerreiro! Você é igual a mim em heroísmo, lute ferozmente pela vitória, mas primeiro assuma a minha forma. Agora a responsabilidade sobre o campo de batalha é sua, vou ver Parvati, que cativou meu coração.

 

     Após dizer isso, Jalandhara deu seus ornamentos ao demônio Sambha, além das suas armas, armadura, carro, condutor e toda a parafernália. Então, ó rei, o filho do Oceano, juntamente com DurvaraNa, deixou o campo de batalhas sem que ninguém o notasse, e foi para uma caverna secreta na montanha Kailasa, ao norte do lago Manasa e assumiu a forma de Siva. DurvaraNa então assumiu a forma de Nandin. Os dois, disfarçados de Siva e Nandin, subiram a montanha e foram até o pico onde estavam Parvati e as suas amigas. Ao vê-lo chegando nos ombros de Nandin, todo ferido por flechas e as vestes cheias de sangue, Parvati ficou surpresa. Suas amigas ficaram confusas. Aproximando-se de Siva (ou seja, de Jalandhara disfarçado), elas muito aflitas, perguntaram:

     - Ó senhor dos semideuses! O que aconteceu com você? Quem foi que o derrotou? Como você está tão aflito e chorando como uma criatura qualquer?

     O demônio disfarçado começou a se desfazer dos seus ornamentos. Ele retirou Vasuki e as outras serpentes do corpo. Ao ver as cabeças decepadas de Kartikeya e de GaNesa sob as suas axilas, Parvati começou a chorar, dizendo:

     - Ó Skanda! Ó GaNesa! Ó Rudra!

     Então, todas as suas amigas, muito tristes, aderiram ao pranto. Nisso Nandin (o demônio disfarçado), disse para Jaya:

     - Por favor cuide dela. MaNibhadra, Virabhadra, Puspadanta, Dambhana, Dhamatimira, KasmaNa e outros foram mortos no combate. E também CaNin, Bhr‰gin, Kiridin, Mahakala, Sr‰khalin, CaNisa, Guptanetra e Kala, foram todos mortos. Ó deusa, naquele campo de batalha eu vi as cabeças de GaNesa e de Kartikeya rolando.

     Ao falar isso, ele deixou as cabeças caírem diante dela. Ao ouvir estas palavras de Nandin e pegando as cabeças dos seus filhos, Parvati disse:

     - Ó meu filho! Ó Kartikeya, o inimigo de Taraka, como você acabou sendo morto pelo filho do Oceano? Você foi consagrado general do exército dos semideuses quando tinha apenas três dias de idade. Ó meu herói! Como você pôde matar Taraka naquela época? Você caiu por ter sido abandonado por Siva? Ó meu filho! Como sou infeliz, nem pude ver a face da minha nora! Ó criança, você nem pôde desfrutar dos prazeres da existência mundana. Ó querido Herambam ó Vighnesa, ó Lambodara, ó meu querido GaNesa, meu filho! Você era adorado até mesmo pelos siddhas, e agora sucumbiu numa batalha. Como mataram o seu veículo, o rato?

     Parvati estava se lamentando desta maneira, e disse para SIva (jalandhara disfarçado), que fingia estar muito abalado:

     - Ó senhor dos semideuses, você na verdade é Rudra. Você é Hara. Não tenha medo. Para onde foi o seu touro? Ele foi morto por Jalandhara? O que posso fazer pelo seu corpo, todo ferido pelas flechas?

     Depois de ouvir estas palavras de Parvati, Siva, após um suspiro profundo, disse:

     - Ó querida! Os seus filhos foram mortos há muito tempo. Porque ficar se lamentando? Ó deusa, conceda-me a sua proteção com o contato do seu corpo, vamos ter uma união sexual.

     Ao ouvir estas palavras do seu esposo, cheio de ansiedade, Parvati disse:

     - Você não está dizendo palavras apropriadas para o momento. Ó Siva, os sábios evitam relação sexual na ocasião de uma dor intensa, quando há muito medo, ou quando se está em meditação profunda, ao oferecer oblações, ao ter uma febre intensa, na hora de sraddha (oferenda aos ancestrais), ao marchar ou diante de pessoas mais idosas. Como você pode me pedir uma coisa destas, se estou aflita, triste devido à morte dos meus filhos? Você não percebe que estou mentalmente doente, abalada e molhada de lágrimas?

     Ao ouvir estas palavras de Bhavani, o falso Siva, que estava fascinado com a beleza de Parvati, disse com uma motivação egoísta:

     - As senhoras que não dão prazer aos seus esposos aflitos, indubitavelmente caem no inferno Raurava. ó bela senhora, fiquei sem meus serviçais, sem os meus filhos e sem inteligência. Ó minha senhora, agora estou sem as minhas posses, sem nada. Vou entrar em casa e abandonar esta minha forma (vou me matar). Vamos Nandin. Vamos a um local sagrado. Vá na minha frente. Você vai perder esta natureza de rainha.

     Com estas palavras do Siva, Parvati deu um suspiro profundo, como se paralisada pela dor. Ficando muito agitada, não disse nada por um momento. Ela que fascina o mundo inteiro, todas as criaturas móveis e imóveis, estava confusa. Nem posso imaginar a aflição da sua mente.

 

 

 

                   CAPÍTULO XIV

 

 

                   VisNu Cria Uma Ilusão para Vrnda

 

 

 

     Yudhisdhira disse:

     - Narada, conte por favor o que aconteceu depois que o falso Siva confundiu Parvati.

     Narada respondeu:

     - O coração de VisNu ficou perturbado. De repente, ó rei, lá no Oceano de Leite, os Seus olhos ficaram cheios de lágrimas. Ao ver o sinal de uma grande tragédia, o Senhor Se levantou da cama de Sesa, olhando para mim e para Vayu, e pensando:'O que vou fazer agora?' Ele então Se lembrou de Garua, o inimigo das serpentes. Meramente por ser lembrado, Garua surgiu de mãos postas diante do Senhor. O ver Garua diante de Si, VisNu disse:

     - Garua! Vá ver o que está acontecendo na batalha. Vá ver se o herói Jalandhara foi morto ou se Siva está sendo iludido por ele. Volte depressa e venha Me informar a respeito de tudo. Só você é capaz de ver a batalha entre Jalandhara e Siva. Quem mais poderia sair vivo de lá? Às vezes é difícil saber o que acontece numa batalha devido à chuva de flechas e de mísseis. Vá mais rápido do que uma flecha e volte depois de saber o que está acontecendo com Parvati.

     Depois de pensar como evitar a ilusão causada pelo demônio, VisNu deu uma pírula a Garua. Esta pírula conferia poderes sobrenaturais. Ele disse a Garua:

     - Tome esta pírula, com ela você não estará sujeito a ser iludido.

     Garusa disse:

     - Está bem.

     E engoliu a pírula. Depois de fazer a circum-ambulação de VisNu, Garua partiu, deixando o Senhor à sua direita,e com uma velocidade maravilhosa, foi para o campo de batalha. Lá ele observou uma luta inacreditável entre os serviçais de Siva e os demônios, mas não pode compreender tudo o que acontecia. Desta maneira, ele voou para a região do lago Manasa, que é muito alta, inacessível e difícil de ser alcançada até pelos semideuses. O senhor dos pássaros tentou ver onde Pavati se encontrava, mas não pode localiza-la. Nisso, ele ouviu um ruído. Ao se aproximar de onde vinha o som, pôde ver Siva. Por ter engolido a pírula, Garua não foi iludido e pode compreender que aquele era o demônio Jalandhara e não Siva. Ele exclamou:

     - Ó que tragédia!

     Garua ficou chocado com o que vira, e voltou chorando. Ao chegar no Oceano de Leite, ele fez o seu relato a VisNu:

     - Ó Deus, Jalandhara estava imitando Siva! Aquele ser pecaminoso, disfarçado de Siva, iludiu Parvati. Portanto, ó VisNu, se Você é mesmo Deus, vá agora mesmo para o campo de batalha. Ó Senhor dos semideuses, por favor iluda aquele vigarista do Jalandhara. Via a esposa dele sentada no trono em Jalandhara. Ela está se divertindo tocando alguns instrumentos musicais, cantando e dançando no palácio. Ela é mais bonita do que Parvati e centenas de vezes mais bela do que as ninfas celestiais. Não existe em nenhum local dentro dos três mundos ninguém tão bela quanto ela. Portanto, ó VisNu, ela é digna de se associar com Você. Um homem que toque seu corpo se torna muito abençoado. E ela é esposa do irmão da Sua irmã. Rapte-a, já que ela é querida por Laksmi. Dê uma boa represália pelo que o demônio está fazendo com Siva e divirta-Se.

     Ao ouvir estas palavras de Garua, VisNu, o esposo querido de Laksmi, resolveu empregar um remédio adequado, e logo mandou que o pássaro se retirasse. Iludindo Laksmi, Ele a fez dormir, cobriu-A com um manto amarelo, e através do Seu poder ilusório assumiu outra forma. VisNu estava fascinado de amor por Vrnda. Ó Yudhisdhira, ao ver Hari partir, Sesa, também apresentou outra forma e disse devotadamente a VisNu:

     - Espere por favor. Deixe-Me ir com Você. Diga-Me o que devo fazer, para onde devo ir. Diga-Me qual a missão. Sei que você gosta que Eu acompanhe as Suas atividades.

     O Senhor disse:

     - Vou raptar a encantadora esposa de Jalandhara por causa de Siva e para ajudar Parvati. Ó Meu querido irmão, venha junto! Vamos seduzir Vrnda numa floresta.

     Depois de dizer isso, VisNu partiu acompanhado por Sesa. Com vestes de ascetas e os cabelos emaranhados, os dois irmãos criaram um eremitério, muito auspicioso e que concede o fruto de todos os desejos. Eles tinham discípulos e discípulos dos Seus discípulos, que assumiam quaisquer formas: de tigres, javalis, ursos, macacos e gorilas. Então, naquela floresta, VisNu atraiu Vrda com um encanto. Ele, o matador do demônio Madhu, iria causar tormento no coração de Vrnda.

 

     Nisso, a rainha começou a ter um terrível pesadelo. As semideusas que a serviam abanavam as tapeçarias com mais intensidade. Ela começou a se agitar, pensando no regresso do seu esposo e que estava se adornando com sândalo e essências aromáticas. No sonho ela notou que era uma noite inauspiciosa, durante a quinzena da lua minguante, que indicava a viuvez. Ela viu a cabeça de Jalandhara, seca, coberta de cinzas, com todo o cabelo solto. O corpo dele estava sendo devorado por Kali, que tinha um aspecto medonho e com a boca vermelha de sangue, segurava aquela cabeça. No sonho ela via todos os sinais da destruição.

 

     Então a esposa do demônio acordou, com as canções que eram cantadas pelos menestréis e o som dos instrumentos musicais. Os bardos recitavam elogios, louvores e trovas, acompanhados pelos kinnaras. Pagando e dispensando todos eles, ela chamou os brâmanes que eram versados nos textos sagrados, e contou-lhes o sonho. Os brâmanes lhe disseram:

 

     - Ó rainha, foi um sonho ruim. Foi terrível e inconcebível, causa medo. Dê presentes para os brâmanes, isso alivia o medo. Dê-lhes vacas, vestes, jóias, elefantes e ornamentos.

     Os brâmanes ficaram satisfeitos com os presentes e borrifaram água sobre a rainha. Apesar de purificada desta maneira, a rinha estava atormentada. Despedindo-se dos brâmanes, ela voltou ao palácio. Ao chegar lá viu toda a cidade em chamas. Atraída por VisNu, ela não podia ficar em casa. Ela mandou que se atrelassem algumas mulas em sua quadriga, e conduzida por sua amiga Smaradati, ela chegou àquela floresta auspiciosa, cheia de árvores frondosas e aves cânoras, adornada com damas celestiais. Só as brisas suaves é que tinham a entrada liberada naquele local, e nada mais. Ao ver a floresta, Vrnda pensou em seu esposo:

     - Será que verei diante de mim Jalandhara?

     Ela não sentia prazer ali. Então, conduzida por sua amiga e iludida pelo encanto de VisNu, ela entrou em outra floresta. Aquela senhora passou a ver uma floresta cheia de grandes árvores, bloqueada por inúmeras pedras, pavorosa devidos aos leões e tigres, habitada por corujas e serpentes e cavernas escuras. Ao ver aquela floresta medonha, a rainha ficou temerosa. Vrnda disse para a sua amiga que dirigia a quadriga:

     - Ó Smaradati, ande logo, vamos voltar para casa.

     Smaradati disse:

     - Ó amiga, não sei mais a direção a seguir. para onde devo conduzir a quadriga? As mulas estão cansadas e não há nenhum caminho por aqui. Acho que algum comedor de carne vai nos devorar. Estou com medo.

     A amiga, ao falar desta maneira, continuou conduzindo a quadriga. Alcançaram um local que era o deleite dos siddhas. Havia siddhas por ali, mas a floresta era medonha. Não havia vento forte, e nem o som dos pássaros. Não havia brilho, nem luz. Ninguém podia ver as direções. Não havia água.

     Até mesmo as características da quadriga haviam mudado ao chegarem naquele local. As mulas não relinchavam, não se podia ouvir o som das rodas ou dos arreios. As bandeiras da quadriga não se moviam. Os sinos não tirintavam. O grande sino no pilar da bandeira não tocava. Ao notar estas coisas, Vrnda disse para a sua amiga:

     - O que vamos fazer? Esta floresta é assustadora, deve estar cheia de tigres e leões. Ó amiga, não estou tranquila em casa, no meu reino e nem na floresta.

     Smaradati disse:

     - Ouça, ó rainha. Veja aquela montanha enorme à nossa frente. Ao vê-la as mulas ficaram assustadas, e não querem seguir a diante.

     Ao ouvir estas palavras a rainha ficou apavorada e desceu do carro. Nisso apareceu um demônio com uma forma medonha. Ele tinha três pés, cinco mãos e sete olhos. Era assustador. Tinha um tom escuro, seus olhos pareciam os de um tigre. Seus ombros e sua face eram como os de um leão. Seu cabelo era vermelho como sangue e desalinhado como o do senhor dos pássaros. Ao vê-lo Vrnda, que tinha um corpo delicado como uma haste de lótus ficou gélida. Depois de cobrir os olhos coma as mãos, ela tremia como uma vara verde. Sua amiga disse:

     - Ó minha rainha, proteja-me. Estou apavorada, este demônio vai me devorar!

     Enquanto isso o demônio ia se aproximando da quadriga. Ele ergueu a quadriga juntamente com as mulas atreladas e a girou no ar. A rainha caiu ao solo, apavorada como uma corça atacada por um tigre. Smaradati caiu ferida e sangrava. Então do demônio devorou as mulas. Ele agarrou a rainha como um leão captura uma gazela. O demônio então falou:

     - Soube que o seu esposo foi morto por Siva num combate. Se você deseja viver, seja minha esposa e viva sem nada temer. Venha tomar bons vinhos e comer boa carne em minha companhia.

     Ao ouvir estas palavras a rainha quase desfaleceu.

 

 

 

                   CAPÍTULO XV 

                   Vrnda Vai Para o Céu

  

 

     Narada prosseguiu:

     - Então VisNu usando cabelos emaranhados e vestes de cascas de árvores, acompanhado por um seguidor, com um fruto em Sua mão, se aproximou de Vrnda. Ao vê-lo, a assustada Smaradati gritou. Ao ouvirem o grito, os dois disseram:

     - Ó senhora auspiciosa, não tenha medo. Viemos aqui para protege-las. Como vocês vieram para esta floresta terrível, frequentada por seres malvados?

     Depois de confortar a frágil senhora com estas palavras, VisNu disse para o demônio:

     - Ó seu patife, deixe esta frágil e sorridente senhora. Seu tolo maléfico, o que pretende fazer? Você está para devorar a riqueza destes três mundos. Ela nasceu como o resultado do mérito piedoso do mundo. Você está matando o ornamento do mundo. Se matar Vrnda você vai privar o mundo da luz e do orgulho de Cupido. Portanto, deixe-a em paz, largue-a depressa.

     Ao ouvir estas palavras de VisNu, o demônio ficou irado e disse:

     - Se você for capaz, então venha tira-la das minhas mãos.

     Logo que ouviu estas palavras VisNu olhou irado para o demônio, que foi imediatamente reduzido a cinzas, largando Vrnda. Então, ela estupefada com a ilusão do Senhor do Universo, disse:

     - Quem é você, ó oceano de piedade, que acabou de me proteger? Ó tesouro de austeridade, você acaba de destruir este demônio terrível, que era a causa do meu tormento físico e mental. Ó querido asceta, vou praticar penitências em seu eremitério.

     O asceta disse:

     - Sou o filho de Bharadvaja, Devasarman. Abandonei tudo, todos os prazeres e vim com este rapaz para esta floresta medonha. Tenho muitos discípulos que podem ir para onde desejarem e outros discípulos que podem assumir a forma que quizerem. Ó senhora auspiciosa, se você deseja praticar austeridades no Meu eremitério pode vir. Ó rainha, devemos ir para outra floresta que fica longe daqui.

     Ao dizer isso, VisNu, com o Seu jeito lento, segui na direção leste, para uma floresta cheia de fantasmas e duendes. Ó rei, Vrnda, com os olhos cheios de lágrimas seguiu atrás dEle. Smaradati disse:

     - Esperem!

     E seguiu atrás deles. Nisso apareceu um homem de aparência pecaminosa, por detrás de uma moita. A moita estava cheia de criaturas horríveis. Era um caçador, ao ver as duas moças, largou as criaturas que havia caçado. Smaradati disse para Vrnda:

     - Ó rainha, ele vem me comer. Por favor, segure a minha mão.

     Ao ouvir a sua amiga, Vrnda notou aquele homem de aspecto espectral. Ela começou a tremer de medo. Muito assustada, ela e Smaradati começaram a correr pela floresta. Logo chegaram ao eremitério do asceta. Lá viram coisas maravilhosas. s pássaros eram dourados e cantavam de forma magnífica. Havia um reservatório com lótus dourados e o chão era dourado. Os rios eram de leite. As árvores exudavam mel. Havia uma casa de açucar, coberta com muitos doces. Todas as guloseimas estavam lá. Haviam muitas coisas maravilhosas e muita armas divinas caiam do céu. Cavalos felizes brincavam, pulavam e empinavam.

     Na pequena cabana do asceta Vrnda viu um asceta muito jovem e belo sentado num assento feito de pele de tigre e iluminando os três mundos. Ao vê-lo ela disse:

     - Ó senhor, proteja-me deste pecador. Qual é a finalidade das austeridades, ou do mérito religioso, do silêncio e de murmurar preces? Não há penitência maior do que proteger as pessoas assustadas.

     Ela falou desta maneira, assustada, trêmula e fadigada. Logo em seguida o caçador chegou ali. Vrnda então agarrou VisNu, tremendo de medo, e abraçou o Seu pescoço. Ela se agarrava como uma trepadeira, e o contato com ela era muito prazeiroso. Ela então disse para VisNu:

     - Por meio do seu abraço, a cabeça do seu esposo deverá se unir ao corpo dele novamente. Ó senhora maravilhosa, agora vá para aquela linda casa.

     Ao entrar na cabana que o sábio apontou ela pode ver uma cama divina. Lá ela pegou a cabeça de seu esposo, e com muita luxúria, beijou os seus lábios, e a forma de Jalandhara ali surgiu. O Senhor do Universo assumiu uma forma similar à do seu esposo, tinha o comportamento dele, o peso era o mesmo, o peito era o mesmo, as mesmas palavras, tudo era igual. Ao ver o seu esposo em sua forma completa, ela disse:

     - Ó Senhor, devo fazer o que você desejar. Conte-me sobre a batalha.

     Ao ouvir estas palavras de Vrnda, o falso filho do Oceano disse:

     - Ó rainha, ouça como Siva lutou comigo. Ó minha querida, Siva cortou a minha cabeça com um disco. E então, devido ao teu poder divino e devido à minha mente ter vindo até você, a cabeça que foi cortada chegou até aqui e devido ao contato com o teu corpo o meu corpo voltou a viver. Ó minha querida, devido a nossa separação você está muito aflita. Desculpe-me, eu te deixei e parti para o campo de batalha.

     E com estas palavras ele começou a lembrar Vrnda dos bons momentos que passaram juntos. Então, a rainha que havia todos os prazeres auspiciosos como tambulas, divertimentos, vestes e ornamentos, que era muito luxuriosa, abraçou o seu esposo e o beijou.

     VisNu considerou o prazer de desfrutar de Vrnda superior ao prazer alcançado pela liberação e superior ao de desfrutar de Laksmi. Então Madhava, KrsNa, perdeu todo o desejo que tinha por Laksmi devido à beleza de Vrnda. Naquela floresta Vrnda assumiu a forma de tulasi. Tulasi, que tudo purifica, surgiu do suor de Vrnda. Depois de desfrutar alguns dias do prazer do contato com o corpo de Vrnda, VisNu, o Senhor do mundo, pensou sobre a missão de Siva.

     Uma vez, depois que o ato sexual havia terminado, Vrnda viu que o asceta (VisNu) estava com as duas mãos em volta do pescoço dela. Ao vê-lo ela se liberou do abraço e disse:

     - Como Você pôde me iludir disfarçado de asceta?

     Ao ouvir estas palavras, para consola-la, VisNu disse:

     - Ó Vrndarika, ouça. Saiba que Sou VisNu, o amado de Laksmi. O seu esposo foi conquistar Siva e trazer Parvati. Eu sou Siva e Siva sou Eu. Nós apenas permanecemos separados. Ó pessoa imaculada, Jalandhara foi morto em combate. Agora refugie-se em Mim.

     Narada continuou:

     Ao ouvir estas palavras de VisNu sua face ficou abatida. Então, Vrnda ficou muito irada e respondeu:

     - É correto que Você tenha se aproveitado da esposa de quem O conquistou numa batalha, quem O enviou para a casa do sogro, quem O liberou apenas a pedido do pai e quem sempre foi honrado? Como Você, que sempre foi considerado muito correto, pode desfrutar da esposa de outro homem? O sábios dizem que até mesmo o Senhor desfruta do frutos de Seus atos. Uma vez que Você me seduziu disfarçado de asceta, alguém disfarçado de asceta irá raptar a Sua jovem esposa.

     VisNu depois da amaldiçoado, desapareceu. Assim que VisNu foi embora, tudo no eremitério também desapareceu. Ao ver a floresta desolada, Vrnda foi procurar a sua amiga e contou-lhe a trapaça feita por VisNu.

     - Eu abandonei a cidade. Meu reino se foi. A existência do meu esposo é duvidosa. Estou numa floresta. Compreendo tudo isso, estou sendo iludida pelo meu destino, o que vou fazer agora? A visão que tive do meu esposo foi apenas algo que eu desejava.

     Vrnda, que estava muito aflita, deu um suspiro profundo e disse:

     - Eu e você, Smaradati, nos encontramos com a morte.

     Ao ouvir isso, Smaradati respondeu:

     - Você é a minha vida!

     Ao ouvir a resposta da amiga, Vrnda decidiu fazer alguma coisa, abandonou a dor e seguiu para um grande lago e lá lavou o seu corpo. Ela então sentou-se a beira do lago em padasana e liberando a sua mente dos objetos dos sentidos, purificou o seu corpo que havia sido poluído devido ao contato íntimo com VisNu. Ela e sua amiga jejuaram e praticaram penitências severas. Uma legião de ninfas celestiais, vindas do mundo dos gandharvas, aproximou-se dela e lhe disse:

     - Ó senhora auspiciosa, vá para o céu, não abandone o seu corpo. Este seu corpo é a arma dos gandharvas; ele conquista os três mundos; é a maior alegria de VisNu e foi por ele que VisNu veio até aqui. Como você vai abandonar este corpo que satisfez os desejos? Saiba que o seu esposo foi morto por uma excelente arma de Siva. Seja um ornamento para o céu, que só é alcançado através do mérito religioso. Ó senhora irada, vá hoje mesmo para o bosque dos semideuses.

     Ao ouvir este conselho das senhoras dos gandharvas, Vrnda respondeu:

     - O Senhor VisNu, o grande heróis, deixou Laksmi e veio do céu para me honrar. Fui conquistada por Deus, fui feita um receptáculo do prazer dEle. Não tenho nenhum pecado e vou tentar obter um estado imortal.

     Ao dizer isso, Vrnda e sua amiga, se despediram das ninfas celestiais, mas devido ao seu amor por Vrnda, elas vinhas vê-la todos os dias. E então, Vrnda, através da prática da meditação abstrata, com o fogo do conhecimento, das qualidades e tendo liberado sua mente dos objetos dos sentidos, alcançou a posição mais elevada. Ao verem a condição de Vrndarika, as ninfas celestiais ficaram muito satisfeitas e fizeram cair uma chuva de flores sobre a cabeça dela. Depois de fazer uma pira com madeira seca, Smaradati nela colocou o corpo sem vida de Vrnda, ateou fogo e entrou nele. As ninfas assistiram a cena da cremação e coletaram as cinzas, jogando-as no rio Mandakini. O local onde Vrnda abandonou o seu corpo e foi para o mundo espiritual é conhecido como Vrndavana e fica perto da colina de Govardhana. As ninfas celestiais então subiram para o céu e contaram o acontecido às senhoras da sociedade celestial. Depois de ouvirem este relato os semideuses ficaram deleitados, perderam o medo do seu inimigo Jalandhara e fizeram soar tambores. As ninfas que presenciaram o desaparecimento de Vrnda alcançaram a bênção de toda a auspiciosidade.

 

 

 

                   CAPÍTULO XVI

 

 

                   Jalandhara Abandona o Disfarce

 

 

 

     Yudhisdhira indagou:

     - Ó sábio, conte-me em detalhes o que fez Jalandhara na forma de Siva, o que aconteceu quando ele viu Parvati?

     Narada respondeu:

     - Ó rei, quando o falso Siva desejou Parvati, ela ficou perturbada e não disse nada e pensou: "Não é apropriado que Siva me peça isso agora. Ele é muito controlado." Ela se levantou e viu o Ganges fluindo no céu. Imaginou ir morar lá e começou a praticar penitências. E imaginou: "Anteriormente eu conquistei Siva através da penitência, vou tentar controla-lo desta maneira." Ó rei, Parvati viu o rio Mandakini caindo da montanha na parte norte do lago Manasa. O rio caia do céu como uma série de guirlandas, como a corrente de textos sagrados sai da boca de Brahma.

     Ao ver o Ganges ela ficou deleitada. Juntamente com as suas amigas ela foi nadar naquelas águas e depois sentou-se às margens do rio dourado. Com medo e nervosas elas se entreolhavam. Parvati disse para sua amiga Jaya:

     - Ó minha amiga, disfarce-se com a minha forma. Quero que saiba a verdade. Seja ele Siva ou qualquer outra pessoa, ao abraçar-te e beijar-te, saberemos se ele é um demônio disfarçado. Caso ele seja Siva acabará percebendo que não sou eu. Depois venha me contar o que aconteceu.

     Ao receber esta ordem de Parvati, Jaya se aproximou daquele Siva. Ao vê-la chegando, ele ficou cheio de luxúria, agarrou Parvati e a abraçou. Jalandhara então logo ejaculou o seu sêmem e o seu órgão ficou pequeno rapidamente. Ela então disse para ele:

     - Ó demônio, você nunca será Rudra. Você ejacula muito rápido. Você é um patife. Eu não sou Parvati, sou amiga dela.

     Ao dizer isso ela assumiu a sua forma verdadeira e disse novamente:

     - Devido a este seu pecado, você vai ser morto por Rudra (Siva).

     Ciente de toda a trama do demônio, ela voltou até onde estava Parvati, e disse:

     - Aquele é Jalandhara, não é o seu esposo Siva.

     Então a esposa de Siva, com medo, entrou rapidamente num lótus. Naquele lótus as suas amigas se tornaram abelhas, com medo de Jalandhara. Enquanto isso, os seus guardas, não a vendo, foram para o campo de batalha. Eles deram de cara com Sumbha, e muito nervosos, saudaram-no e avisaram o que havia acontecido entre VisNu e Vrnda. CaNa e MuNa, que eram demônios muito rápidos, se aproximaram do filho do Oceano por ordem de Sumbha, e por detrás de uma moita contaram a Jalandhara, que estava disfarçado de Siva, o rapto de sua esposa:

     - Ó grande rei! Qual a glória de ir para um país estrangeiro onde os inimigos não dão importância ao que possuem e os parentes não podem desfrutar da conquista? Ó senhor, Sumbha está sendo derrotado e o seu exército está sendo morto por Siva. Vamos, vamos! Vamos lutar ou você nunca obterá Parvati. Como um chacal pode conquistar uma leoa? Ó rei, como a escuridão pode ter o brilho do sol? VisNu acaba de raptar sua esposa lá em Jalandhara-pidha. Foi isso o que acabamos de ouvir. Trate de derrotar logo Siva e se assenhorar de tudo. Ou, caso seja despedaçado pelas flechas de Siva, você assume o posto dele.

     Ao saber do rapto de sua esposa, Jalandhara, com os olhos vermelhos de ira, desceu a montanha e foi para o campo de batalha. Dispensando CaNa e MuNa, Jalandhara abandonou a forma de Siva e no caminho disse a DurvaraNa:

     - Veja, DurvaraNa, olha o que VisNu agora aprontou. Ele recorreu à ilusionice e levou Vrnda para a casa dEle. Uma pessoa inteligente nunca deve confiar num genro que viva em sua casa. Ele deve dar a filha em casamento e mandar o genro se mudar de casa. Um homem nunca deve manter o genro em casa, pois logo ele vai levando a riqueza, esposas, etc...

     DurvaraNa respondeu:

     - O fruto de uma ação é obtido da mesma maneira como a ação é feita, ó rei. Você veio raptar Parvati e VisNu raptou a sua esposa.

     Jalandhara disse:

     - Você acha que eu devo atacar e conquistar Siva ou o poderoso VisNu? Surgiram estes dois problemas, qual dos dois é o mais importante?

     DurvaraNa respondeu:

     - Se você for atacar VisNu, Siva vai atacar você pelas costas. Siva não vai deixar você ir embora. Portanto, é melhor primeiro derrotar Siva e depois de tê-lo sob controle, marche contra VisNu, se você sabe onde Ele está. Ó herói, agora vamos nos reunir aos demônios. Trave uma boa batalha que dê frutos no céu.

    Ao ouvir estas palavras de DurvaraNa, Jalandhara foi lutar contra Siva, o sábio meditante.

 

 

 

                   CAPÍTULO XVII

 

 

                   Sukra é Confinado Dentro da Vulva de Krtya

 

 

 

     Narada continuou:

     - Jalandhara viu que a guerra era medonha, com corpos destroçados, um grande rio de sangue e tutano, gordura e ossos impedindo o acesso ao campo de batalha. Jalandhara, muito angustiado com o rapto da esposa, viu Siva, o senhor de Parvati, montado em seu touro, com o corpo adornado pelo capelo de uma enorme serpente,marcado com a lua crescente sobre seus cabelos emaranhados e cujo corpo era adornado com a chama que vinha do seu terceiro olho. O filho do Oceano viu que ele não estava lutando. Desceu da sua quadriga e irado, disse para Sumbha:

     - Você não matou o asceta!

     Sumbha respondeu:

     Ele praticou severas austeridades. Portanto, ele não pode ser morto. Siva é invensível num combate.

     Ao ouvir estas palavras de Sumbha, o filho do Oceano ficou violentamente irado, e tomando o arco de Jalandhara, avançou contra Siva, acompanhado por uma força de mil padmas de demônios. O demônio começou a atirar flechas aguçadas com ponta de ferro, uma verdadeira chuva de setas. Durante a batalha os atendentes de Siva impediram o avanço de Jalandhara que vinha atacar Siva. Então o demônio foi golpeado por inúmeras flechas de Siva, sua armadura foi arremessada ao solo. O corpo de Jalandhara foi novamente alvejado pelas flechas de Siva, sem a armadura, ele parecia um montanha sem as nuvens e do seu corpo jorrava sangue. Era uma corrente de sangue tão volumosa que encharcava a terra.

     Os semideuses estavam assustados e e os demônios tremiam. Os bravos pramathas deixaram o campo de batalha e fugiram. Aquele rio de sangue se espalhava em todas as direções. Então o filho do Oceano disse para Siva:

     - Você é o maior de todos os arqueiros. Agora vou fazer com que você seja derrotado.

     Ao dizer isso, ele pegou a arco Kalakedara e logo cobriu Siva de flechas de diversos tipos. O corpo de Siva coberto por bilhões de flechas brilhava como o céu com as aves ou como uma grande montanha com suas árvores. Vendo Siva alvejado por inúmeras flechas de Jalandhara, o irado Vrabhadra avançou contra o demônio. Jalandhara, o bravo filho do Oceano, estava muito irado e desferiu flechas contra as flechas de Virabhadra, que foram reduzidas a fragmentos do tamanho de grãos de gergelim., atingindo o arco, flechas, quadriga, guarda sol e quadrigiário do serviçal de Siva. Virabhadra então sem a quadriga atingiu o demônio com a maça. Jalandhara revidou ao ataque, derrubando Virabhadra com um golpe de maça. Ao ver Virabhadra caído, MaNibhadra, muito confuso, correu para atacar Jalandhara. O ver aquele serviçal de Siva muito irado se aproximar dele, Jalandhara alvejou-o com as suas flechas. MaNibhadra ao ser golpeado saiu do seu estado de confusão e juntamente com Virabhadra, subiram ao s\céu e arremessaram um enorme pico de montanha contra o demônio.

     Ao vê-lo atingido pela rocha, Virabhadra urrando, atingiu um violento murro no demônio. MaNibhadra agarrou o pé de Jandhara e o arremessou para fora da quadriga. Isso foi maravilhoso. Apesar de atacado desta maneira, Jalandhara deu um ponta pé em ManNibhadra e o arremessou ao solo. Nisso chegou Nandikesvara acompanhado de inúmeros outros serviçais de Siva.

     Ao vê-lo chegando, Sumbha e seus soldados impediram a sua passagem. Então os serviçais de Siva e os demônios deram início a outro duelo. Sumbha lutou contra Siladaja, Rahu contra Mahakala; Nisumbha contra Kolahara e Ketu contra Kala. Sailodara atacou Kartikeya e o poderoso Jambha atacou Malyavat. Mahaparsa partiu contra CaNa e CaNisa contra RomakaNdaka. Vikadasya partiu contra Bhr‰gi e Urunetra contra GaNesa. Desta maneira os chefes dos serviçais enfrentaram os chefes dos demônios. Então Siladaja, que tem a cara de gorila, atingido pelas flechas e armas de Sumbha, o golpeou com vários picos de montanhas. Sumbha, muito aflito com isso, disparou uma sakti contra Siladaja. Depois, Mahakala disparou uma sakti contra Rahu e atingiu o seu quadrigiário com uma pedra enorme. O bravo Kolahala foi atingido por uma sakti de Nisumbha. Revidando, ele pegou uma sakti e atingiu a quadriga e o quadrigiário do demônio.

     O senhor dos demônios, que estava sem a quadriga, muito irado, atacou Kolahala com uma sahasraphaNin (uma arca que parece uma serpente). Depois de atingi-lo, ele pegou outra quadriga. Ao ser atingido pelo míssil, Kolahala teve um breve desmaio, mas logo desceu da sua quadriga, pegou uma espada e um escudo e foi despadaçando tudo, inclusive a quadriga de Nisumbha. A seguir ele embarcou novamente em sua quadriga e desferiu inúmeras flechas contra o demônio. O poderoso Nisumbha, surpreso com a bravura do serviçal, muito irado destruiu a quadriga e os cavalos de Kolahara com um míssil. O poderoso Kolahara, que estava sem a sua quadriga, correu para atacar Nisumbha com as mãos e destroçou a sua quadriga. Kala agarrou a cauda de Rahu e o rodopiou no ar, o demônio revidou atirando uma pedra, mas Kala a despedaçou.

     Ao ver a pedra pulverizada, Kala atacou Ketu com os punhos. Kala ficou com o corpo todo esmagado por Ketu e fugiu com medo. Sailodara desferiu um potente golpe de maça no peito de Kartikeya. Katikeya então disparou uma sakti contra o demônio, derrubando-o. Ao notar que havia matado o demônio, Kartikeya deu um forte urro. Com uma salva de flechas, Malyavat atingiu Jambha. Jambha o atordoou após pulverizar as flechas.

     Então Mahaparsava capturou a quadriga de CaNa, levando-a com os cavalos e toda as armas para o céu. CaNa em seguida montou um elefante e atacou Mahaparsva com uma maça. O demônio ignorando o golpe da maça, atacou CaNa com os punhos e o derrubou no chão. O grande demônio RomakaNda, foi atingido pela maça de CaNisa, e o agarrou pelos pés, derrubando-o da quadriga. Logo que caiu ao solo, CaNisa, que tem olhos pavorosos, voltou a atacar o demônio. GaNesa foi ferido pelas flechas de Urunetra e revidou ferindo o demônio com as suas presas, derrubando-o no chão.

     Por um instante Urunetra ficou atordoado, mas logo voltou para a quadriga, e com um malho, golpeou a cabeça GaNesa. GaNesa, o chefe dos serviçais de Siva, atingiu o peito do demônio com uma lança. Da boca de Urunetra saiu um demônio horrível, com nove cabeças e dezoito braços. Este demônio também foi atacar o filho de Siva (GaNesa). GaNesa estava sendo atacado por Navasirsa e Urunetra, apesar de ferido, lutava valentemente com um machado. Com o machado GaNesa destroçou as armas dos adversários. Ao ver Gajanana atacado pelos dois adversários, Kartikeya foi rapidamente para lá e matou Navasirsa. Depois de matar este demônio, ele atacou Urunetra. Ó rei, coma a sua sakti, Katikeya o derrubou ao solo. Jalandhara ao ver Kartikeya, reuniu o exército e foi ataca-lo.

     Siva movido pelo afeto ao seu filho, foi ajuda-lo acompanhado de inúmeros serviçais. Entre os dois exércitos ocorreu uma luta maravilhosa, muito feroz. Nesta batalha entre Jalandhara e Siva a Terra ficou desprovida de vida. Muito irado, Jalandhara pegou uma flecha adornada com milhares de penas e atingiu a testa de Siva. Aquelas penas na testa de Siva pareciam o sol e a lua numa tarde de outono.

     Então Siva sacou uma grande flecha que parecia o fogo e que tinha a velocidade do vento e nela repousavam o fogo e o sol. Esta era a flecha da semideusa Dhara (Terra). Com esta flecha ele feriu o peito de Jalandhara. Com o ferimento causado pela flecha o solo ficou coberto de sangue e o demônio caiu como uma montanha atingida por um raio. Os demônios se lamentaram e os pramathas (os duendes serviçais de Siva) urraram. Ao verem o filho do Oceano sem sentidos, os demônios partiram para atacar Siva. Outros estavam ansiosos em proteger Jalandhara e se reuniram em torno dele.

     Enquanto Jalandhara esta desmaiado, Siva golpeou o exército de Jalandhara com as suas flechas. Depois de um longo tempo Jalandhara recuperou a consciência, e cheio de medo, viu o seu exército moto e disperso por Siva. Mentalmente ele se lembrou do seu guru, Sukra. Ao ser lembrado, Sukra rapidamente acudiu Jalandhara. Desejando o benefício do demônio, Sukra disse para o filho do Oceano:

     - Ó grande rei, qual a missão que devo cumprir?

     Narada disse:

     - Ao ouvir estas palavras de Sukra, Jalandhara prestou as devidas honras a Sukra e saudou o seu guru dizendo:

     - Ó Sukra, traga de volta à vida todos estes demônios que estão mortos neste campo.

     Ao ser assim solicitado pelo filho do Oceano, ele observou o exército que se estendia por vinte e cinco mil yojanas, entulhando o campo com os seus destroços. Os corpos e destroços do exército empilhados se elevavam a uma altura de noventa e cinco yojanas. Depois de borrifar água encantada sobre eles, Sukra os trouxe de volta à vida. Enquanto Siva amarrava com firmeza os seus cabelos emaranhados com serpentes, Sukra ressussitou todo aquele exército. Siva ficou imaginando como aquele exército havia surgido novamente:

     - O que aconteceu aqui? Alguém trouxe os mortos de volta à vida.

     Ao pensar desta maneira, Siva viu Sukra no campo de batalha, correndo muito e ressussitando os demônios. Siva então decidiu matar Sukra e ergueu o seu tridente. Mas solicitando uma conversa privada com Siva, Sukra lhe disse:

     - Eu sou um brâmane. Como você pode matar um brâmane versado em todas as escrituras? Ó Siva, você vai incorrer no pecado de matar um brâmane?

     Ao ouvir estas palavras de Sukra, Siva largou o seu tridente. Ao pensar num incidente anterior, quando derrubou uma das cabeças de Brahma, ele pensou:

     - Não se deve matar um brâmane, mesmo que ele mate alguém que nos seja muito querido. Portanto vou evitar que ele continue a ressussitar os demônios colocando-o dentro da vulva de uma mulher.

     Enquanto pensava desta maneira, do seu terceiro olho Siva fez surgir uma deidade feminina para quem se oferecem todos os sacrifícios com finalidade destrutiva. Ela estava nua, era muito feroz, tinha um cabelo todo amaranhado e sua barriga era muito grande. Seus seios eram grandes e caídos, sua vulva, presas e olhos eram medonhos. Siva se dirigiu a ela dizendo:

     - Ó Krtya, pegue este guru patife e o coloque na sua vulva. Depois leve-o dentro de sua vulva e mantenha-o lá dentro até que eu mate Jalandhara. Depois que eu matar o filho do Oceano, você pode libera-lo.

     Aquela deidade, para quem se oferecem os rituais de sacrifício destrutivos e de magia negra, correu para agarrar Sukra. Ao vê-la Sukra caiu no chão e os demônios saíram em debandada. Chaqualhando Sukra e agarrando-o pelos cabelos, ela o abraçou, e dando gargalhadas o inseriu em sua vulva. Ao ver o seu guru sendo inserido na vulva daquela deidade horripilante, Jalandhara tentou protege-lo fixando suas flechas no arco, mas Krtya desapareceu.

 

 

 

                   CAPÍTULO XVIII  

 

 

                  A Morte de Jalandhara

 

 

 

     Narada continuou:

     - Então Jalandhara disse para Siva:

     - Ó Siva, agora trate de se proteger. Hoje vou mandar você lá para o lugar onde vive VisNu. E depois disso, vou agarrar Brahma e arremessa-lo no oceano. Quando vocês três estiverem sob meu controle, então eu serei o senhor de tudo.

     Depois de dizer estas palavras, Jalandhara confiou seu exército aos cuidados dos demônios Sumbha e Nisumbha. Os chefes dos demônios guarneciam aquele exército quase infinito, formado por quatro divisões. Ao verem aquele poderoso exército os serviçais de Siva se prepararam para enfrenta-lo. Então houve uma batalha violenta, feroz, onde os principais demônios foram feridos e caíram. Ó rei, os atendentes de Siva foram golpeados pelas armas de Sumbha e outros demônios e caíram ou debandaram.

     Os demônios levavam a melhor, ao derrotarem os serviçais, foram se confrontar com Siva. Eles fizeram cair uma chuva de flechas, como um aguaceiro sobre o monte Meru. Siva, sentado em seu touro, revidou com outra tormenta de flechas contra os demônios. Siva os feriu com flechas aguçadas, com pontas semelhantes às ferraduras de cavalos. Ele eliminou rapidamente o que sobrou do exército usando armas e mísseis. O campo de batalha estava coberto de elefantes, homens e cavalos caídos.

     Parecia a Terra coberta de montanhas abatidas por um raio. Então o filho do Oceano fez surgir uma Gauri ilusória, dotada de todas as qualidades e ornamentada e também uma forma ilusória de Jaya, e disse:

     - Vá depressa para a frente de batalha e iluda Siva.

      A falsa Jaya se aproximou de Siva e começou a chorar, toda descabelada, agitada, e disse:

     - O filho do Oceano raptou Gauri que estava na montanha próxima ao lago Manasa.

     Ao ouvir estas palavras da Jaya ilusória, Siva respondeu:

     - Ó Jaya, suba em Nandin ou os demônios vão raptar você.

     Então Jaya montou no touro e abraçou Siva, dizendo:

     - Ó Hara (Siva) devo voltar. Não sei viver sem Parvati.

     Pegando a lua que havia se escondido no cabelo emaranhado de Siva, aquela forma ilusória desceu do touro rapidamente. Ao ouvir que Parvati havia sido raptada, Siva ficou preocupado. Iludido pelo poder ilusório do demônio, ele já não reconhecia a si mesmo. Nisso, o filho do Oceano, acompanhado por um grande exército, colocou a Parvati ilusória na quadriga para mostra-la a Siva. Os instrumentos musicais soavam anunciando a vitória de Jalandhara, fazendo tremer a terra e ecoar nas montanhas. O demônio exibiu Parvati para Siva. Rudra viu a sua esposa em aflição devido à separação dele, desesperada, agitada, ansiosa, sentada na quadriga do inimigo. Ela gritava:

     - Ó senhor, ó Rudra querido!

     Siva viu Parvati sentada na quadriga do inimigo como se fosse um texto sagrado nas mãos de um herege e pensou:

     - Como vou recuperar a minha amada? Ó minha querida, os demônios me iludiram e raptaram você.

     Siva se lamentava, iludido pela mágica do demônio. O filho do Oceano vendo Siva confuso e se lamentando, riu e disse:

     - Agora você não tem mais nenhuma autoridade. Você está sem a sua amada.  Sem Parvati, você se transformou num miserável. Ó Siva, não chore. Vou lhe devolver a sua esposa. Só a raptei para poupa-lo da luta.

     Ao dizer isso, o demônio fez com que Parvati decesse do carro. Acompanhada pelo exército de demônios, Parvati foi se aproximando de Siva, chorando:

     - Ó Siva, proteja-me! Proteja-me!

     Siva avançou rapidamente em direção ao exército de Jalandhara. Quando Siva tentou agarrar Parvati, o demônio Sumbha a levou para o céu. Siva arremessou o seu tridente para matar Sumbha. Sumbha a largou e Parvati caiu espetada tridente, gritando, e veio cair diante de Siva junto com o tridente e morreu em seguida. Rudra ao ver aquela falsa Parvati morta, ficou muito triste, e desesperado exclamou:

     - Ó minha querida!

     E caiu desmaiado no chão. Depois de um instante, ao recuperar a consciência, ele amaldiçoou Sumbha e os outros chefes demônios:

     - Parvati vai matar vocês.

     Narada prosseguiu:

     - Ó rei, na era do Manu anterior o demônio Sambhu e seus comparsas foram amaldiçoados por Siva e acabaram sendo derrotados pelos semideuses. Depois de amaldiçoa-los, ao se retirar Siva gritou se lamentando:

     - Ó querida, para onde você foi depois de me abandonar e de me deixar aflito no campo de batalha? Você deixou de ter apego por mim e me fez ficar aflito devido à separação. Ó querida, nem mesmo VisNu sabe que você me deixou. Ó minha deusa, no sacrifício de Daksa você ofereceu a sua cabeça e depois disso me obteve como esposo novamente. Agora como está me abandonando de novo? Ó Girija, levante-se! Levante-se, deusa maravilhosa! Comunique-se comigo!

     Nisso Brahma acompanhado por um grupo de semideuses, chegou naquele local, sabendo que Siva estava sendo iludido pelos demônios. Ele estava numa forma invisível e gritou para Siva:

     - Você é livre da tristeza, da ilusão, não tem pai ou mãe. Você não sente dor, prazer, nem conhece ninguém como filho, esposa ou inimigo. Você não foi gerado por um pai e nunca será gerado por um pai. Não é assim que os sábios o conhecem? Então por que esta ilusão? Ó senhor, você é único, mas assume diferentes formas, assim como o sol se reflete inúmeras vezes nas ondas da água. Aqueles que controlam os sentidos e meditam em seus pés alcançam uma grande forma, ininteligível e indescritível. Ó Siva, abandone a ilusão criada por Jalandhara. Parvati se escondeu num bulbo de lótus. Lute, mate esta multidão de inimigos. Proteja-nos!

     Ao ouvir estas palavras de Brahma, Siva percebeu a ilusionice do demônio e atirou contra eles uma pedra enorme. Com ela ele matou centenas de bilhões de demônios. Muito irado, Siva sacou o seu arco Pinaka e suas flechas, montado em seu touro. O filho do Oceano ao ver Siva livre da ilusão, rapidamente manifestou um outro grupo de ilusões, muito poderosas, que iludiram até o senhor Brahma. Jalandhara se transformou juntamente com seu novo exército ilusório, apresentando-se numa forma com bilhões de braços e começou a atacar Siva com pedras, troncos de árvores, armas e mísseis. O filho do Oceano colocou a Terra toda decorada com argila vermelha num espaço indeterminado. Todo campo se transformou num maravilhoso local, cheio de templos e inúmeras variedades de flores. Ninfas celestiais mais belas do que Menaka ali dançavam. Então Siva esqueceu-se de lutar e largou o seu arco imediatamente, iludido pelo som de instrumentos musicais, canções e pela dança taNava do senhor dos demônios, ele começou a andar, montado sobre o seu touro.

     O Oceano vendo Siva iludido apareceu ali numa forma corporificada e para desiludir Siva atirou tudo aquilo no oceano. Em seguida se dirigiu a Siva dizendo:

     - Onde estão os seus serviçais liderados por Nandin? Você, tão respeitável, agora está sendo iludido pela ilusão de um demônio? Ó Siva por que você está sendo tão negligente? Pegue o disco que você trás escondido e que foi feito para matar este Jalandhara. Mate-o com o disco, ó Mahesa! (na verdade foi KrsNa que Se disfarçou como o Oceano e veio ajudar Siva)

     Ao ouvir estas palavras de KrsNa, e se recompondo depois de prestar reverências ao Senhor, Siva montou em seu touro e foi para o combate. Ao ver Siva chegando Jalandhara acompanhado por todo o seu exército, muito irado, tentou dete-lo. Aquela forma de Siva que se apresentava diante do demônio estava muito irada, era aquela que surge para destruir o Universo no final da criação. Do seu terceiro olho saiam chamas e os demônios eram queimados como mariposas. Todos os grandes demônios como Rahu, Sumbha e outros saíram em dabandada e foram se refugiar nos mundos infraterrenos, com pavor daquela forma de Siva.

     Ao ver muitos dos seus soldados mortos e ao verificar que Sumbha e outros generais havia debandado, Jalandhara permaneceu no campo de batalha como uma montanha. Ao ver aquela forma de Rudra ele ficou deleitado. Ele riu e disse para Siva:

     - Abandone esta forma feroz que destrói todo o Universo na hora da aniquilação. Deixe estes seus poderes divinos e lute com uma arma.

     Ao ouvir estas palavras do demônio, Siva respondeu:

     - Ó senhor dos demônios! Peça uma bênção! Estou satisfeito que você não tenha se amedrontado nem ao ver esta forma feroz. Ó demônio, o Universo inteiro é incapaz de ver esta minha forma e de suportar o seu brilho. Mas você é mesmo destemido.

     Narada disse:

     - Considerando isso um grande favorecimento de Siva, Jalandhara, que não tinha nenhum desejo na existência mundana, pediu a Siva a liberação na forma de absorção na existência dele.

     Sri Mahadeva disse:

     - Ó demônio, agora o seu corpo vai se encontrar com a morte, apesar de ter todos estes poderes divinos, de ter desfrutado de inúmeros prazeres e de ter recebido o amor de Vrnda. Você ainda não sabe que a alma é única, imutável, e ainda tem receio de abandonar este corpo. Como você deseja a liberação? Sua querida rainha, Vrnda, conheceu a natureza do Brahman e alcançou a posição mais elevada. Agora ela é muito difícil de ser alcançada, pois esta posição também é muito difícil de ser alcançada. Peça por uma bênção na existência mundana entre o céu e a liberação.

     Jalandhara respondeu:

     - Ó deus, a posição de liberação é obtida com as suas bênçãos. Agora fui abençoado, pois fui golpeado por você e o vi.

     Siva respondeu:

     - Ó demônio, se você está ansioso em ir para a minha morada, um lugar sagrado, então atinja-me com uma flecha poderosa, e deixe-me irado. Então, ó pessoa imaculada, devo matar você e você irá para minha morada.

     Ao ouvir estas palavras do grande senhor Siva, Jalandhara respondeu:

     - Não vou atacar você primeiro, pois você é objeto de adoração de todo mundo.

     Narada prosseguiu:

     - Depois desta resposta Siva imediatamente desferiu inúmeras flechas contra o filho do Oceano. O corpo do demônio brilhava como o fogo em um bambuzal. Jalandhara começou a desferir suas flechas contra Siva. Com estas flechas Siva brilhava como o céu cheio de aves. Então, ó rei, teve início um duelo entre Siva e Jalandhara. Não há outro golpeador como Siva e não há outro que suporte tantos golpes como Jalandhara. Arrancado bilhões de montanhas da terra, o filho do Oceano as arremessava contra Siva. Jalandhara foi ferido no peito pela lança de Sambhu. Da sua boca saiu uma medonha Jvara. Ela tinha a face de leão e uma figura humana, era chamada Virajvara.

     Ao ver Jvara, com aquela face de leão, saindo do corpo do demônio, Siva fez o som "hum." Deste som surgiu um sarabha (um animal com oito pernas e mais forte do que um leão). A Jvara foi derrubada pelo sarabha enviado por Siva. Vendo que Sa‰kara (Siva) e o senhor dos touros (Nandin) eram invencíveis, o filho do Oceano se aproximou rapidamente do touro e o agarrou pelo rabo e o rodopiou no ar, arremessando-o nos Himalaias. Então Siva arremessou o seu temível tridente. De sobre a sua quadriga, Jalandhara conseguiu agarrar o tridente e pegou o seu arco chamado Kalakedara e desferiu inúmeras flechas contra Siva que estava sem um veículo. Siva pulverizou estas flechas com diversos mísseis, bem como a quadriga (que media dez yojanas de comprimento), os cavalos e o condutor. Jalandhara, agora também estava sem veículo e correu para lutar com Siva a pé. Uma uma luta eletrizante e maravilhosa entre os dois. Ao verem isso os semideuses tremeram de medo, com medo de uma dissolução universal inesperada. O céu tremia com o som das armas, mísseis e golpes daqueles dois adversários. Vendo a força daquele demônio Siva sacou uma multidão de armas, usando seus poderes divinos. Jalandhara, que tinha um bilhão de braços, presas e olhos medonhos, apesar de desarmado, correu para combater Siva.

      Jalandhara agarrou Siva com os braços, e Siva com a sua espada cortou aquela floresta de braços. O filho do Oceano começou então a atacar Siva com a cabeça, assim como o demônio Rahu ataca o sol e a lua. O senhor Siva ficou satisfeito com esta luta, e disse:

     - Peça uma bênção difícil de ser alcançada!

     Jalandhara respondeu:

     - Dê-me a sua posição. Por favor, não me insulte, pois estou sem os braços e sem armas. Dê-me um poder divino, ou de outro modo vou destrui-lo.

     Ao dizer isso ele foi equipado com novos braços e atingiu Siva com os punhos. Nisso Siva deixou cair o disco que havia sido criado anteriormente para matar Jalandhara e o ergueu irado. O seu brilho era como o de um bilhão de sóis e estava engolindo todo o Universo com as suas criaturas móveis e imóveis. Com este disco Siva cortou a cabeça de Jalandhara. Então o corpo despencou e a cabeça flutuou no céu, cobrindo uma extensão de cem yojanas. Ela tinha uma bocarra enorme, com centenas de presas e olhos como a terra e o céu, e foi correndo como um tigre até a casa de Brahma.

     Ao ver aquela cabeça no céu, Siva correu atrás dela, que sangrava copiosamente e que ia emitindo um som horrível. Então as direções desapareceram e o céu também. A luz das luminárias não era mais vista, e toda a Terra tremeu de medo. Rudra, com o disco, decepeou rapidamente aquela cabeça que vinha até ele. Ao ser cortada em duas metades, ela caiu nos Himalaias. Então as duas metades se ergueram rapidamente e entraram no corpo de Siva quando todos os seres estavam observando.

     O tronco de Jalandhara, começou a dançar, todo coberto de sangue. E inúmeros demônios saiam do era a garganta. Siva os golpeava com o disco, encharcando a Terra com tutano daqueles corpos. Ó rei, foi devido àquele tutano que a Terra recebeu no nome de Medini. Na região norte de Kailasa o sangue do demônio coagulou e formou uma colina, onde está situada a cidade de SoNitapura. Ao ver aquele amontoado de carne, espalhada em todas as direções, Siva chamou as suas sessenta e quatro serviçais. Ao chegarem eles perguntaram pra Siva:

     - Ó senhor, o que devemos fazer?

     Mahadeva respondeu:    

     - Com a minha permissão vocês devem comer rapidamente toda esta carne do corpo do demônio, que parece uma cadeia de montanhas.

     Brahmi, Mahesvari, Kaumari, VaisNavi, Varahi, Mahendri e todas as demais serviçais e comandando as suas próprias servas, olham para aquela carne com um olhar sanguinário e rapidamente devoraram tudo. O que restou do corpo de Jalandhara foi disputado pelas saktis. Quando elas agarraram o corpo, dele saiu um brilho; ele atingiu Siva e desapareceu. Aquele brilho se parecia com o brilho do sol e imergiu em Siva. Foi desta maneira que o inimigo dos semideuses foi destruído por Siva. Mahadeva ficou muito satisfeito comas suas serviçais e lhes disse:

     - Peçam uma bênção!

     Todas as atendentes responderam:

     - Os homens que nos mundos mortais, desejarem desfrutes, salvação e bênçãos, deverão nos adorar (as yoginis) em suas casas. Devido ao nosso favor, conceda-lhes tudo o que desejarem.

     Mahadeva respondeu:

     - Para eles eu concederei todas as bênçãos. Para todos aqueles que adorarem o seu grupo. Os meus devotos, ou os devotos de VisNu que odiarem as yoginis, serei terrível e retirarei deles todo o mérito religioso.

     Foi esta a bênção que as yoginis receberam naquele campo de batalha. Nisso, Siva se lembrou de sua esposa e de seu touro. Ao serem lembrados, ambos surgiram bem naquele instante. Parvati veio acompanhada de suas amigas. Abandonando a sua forma de Bhramari, ela entrou no corpo de Siva como a outra metade dele. Então, ó rei, com Parvati Hara ficou muito contente. As yoginis depois de comerem a carne, o tutano e de beberem o sangue do demônio, dançaram de alegria. Ao ve-las se divertindo, Siva assumiu a sua forma de Bhairava foi dançar junto com elas. O grupo de yoginis tinha presas aguçadas e um corpo enorme. Até hoje elas andam atrás daquela carne.

     Então chegou o senhor Brahma, acompanhado pelos semideuses, sábios, pelos Maruts e todos louvaram o senhor Siva. As direções estavam brilhantes, sopravam brisas flagrantes e havia muita música no céu. A Terra estava sendo consagrada com mel e um enxame de abelhas pairava sobre ele, inebriadas com o aroma. Os semideuses faziam cair uma chuva de flores.

     Siva ficou muito famoso depois desta vitória e foi louvado pelos semideuses, siddhas, kinnnaras, yaksas e caraNas e depois disso, seguiu para a sua montanha. O senhor Siva então restabeleceu os semideuses em suas posições administrativas originais e lhes deu posses para reiniciarem as suas atividades. O que mais devo lhe contar sobre a grande benevolência que o senhor Siva concedeu a todos? Que outro deus poderia assumir o controle da Terra desta maneira? Os semideuses depois de recuperarem o seu reino, brilhavam como antes. Com regentes das direções eles voltaram a receber suas porções dos sacrifícios.

     Narada disse:

     - Ó rei, acabei de narrar para você toda a sequência deste episódio maravilhoso, sobre Jalandhara, o herói do mundo. Até agora VisNu está sob o controle dele e não sai do Oceano de Leite. Saiba que todo mundo desfruta do fruto das suas atividades. Foi para remover esta sua tristeza que eu lhe contei esta história maravilhosa. Enquanto o corpo estiver agindo, por sua influência, o homem experimenta o fruto das suas atividades - dolorosas ou prazeirosas. Ó rei, não há maior refúgio do que o conhecimento. Até KrsNa quando corporificado Se submete a ter prazer, dor, etc. O que dizer então das entidades vivas comuns, que são vítimas do apego pelo corpo? Saiba que tudo é resultado das atividades pregressas. Não há nada mais forte do que o karma. Seja paciente, depois de derrotar os inimigos, você recuperará o reino.

     Depois de ouvir esta história um homem se livra da tristeza. Nesta história foram narradas apropriadamente as quatro metas das atividades mundanas - honradez, bem estar material, desfrute dos sentidos e a liberação. Um brâmane obtem o conhecimento auspicioso que o leva para o céu, que remove os pecados, destrói a ilusão. Um ksatriya obtém um reino. Um vaisya obtém riquezas e um sadra obtém a felicidade. Um rei fraco que esteja privado do seu reino o recupera por ouvir esta narrativa diariamente. Ó rei, depois de ouvir esta narrativa uma boa pessoa não deseja ouvir mais nada, assim como um homem não fica satisfeito com o grasnar dos corvos ao ouvir cantar os cucos. Depois de ouvir esta história incomparável, que é muito querida pelas pessoas virtuosas, os ouvintes devem presentear o narrador com ouro, sementes de gergelim, roupas, terras, etc. Se o narrador ficar satisfeita, ela deverá conceder o fruto desejado.

     Quando o narrador é honrado, as deidades também ficam satisfeitas. Quem ouvi-la deve dar comida de presente e honrar os brâmanes. Assim será um homem próspero e terá filhos e netos sempre vitoriosos. Quem ouvir esta excelente narrativa nascerá no mundo de VisNu. Ó rei, as pessoas que ouvirem esta história com a intenção de conhecerem a origem de tulasi, se liberam de todos os pecados. Por ouvir ou por narrar esta história auspiciosa, que remove todos os pecados e que narra sobre a grandeza de tulasi, um homem indubitavelmente alcança a liberação. Por ver tulasi plantada na casa de alguém, nos livramos do pecado de matar um brâmane. Não há dúvida quanto a isso. As pessoas devem adorar VisNu com folhas de tulasi nos meses de kartika e magha. A circum-ambulação de tulasi uma só vez livra de todos os pecados cometidos. Os sudras que derem presentes ficam devidamente purificados. Eles estão aptos em adorar as Deidades. Estes devotos de VisNu, agora muito raros na era de Kali, estão muito distantes de quaisquer pecados.

 

 

 

                   CAPÍTULO XIX

 

 

                   Uma Descrição de Sri Saila

 

 

 

     Yudhisdhira disse:

     - Ó Narada, onde fica a encantadora montanha de Sri Saila? Que local sagrado existe lá? Que Deidade é lá adorada? Diga-me em que direção fica esta montanha.

     Narada disse:

     - Ó rei, ouça: Vou descrever a excelente montanha de Sri Saila, ouvir sobre ela livra as pessoas do pecado de matar uma criança. O bosque sobre a montanha é encantador e é um refúgio de sábios. Ele está repleto de árvores e trepadeiras cheias de flores de todos os tipos. Ouvem-se as notas dos cucos e dos cisnes. Os bosques da montanha são flagrantes devido às árvores sri, kapittha, sirisa e raja. Há também flores parijataka, kadambas e udumbaras. Elas são muito procuradas pelas esposas dos sábios e pelos discípulos. Alguns sábios se dedicam ao estudo das escritura, outros a grandes austeridades, outros meditam em Siva e outros são devotos de VisNu. Uns nada comem, outros vivem de comer apenas folhas. Alguns comem frutas, bulbos e raízes, outros observam o voto de silêncio. Uns ficam de pé sobre uma perna só, outros em postura de padmasana. Uns nada comem e praticam inúmeras variedades de penitências.

     Existem eremitérios auspiciosos e muito rios maravilhosos. Ocorrem inúmeras nascentes naturais e reservatórios. Mallikarjuna permanece sempre lá, e toda a montanha é muito encantadora. No topo dela há um pico maravilhoso, que meramente por ser observado concede a liberação. Não há dúvidas a este respeito. Vá para o sul, é que fica esta montanha. Lá está o maravilhoso Patalaga‰ga.

     Meramente por se banhar neste rio o homem se livra de grandes pecados. Ao ver o pico de Sri Saila, ao morrer em VaraNasi ou por beber água em Kedara já não se está sujeito a outro nascimento. Esta montanha é um local de ascetas e de santos meditantes. Portanto, valem a pena todos os esforços para vê-la. Ela é Vijñanadeva (o Deus da sabedoria). Ela destrói todos os pecados. Lá está a cidade de Siddhapura, que concede prazeres celestiais, onde cantam as damas do céu e há muito regojizo. Portanto esta montanha concede a felicidade a quem a ver. As pessoas que desejam a liberação devem vê-la.

 

 

 

                   CAPÍTULO XX

 

 

                   A História de Sagara

 

 

 

     Sri Mahadeva disse:

     - Ó grande sábio divino, ouça sobre um local muito auspicioso chamado Harivara. O Ganges flui por ele e dizem que este é o melhor dos locais sagrados. Lá resicem semideuses, sábios e seres humanos. Meu filho, este lugar sagrado surgiu há muito tempo atrás. Apenas por vê-lo todos os pecados vão embora. Lá, devido a um mérito religioso especial o Ganges tornou-se mujito sagrado. Devido ao contato que o Ganges teve com os pés de lótus de VisNu, a sua água é considerada muito sagrada, a água que lavou os pés de Deus. Ó grande sábio, Bhagiratha foi quem fez com que o Ganges tivesse este curso. Este herói magnânimo consegui assim emcancipar todos os seus ancestrais.

     Narada disse:

     - Ó deus, quem é este Bhagiratha que conseguiu o mérito que você acabaou de mencionar, como que ele trouxe a água sagrada deste grande rio para o benefício de todas as pessoas? Um lugar sagrado à beira do Ganges é muito auspicioso e destroi todos os pecados. As pessoas dizem que estes locais são os melhores locais sagrados. Aquele que proferir a palavra "Ga‰ga, Ga‰ga" mesmo a uma distância de mais de mil quilómetros do rio, se libera de todos os pecados e vai para o mundo de VisNu. Como foi que ele trouxe o Ganges? Conte-me tudo isso, ó meu querido Siva!

     Mahadeva disse:

     - Vou lhe contar na devida ordem quem trouxe o Ganges e como ele foi trazido até a maravilhosa Ga‰gadvara. Há muito tempo atrás vivia Hariscandra, o único a ver a verdade que existe nestes três mundos. Ele tinha um filho, Rohita, que era unicamente devotado a VisNu. Ele também tinha um outro filho chamado Vrka, muito direito e bem establecido no bom caminho. na família de Vrka nasceu Subahu e o filho dele foi Gara. Gara era extremanente honrado. Numa ocasião, por alguma razão, o rei ficou extremamente infeliz com o destino. E por motivos religiosos, ninguém o censurou. Ele pegou a sua família, dixando o país e foi até o eremitério do grande sábio Bhargava. O sábio se apiedou dele e passou a proteger Bhargava, que passou a viver ali. Narada, foi lá que Bhagava teve um filho chamado Sagara. O menino era cuidado por Bhargava e cresceu naquele eremitério. Ele se submeteu a todos os sacramentos, como a cerimônia do cordão sagrado, que beneficiam os ksatriyas. Ele aprendeu o manejo de diversas armas e estudou os Vedas. Depois de receber o míssil presidido por Agni, o rei Sagara começou a andar pela Terra e matou Talaja‰ghas e Haihas, e também Paradas e Sakas.

     Narada disse:

     - Ó Sa‰kara, conte-me em detalehes a grandeza de Sagara. Este poderoso rei da disnastia solar é muito conhecido.

     Mahadeva disse:

     - Devido à calamidade que caiu sobre Gara, o seu reino foi tomado pelos Haihayas, Talaja‰gas e Sakas. Estas tribos, Yavanas, Paradas, Kambojas e Sakas exibiram o seu valor. Depois do seu reino ter sido pilhado, o rei Gara foi para a floresta. Este rei aflito, seguido por sua esposa, morreu na floresta. A sua auspiciosa esposa estava grávia e observando um voto. Antes disso, o rei e a rainha haviam ido pedir a Bhargava a bênção de terem um filho. Depois de colocar o seu esposo na pira funebre na floresta, ela começou a se lastimar. Aurva, que era o preceptor da família, aconselhou a esposa de Gara e lhe disse que o seu filho seria muito honrado, bom e querido por todos.

     Quando ela soube disso, desistiu da lamentação e de se atirar à pira funerária. Depois de dois meses, o filho nasceu, no eremitério de Aurva. O sábio realizou em seu eremitério todos os sacramentos para a criança, como o ritual de nascimento, a cerimônia do cordão, etc. Devido à associação com Aurva o menino estudou os Vedas e as demais escrituras. O sábio também lhe instruiu sobre o emprego dos diferentes mísseis, e o do míssil presidido  por Agni, que é difícil de ser conseguido até mesmo pelos semideuses. Ele o dotou de poder espiritual numa batalha.

     O menino, depois de se tornar assim poderoso, devido à sua ira, foi matar o Haihayas. Ele os derrotou e ficou famoso nos três mundos por isso. Depois ele passou a combater os Yavanas, Sakas, Kambojas e Pallavas, derrotando todos eles. Os derrotados foram então buscar refúgio no grande sábio Vasisdha, que depois de um acordo, fez com que Sagara se afastasse deles, garaqntindo-lhes assim a proteção do medo de serem mortos pelo rei. Para manter a palavra dada ao seu guru, Sagara desferiu um combate honrado contra os seus inimigos, deixando-os deformados, mas não os matou. Ele raspou completamente a cabeça dos Yavanas e dos Kambojas. Depilou completamente os Paradas e manteve os bigodes dos Pallavas. Derrotando-os desta maneira, o rei acumulou grande méritoi religioso. Depois de conquistar toda a Terra, o honrado rei vitorioso se preparou para fazer um sacrifício do cavalo. O seu cavalo, ao se movimentar pelas proximidades do oceano sudeste, desapareceu perto da praia, e foi mantido no intgerior da Terra.

     Os filhos do rei foram em busca do cavalo, escavando a Terra em toda aquela região. Eles cavaram mas não encontraram o cavalo. Muito irados, eles viram alguém muito antigo - este alguém era Kapila, o Senhor dos mundos. O fogo produzido pelos Seus olhos foi despertado e Ele queimou sessenta mil filhos de Sagara; só quatro deles se salvaram para continuar a família: Hrsiketu, Suketu, Dharnaratha e o bravo Pañcajana. Foi o próprio Senhor VisNu quem deu a Pañcajana cinco bênçãos: a continuação da família, salvação, bia fama, o oceano e um filho. Foi por isso que ele obteve o estado do oceano. Ele obteve aquele cavalo sacrificial do oceano. Ele, que foi muito famosos, realizou cem sacrifícios do cavalo.

 

 

                   CAPÍTULO XXI

 

 

                  A Grandeza de Haridvara

 

 

 

     Narada disse:

     - Ó mestre do conhecimento, como nasceram os sessenta mil filhos de Sagara, que eram poderosos e volorosos?

     O senhor de Parvati disse:

     - Sagara tinha duas esposas cujos pecados haviam sido queimados pelas penitências. Aurva, o melhor dos sábios, ficando muito satisfeito, lhes concedeu bênçãos: Uma das rainhas escolheu como bênção ter sessenta mil filhos poderosos. A outra pediu por um filho que mantivesse a família. Então, a que escolheu ter tantos filhos valorosos, os concebeu numa cuia. No devido curso de tempo, eles lhe foram trazidos pelas amas. Os meninos cresceram bebendo leite de vaca. O filho chamado Pañcajana se tornou rei. Pañcajana teve um filho poderoso chamado Ansumat, que foi o pai de Dilipa e por sua vez, Bhagiratha foi filho de Dilipa. Foi Bhagiratha que trouxe o rio Ganges para a Terra. Ao leva-lo até o oceano, ele fez dela sua filha (Ganga é a semideusa que preside o rio Ganges, em sânscrito o rio é uma figura feminina).

     Narada disse:

     - Como foi que ele trouxe Ga‰ga? Que tipo de penitência ele praticou? Conte-me sobre isso, pois você tem muito boa vontade.

     Mahadeva disse:

     - Para o bem estar dos seus ancestrais ele foi até os Himalaias. Lá ele praticou austeridades por miríades de anos. O deus primordial, imaculado, ficou satisfeito com ele. O Ganges foi-lhe concedido para que descesse até a Terra, descendo do céu. É lá onde eu vivo como a Deidade de Visvesvara, que ao ver o Ganges chegando, eu agarrei Jahavani (Ga‰ga) e a manteve na massa dos meus cabelos emaranhados por miríades de anos. Devido a uma proesa do Senhor, o Ganges não saiu dali. Então Bhagiratha pensou:

     - Onde está a minha mãe?

     Depois de pensar neste assunto ele soube, através do poder da meditação, que o Senhor Siva a havia capturado. Então Bhagiratha foi até Kailasa, e ao chegar lá praticou severas penitências, me deixando muito satisfeito. Então eu lhe dei o rio. Arrando um fio de cabelo, eu lhe dei o rio.

     Pegando o Ganges, ele desceu até as regiões inferiores do Universo onde estavam os seus ancestrais falecidos. É por isso que o primeiro nome do Ganges é Alakananda. Quando o rio foi para Haridvara, ele passou a ser chamado de VisNupadodaki. Este é um excelente local sagrado, que não é facilmente acessível sequer pelos semideuses. Os homens que se banharem neste local sagrado, e especialmente depois de verem a Deidade do Senhor VisNu e A circum-ambularem, mantendo-nA pela direita, não esperimentarão a tristeza. Existem pencas de pecados, como o de matar um brâmane, etc. Todos eles perecem os se ver sempre a Deidade de VisNu. As pessoas que vão até este local sagrado, vão até VisNu. Estes seres humanos, homens e mulheres passam a ter quatro braços. Meramente por ver a Deidade de VisNu eles vão para VaikuNdha.

     Para mim também, este local sagrado, Haridvara, é um local sagrado superior. Entres os locais sagrados ele é o principal, e concede as quatros metas da vida humana (gozo dos sentidos, desenvolvimento econônico, religiosidade e liberação). Na era de Kali ele concede mérito religioso aos homens, dá a liberação e também concede o bem estar material. Lá a água do Ganges flui sempre clara. Bem, acabo de lhe narrar esta auspiciosa narrativa sobre Haridvara. Aqueles que a ouvirem (lerem) obtem um fruto eterno. Um homem erudito, meramente por ver a Deidade de VisNu obtem o fruto que é obtido quando se realzia um sacrifício do cavalo ou qunado são dadas em caridade mil vacas. Narada, muitos tipos de pecados, na verdade todos eles, são eliminados só por ver a Deidade de VisNu.

 

 

CAPÍTULO XXII

 

 

Um Elogio ao Ganges, ao Yamuna e a Prayaga.

 

 

Mahadeva disse:

- Bem Narada, agora vou falar sobre a importância do Ganges, assim como ela foi-me narrada. Só por ouvi-la os pecados são eliminados instantaneamente. Aquele que profere o nome "Ga‰ga", mesmo a uma distância de mais de mil quilómetros, livra-se de todos os pecados e vai para o céu de VisNu. Ó Narada, este rio surgiu dos pés de lótus de VisNu e é famoso com o nome de Ganges, e destrói pencas de grandes pecados. Existem outros rios sagrados como o Narmada, Saraya, e também o Vetravati, Tapi, Payosni, Candra, Vipasa, Karmanasini, Pusya, ParNa, Dipa, Vidipa e Saryatejasa.

No momento em que vê o Ganges um homem obtém o mérito piedoso equivalente ao de doar mil touros. O Ganges é especialmente meritório para aqueles que mataram brâmanes. O Ganges atinge os pecados daqueles que estão relacionados com o inferno. Apenas por se ver o Ganges obtém-se o mérito piedoso que se obtém em eclipses lunares e solares. Meu querido Narada, assim como a escuridão desaparece na hora em que surge o sol, o Ganges faz a proeza de eliminar todos os pecados. O Ganges é sempre honrado no mundo. Ele é puro. Ele destroi os pecados. Ele é sempre de natureza auspiciosa. Antigamente ele foi produzido por VisNu. Ele tem uma forma divina. Ele é a mãe. Ele é considerado o purificador do desesperado.

Assim como VisNu é o maior entre os semideuses, o Ganges é o maior entre os rios. Para os homens que se banham nele regularmente no mês de magha (dez.-jan.), não há tristeza por trezentos kalpas. Não há dúvida quanto ao fato de que por se beber água no local sagrado onde o Ganges, o Yamuna e o Sarasvati se encontram, uma pessoa alcança a liberação.

O Senhor Siva prosseguiu:

- Ó Senhor Krsna, esta conversa que estou tendo sobre Você é para louva-lO. Tudo o que eu como ofereço a Você. Para onde vou é porque fui enviado por Você. Durmo bem depressa aos pés dos Seus pés de lótus, e que isso seja considerado uma prostração diante de Você, como uma vara (dandavat). Ó Senhor, que Você, o Senhor do Universo, fique satisfeito com tudo aquilo que eu fizer. Esta é a água do Yamuna, e por vê-la, por sauda-la, ou por coloca-la sobre a cabeça, as pessoas são liberadas.

Ó filha do deus do sol, ó grande rio, as pessoas vivem assaltadas pelos perigos da pobreza, doenças, morte, devido à existência mundana, até que vejam estas suas águas azuis e a coloquem sobre as suas cabeças. Hoje o Ganges, que a mera recordação dele, mesmo a uma distância de mais de um milhão de quilómetros, elimina imeditamente a corrente de pecados e cujo o nome purifica o mundo inteiro, felizmente será visto por nós. O caminho do rio sagrado é alcançado com uma mente deleitada, ansiosa em vê-lo. Até mesmo o criador primordial foi a este rio. Não é de se surprender que o banho, o oferecimento de sandhya, a oferenda de água os ancestrais, a adoração aos semideuses, uma cerimônia de sraddha, alimentar os brâmanes - tudo isso se torna perfeito às margens deste rio e deixa o Senhor muito satisfeito. Ó Ganges, você é o Brahman que se transformou na deusa Ga‰ga; você dá um grande deleite. Aceite os materias da minha adoração. Remova os meus pecados. Minhas saudações a você.

Ó Bhagirathi, ó deusa gloriosa, eu saudo a você, que leva a água que é a honradez em forma líquida, que é a essência do néctar que flui dos pés de lótus de Murari, que é um barco que nos ajuda a travesar o oceano de tristeza, que é um lance de degraus a conduzir ao céus e que é louvada pelos homens e semideuses, que remove os pecados, que concede excelentes méritos e que é brilhante. Ó Ga‰ga, ó rio celestial, você que emancipa as pessoas arrojadas no oceano de pecados, que destroi a massa de escuridão por meio do brilho de suas águas imaculadas, ó mãe, que purifica o mundo, ó deusa, perifique este pecador que veio até você pelo medo dos pecados, sou um recipiente do seu favor; ó mãe, que dá abrigo a quem a vê, proteja-me porque estou apavorado. Ó meu coração, ó minha amiga, vivo alarmado com o medo de cair no inferno. "Por que você teme?" Estas são as palavras proferidas  por um habitante do inferno. Não tenha medo. Ela eliminará a multidão dos meus pecados. Como então cairei no inferno?

O banho nas águas do Ganges é uma experiência muito alegre, por ser um louvor ao Senhor de todas as coisas. As mulheres celestias se enchem de alegria ao verem estas águas, devido à possibilidade de se encontrarem com os semideuses e com o seu Senhor. Ó filha de Jahnu, aqueles que se dedicam a restrições e austeridades e se banham em suas águas, certamente alcançam o Supremo. Neste assunto os Vedas são a autoridade. Ó meu intelecto, que você tenha bons pensamentos como este. Ó minha mente, seja bem vinda. Ó meus pés, vocês devem sempre permanecer num local dedicado ao Senhor. Que os meus olhos sempre os vejam bem. Ó minha fala, você me é tão querida quanto a minha vida, que você e as virtudes que você manifesta, recebam este nutriente para todos os seres, para que através de vocês eu possa receber o agradável e incomparável mérito devido aos locais sagrados.

Ó melhor dos locais sagrados, Prayaga, o ornamento dos três rios (Ganges, Yamuna e Sarasvati), o senhor de tudo, favoreça-me. Leve-me para o céu. O seu brilho destrói os três tipos de escuridão. Ó senhor da fala, ó senhor dos homens piedosos, ó Prayaga, senhor dos locais sagrados, em cuja margem branca e escura semideuses como Indra e grandes sábios se refugiam para destruirem os seus pecados e alcançarem a vitória. Prayaga é o senhor dos locais sagrados, sempre vitorioso, ele elimina as três classes de misérias que estão relacionadas com a existência mundana. Este Prayaga é sempre vitorioso, o senhor dos locais sagrados, onde a figueira sagrada, que tem uma cor escura, cobre o local com a sua sombra escura e remove a escuridão da grande fadiga das pessoas que a vêem. Este é o senhor dos locais sagrados, Prayaga, procurado por Brahma e por todos os demais semideuses, um cabedal de mérito religioso e onde Yama irá deixar o seu bastão. Ao se refugiarem em Prayaga, semideuses e sábios esquecem-se dos prazeres celestiais e os homens desprezam um reino sobre a Terra. É bem sabido que Prayaga destrói todos os pecados. Este é o rei dos locais sagrados, onde as águas claras e escuras do Ganges e do Yamuna, se encontram, onde a figueira primordial resplandece como um guarda-sol. As pessoas que vão a este local sagrado para tomarem banho e oferecem oblações simples como grãos de arroz, recebem o posto de Brahma.

Este é um local para se peregrinar. Em Prayaga, Aquele que não pode ser alcançado através de palavras e que só é alcançado por centenas de milhares de ocorrências favoráveis, torna-Se nosso pelo favor de Prayaga. Prayaga é o local onde os sacrifícos ocorrem o tempo todo, ele só se torna um convidado da nossa visão depois de termos acumulado um grande mérito, e por muita boa fortuna. Nesta era de Kali os sacrifíos védicos como o sacrifício do cavalo, os hinos védicos de louvor e a glorificação aos semideuses são muito difíceis de serem realizados pelos homens comuns. O Senhor Brahma e os outros semideuses pensaram bem sobre este assunto e decidiram que os frutos resultantes da realização destes grandes sacrifícios védicos pode ser obtido pelas pessoas comuns simplesmente por se visitar Prayaga. Não tenho me dedicado a orações nesta vida, que as orações que aqui ofereço me acompanhem por toda a vida.

E em meu coração saúdo Prayaga, o rei dos locais sagrados, as redondezas de onde se juntam os três rios, cujas poeiras são incoparáveis, que se destaca entre todos os outros balneáreos, que é em si uma grande Deidade.

Como chegamos agora a esta capital de Siva (Kasi)? Por praticarmos penitências, por termos realizados sacrifícios, por termos doado inúmeros presentes aos brâmanes e outras pessoas dignas, por termos adorado aos semideuses, por que chegamos aqui?

Devido à minha boa fortuna em muitas existências agora alcancei a cidade de Siva, que destroi todos os pecados, que é cheia de maravilhas, que é um barco seguro para a travessia do oceano da existência mundana. Acabo de receber o fruto de um bom nascimento. Toda a minha família se purificou. Fiz tudo o que deveria ter feito. O que pode haver mais elevado do que isso? Minha alma está purificada. Pude compravar que o ditado: 'Um homem pode ver centenas de milhares de coisas boas', é uma realidade. Cheguei a Kasi com este corpo físico e com estes olhos materiais pude contempla-la. É impossível até mesmo aos semideuses contarem os locais sagrados e lingas do Senhor Siva que existem em Kasi, esta terra sagrada. De mãos postas, reverencio todos estes locais sagrados, recentes ou antigos, que se manifestam em Kasi abertamente ou em segredo. Meus amigos, qual a necessidade de temer os pecados, qual a utilidade da alegria alcançada pela realização de inúmeros atos meritórios, por que se orgulhar de ter estudado inúmeras escrituras, qual a falta por termos permanecidos ignorantes, qual a necessidade de se lastimar por termos sido acometidos pela pobreza, por que se ogulhar da prosperidade, se podemos ver o Senhor do Universo depois de nos banharmos nas águas de Sri MaNikarNika?

Esta cidade de Gadadhara, Gaya, apesar de pequena, de ter pouco afluência mundana e de não ser alcançada nem por desejos, é alcançada pelo entusiasmo, acompanhado por desapego da mente, e assim que se manifesta concede imediatamente a liberação. Não creio que acabei chegando aqui devido a alguma atividade meritória que tenha realizado, ou por merito de algum ancestral, nem pela autoridade de algum parente. Como posso ter alcançado este lugar? Chegar ao Ganges, Prayaga, Yamuna e Kasi realmente é muito difícil, e para todo aquele que chega a um local como estes é sempre uma grande ocasião. Isso é um triunfo, dá sempre em grande fruto, é um favor de Sarada. Eu saúdo Gadadhara, que está sempre presente em Gaya e que mesmo se lembrado de uma grande distância no momento em que se oferece srdha, dá a liberação aos ancestrais. Um homem que numa condição miserável tenha vindo de um lugar remoto, depois de passar por caminhos que são muito difíceis de se andar, repletos de fatores hostis como tigres, hienas, espinhos e cobras, chegar até aqui, deve primeiro orar ao ser imutável: Ó rico Gadadhara, que vive n'água, vinha ansiando em vê-lO. Como o Senhor pode estar tão apático? Sei que o Senhor se exibe àqueles que vêem oferecer sradha aqui em Gaya. Ó Gadadhara, realizei este sradha por Sua causa. Agora, meu Deus, permita que volte para minha casa.

 O louvor a estas Deidades concede toda a riqueza celestial. A pessoa deve recitar estes louvores na hora do sradha e deve recita-los todos os dias na hora o banho. Estes louvores concedem o benefício de se banhar em todos os locais sagrados, por ouvi-los (lê-los), recita-los ou murmura-los na hora do banho. Narada, todos os pecados, por quaisquer atividades, são destruidos por se ouvir louvores a Prayaga, ao Ganges e ao Yamuna.

 

 

CAPÍTULO XXIII

 

 

A Importância de Tulasi

 

 

Mahadeva disse:

- Ó Narada, ouça. Vou lhe contar importância de tulasi, e depois de ouvir sobre isso, um homem se libera dos pecados que tenha cometido desde o momento em que nasceu até a hora da morte. Tudo o que é de tulasi, folhas, flores, frutos, raízes, galhos, casca, caule é purificante, e também a terra onde tulasi cresce. Os corpos cremados com madeira de tulasi se liberam de todos os pecados, e também os corpos em que se põe madeira de tulasi e depois são cremados. Quem na hora da morte ouve uma narrativa das virtudes de VisNu, ou quem se lembra de VisNu e quem é cremado com madeira de tulasi jamais volta a nascer neste mundo.

Se na pira funerária de um homem, entre milhares de pedaços de autras madeiras, houvem um pedacinho de madeira de tualsi, este homem alcança a liberação no momento em que é cremado; mesmo se tenha cometido bilhões de pecados. Toda madeira se torna meritória por entrar em contato com madeira de tulasi. Enquanto a pira funerária em que hover madeira de tulasi estiver queimando, todos os pecados cometidos em milhares de kalpas estão sendo queimados. Ao verem o corpo de um homem ser cremado com madeira de tulasi, os mensageiros de VisNu vêm leva-lo para o mundo de VisNu. Os servos de Yama fogem ao verem uma pira onde haja madeira de tulasi. Ao se acomodar no aeroplano que o conduzirá para o mundo espiritual, quem foi cremado com madeira de tulasi é homenageado pelos semideuses com chuvas de flores enquanto que as donzelas celestiais cantam lindas canções.

Ao verem este homem, VisNu e Siva ficam muito satisfeitos. O Senhor VisNu o leva pessoalmente pela mão até a Sua morada, na presença de todos os semideuses, celebrando um grande festival, com exclamações de vitória. Todos os pecados são queimados na pira onde arder madeira de tulasi. Quem realiza um sacrifício onde no fogo há madeira de tulasi, obtém o fruto de um sacrifício Agnisdoma por cada semente de gergelim lançada ao fogo. Um homem que oferece incenso com um pedaço de madeira de tulasi a VisNu, obtém o mesmo mérito piedoso de centenas de sacríficios de centenas de vacas (gomedha). A comida que é preparada para a Deidade com o fogo feito com madeira de tulasi, na verdade é oferecida a VisNu. Quem oferece uma lamparina acessa com madeira de tulasi, obtém o fruto do mérito religioso alcançado por acender milhares de lamparinas. Não há devoto nesta terra como aquele que ofereça a Krsna pasta de madeira de tulasi. Narada, ele se torna apto a receber o favor de VisNu. Depois de untar a Deidade com a pasta da madeira de tulasi moida na era de Kali, este devoto desfruta da vizinhança de VisNu. Quem adorar ao Senhor VisNu com o corpo untado com a pasta de madeira de tulasi, obtém o fruto de dar cem vacas em caridade e o fruto da adoração realizada em cem dias.

Ouça bem, este mérito religioso perdura por todo o tempo em que a apasta de tulasi usada para untar a Deidade de VisNu permanecer no templo, e equivale ao mérito religioso de dora oito prasthas de sementes de gergelim.  Se alguém coloca folhas de tulasi sobre a piNa a ser oferecida aos ancestrais, satisfaz os ancestrais por cem anos por cada folha oferecida. Depois de se banhar a pessoa deve aplicar sobre o corpo a argila retirada da base de uma planta de tulasi. Enquanto a argila estiver sobre o seu corpo, ele se banhou num local sagrado. Quando alguém faz adoração com um broto de tulasi, realiza a adoração com inúeras flores e o mérito religioso dura tanto quanto a existência do sol e da lua. Todos os pecados graves como o de matar um brâmane são destruidos por se tocar ou por ver a planta de tulasi quando esta está no jardim da nossa casa. Até mesmo por vê-la, ó Narada, todos os pecados são destruidos.

Mahadeva continuou:

- Agora vou lhe dizer mais alguma coisa. Ouça atentamente. Ó melhor dos sábios divinos, vou lhe contar uma coisa que nunca disse para ninguém. Em toda casa, vila ou recanto onde haja uma planta de tulasi, VisNu, o Senhor do mundo está presente e ali permanece muito satisfeito. Numa casa onde há uma planta de tulasi não há pobreza, ação hostil provocada pelos parentes, não há tristeza, medo e nenhuma doença. Uma planta de tulasi é auspiciosa em todo lugar, especialmente num local sagrado. Quando ela é plantada ela sempre se faz acompanhar de VisNu. Quem planta uma planta de tulasi recebe a posição de VisNu por toda a eternidade. Quando tulasi é adorada com devoção, VisNu apazigua os maus agouros, as doenças mais medonhas e todos os maus presságios. Por onde quer que o vento disperse o aroma de tulasi tudo é purificado e todas as espécies de seres vivos.

Ó Narada, os semideuses, Siva e VisNu residem sempre na casa onde haja a argila retirada da base de uma plante de tulasi. Na raiz de tulasi está Brahma. No meio do caule o Senhor VisNu e nos brotos está o Senhor Siva. Portanto, tulasi é purificante. Quem carrega sobre a sua cabeça a água que gotejou de uma folha de tulasi obtém o fruto de ter se banhado no Ganges e o fruto de ter dado em caridade cem vacas. Se alguém planta uma tulasi num templo de Siva, permanecerá no céu por tantos anos quantas forem as sementes desta tulasi. Antigamente Parvati plantou cem árvores de tulasi para Sa‰kara nos Himalaias. Eu me prostro para tulasi. Devemos plantar tulasi num dia de parvam (num dia de mudança da lua), em qualquer outra ocasião, ou num dia de sravaNa, ou de sankranti; tulasi sempre dá o maior mérito religioso. Uma pessoa pobre que adore tulasi diariamente será rica. Uma imagem de VisNu trás toda sorte de benefício e também concede a fama. VisNu está presente onde haja uma pedra salagrama. Dar presentes em um lugar onde haja uma planta de tulasi e tomar banho ali é centenas de vezes superior a peregrinar para VaraNasi. O mérito religioso é bilhões de vezes maior do que visitar Kuruksetra, Prayaga e NaimisaraNya. Todo mérito religioso que pode ser alcançado por se visitar VaraNasi é obtido no local onde houver uma salagrama. Por se adorar uma salagrama destroi-se rapitamente os pecados mais graves como o de matar um brâmane, etc.

 

 

CAPÍTULO XXIV

 

 

Um Voto para Tulasi de Três Noites

 

 

Narada disse:

- Bem, acabei de ouvir, graças à sua bondade, sobre a grandeza de tulasi. Agora conte-me sobre o voto de três dias para tulasi.

Sadasiva disse:

- Ó brâmane muito inteligente, ouça este voto muito antigo. Depois de ouvi-lo uma pessoa se livra de todos os pecados. Não há dúvidas a este respeito. Antigamente no Kalpa de Raibhyantara havia um rei chamado Prajapati. Sua famosa e casta esposas era Candrarapa. Ela fez  este voto que satisfaz todos os desejos. Este voto, que concede honradez, prosperidade material e desfrute dos sentidos dura três noites. A vida das pessoas que ouvirem este voto de tulasi é um sucesso.

Ó Narada, no nono dia da quinzena da lua cheia do mês de katika, a pessoa deve observar restrição dos sentidos, ser piedosa, contida e durmir sobre o chão. Para praticar este voto, estando pura e com a mente controlada, como regra, a pessoa deve dormir nas vizinhanças de um bosque de tulasi. Então a meia-noite, ela deve se banhar nas águas puras de um rio (por exemplo) e deve fazer as devidas oblações aos ancestrais e aos semideuses. Ela deve provindenciar uma Deidade de ouro de VisNu e Laksmi. E, desistindo de seu bem estar, não deve ser desonesta no que se refere aos assuntos de dinheiro. Deve fazer um par de vestes. Estas vestes devem ser amarelas ou brancas. Deve fazer os rituais para a satisfação dos nove planetas.

Depois de fazer uma oblação de arroz, cevada e dal para os semideuses e ancestrais e deve fazer um sacrifício a VisNu. No décimo segundo dia deve adorar com esmero ao Senhor dos semideuses, e deve dispor de um balde bem limpo, com cinco jóais, folhas e ervas. Neste vasilhame deve colocar uma imagem de VisNu com Laksmi e deve coloca-lo aos pés de uma planta de tulasi, cantando hinos védicos e purânicos. Em seguida ela deve borrifar apenas água na raiz de tulasi. Depois, deve banhar o Senhor dos semideuses, o melhor amigo de todo mundo, com cinco coisas doces (Pañcamrta - leite, açúcar, ghee, coalhada e mel) acompanhadas com este hino de solicitação: "Que o Senhor dos semideuses, o Ser divino, que tem forma infinita, que é a forma do próprio Universo, que de dentro d'água sustenta a criação do mundo, que cria este mundo através da Sua maya, fique satisfeito comigo."

"Venha ó Acyuta, o Senhor dos semideuses, ó massa de brilho, ó Senhor do munbdo. Você sempre remove a escuridão. Proteja-me do oceano da existência mundana." Este é o hino de invocação.

A Deidade deve ser banhada com a pañcamrta e com pasta de sândalo misturada na água, e também com a água do Ganges e de outros rios sagrados, dizendo-se: "Que Ananta, assim banhado, fique satisfeito. Ó Deus eu Lhe ofereci estes artigos com devoção. Aceite-os com Laksmi."

Ao untar a Deidade com pasta de sândalo, açafrão, aguru, cânfora, etc. deve-se recitar: "Ó NarayaNa, saudações a Você, aquele que me protege do oceano do inferno. Ó Senhor dos três mundo, eu Lhe ofereço estas vestes auspiciosas.

Ao se oferecer as vestes deve-se recitar: "Ó Damodara, eu O saúdo. Proteja-me do oceano da existência material. Vou Lhe oferecer o cordão sagrado, ó Purusottama, por favor, aceite-o."

Na hora de se ferecer as flores deve-se dizer: "Ó Senhor por favor aceite estas flores fragrantes que Lhe trouxe. Ó Senhor dos semideuses, aceite-as com amor."

Ao se ofercer a comida deve-se dizer: "Ó Senhor aceite esta preparação que eu fiz com amor." E ao se oferecer a tambula deve-se dizer: "Ó Senhor dos semideuses, por favor aceite esta noz de betel, a folhas de naga e a cânfora. Por favor aceite esta tambula." O devoto ainda deve oferecer incenso, aguru misturado com guggula e uma lamparina de ghee.

Ó Narada, depois de controlada, a pessoa deve preparar vários tipos de lamparinas diante de Laksmi e NarayaNa nas proximidades de um bosque de tulasi e deve oferecer os materiais de adoração ao Senhor que carrega um disco. Se o devoto dezejar ter um filho ele deve oferecer um coco no nono dia da lua cheia de kartika, se desejar mérito religioso e desfrute dos sentidos deve oferecer uma fruta cítrica no décimo dia. Se desejar acabar com a pobreza deve oferecer uma romã no décimo primeiro dia.

Ó Narada, ouça bem atento: O devoto deve oferecer numa travessa de metal coberta com um pedaço de pano e uma cesta repleta com sete tipos de grãos e nozes de betel, com o seguinte hino: "Ó Senhor, Você e tulasi, por favor aceitem este material de adoração, sempre acompanhado de um búzio, oferecido por mim. Ó Senhor dos semideuses, minhas saudações a Você."

Depois de adorar ao Senhor VisNu, o Senhor dos Semideuses, juntamente com Laksmi, o devoto deve pedir ao Senhor a realização do voto, dizendo: "Ó Senhor, eu sem ter desejos materiais e sem estar irado, jejuei para cumprir este voto. Ó Senhor dos semideuses, só Você é o meu refúgio. Ó Senhor Janardana, caso não tenha conseguido completar este voto pela falta de algum recurso, que ele se complete devido ao Seu favor. Saudações a Você, ó Senhor de olhos de lótus; saudações a Você que reside na água. Ó Kesava, ó Você que destroi a escuridão da ignorância, se quiser me favorecer por eu ter cumprimdo este voto, por favor, dê-me a visão do conhecimento." E então a noite, o devoto deve permanecer acordado, deve cantar canções, ler textos sagrados acompanhado por aqueles que conhecem a arte da dança e da música e deve narrar fatos auspiciosos e meritórios.

Na hora do dia raiar e depois do sol se levantar, ele deve convidar os brâmanes com devoção e oferecer uma sradha aos ancestrais da maneira como fazem os devotos de VisNu. Depois de alimentar os brâmanes com leite doce e ghee, e depois de oferecer-lhes tabulas, flores, sândalo e outros presentes, ele deve alimentar muito bem três casais de brâmanes e lhes dar vestes, açafrão e ornamentos. De acordo com a sua capacidade, o devoto deve encher cestos com cocos, preparações de alimentos, vestes e frutas de vários tipos para doa-las ao seu guru e sua esposa. Ele deve adora-lo com sândalo e flores. Também deve doar uma vaca e guarnição para a casa, além das vestes, ornamentos e frutas.

Ouça ao que vou lhe dizer, Narada. Todo mérito religioso que alguém pode obter depois de se banhar em todos os loocais sagrados é obtido através da adoração do Senhor dos semideuses. E depois de ter desfrutado de muitos prazeres e do encanto dos objetos que desejou, através do favor de VisNu, no final ele alcança a posição de VisNu.

 

 

CAPÍTULO XXV

 

A Importância de Prayaga

 

 

Vou lhe contar, assim como ouvi, a grandeza de Prayaga, onde vivem as pessoas que pretendem dar grande quantidade de presentes e praticar atividades meritórias. Este local sagrado chamado Prayaga, onde convergem o Ganges, o Yamuna e o Sarasvati é o melhor dos locais sagrados e é inacessível até mesmo aos semideuses. Nunca houve um local assim no passado e nem haverá no futuro. Este local sagrado é excelente, o melhor de todos os locais sagrados, assim como o sol é o melhor dos planetas e a lua é a melhor das estrelas. Ó sábio erudito, quem se banha de manhã cedo em Prayaga se libera de todos os pecados e atinge a posição mais elevada. Um homem que deseje a ausência de pobreza deve dar algo de presente a um brâmane em Prayaga. Não há dúvida que um homem por ter se banhado lá fica rico e vive uma vida longa. Ao ver a figueira eterna que ali existe, a pessoa se livra dos pecados mais graves, como o de matar um brâmane. Esta figueira-de-bengala é chamada Aksaya-vada e é vista até mesmo no final da criação.

Uma vez que o Senhor VisNu vive em sua folha, ela é conhecida como imutável. Os homens que são queridos por VisNu O adoram ali. A pessoa deve adora-la depois de cobri-la com um cordão. O Senhor Madhava sempre vive ali, muito satisfeito. A possoa deve ver a Sua Deidade naquele local. Ao vê-lA fica liberada de todos os maiores pecados. Semideuses, sábios e seres humanos devem sempre permanecer por lá. O homem que matou um brâmane, uma vaca, ou quem é caNdala, um patife com a mente maléfica, ou quem matou uma criança, ou aquele que não tem estudos, ao morrer ali adquire quatro mãos e vive em VaikuNdha por um longo tempo.

Ó Narada, ouça. Quem se banha em Prayaga durante o mês de magha, não tem limites de frutos a serem obtidos. Ouvimos que apaƒ, água, é o mesmo que naraƒ, são palavras sinônimas em todo mundo. Portanto Ele é chamado NarayaNa. Ele concede prazer e liberação àqueles que se banham ali. O mês de magha é o melhor mês para todas as atividades, assim como o sol é o melhor dos planetas e a lua é a melhor das estrelas. Quando em magha o sol está em Capricórnio, um banho pela manhã, mesmo que seja nunca pequena poça de água limpa, concede o céu até mesmo para os pecadores. Ó grande erudito, esta oportunidade é rara nos três mundos. Quem faz um esforço para se banhar em Prayaga e lá se banhar diariamente por três, por cinco ou por sete dias brilhará como uma lua na sua família, ó melhor dos brâmanes.

As entidades vivas móveis e imóveis, e também os seres humanos e outros seres que recorrerem a Prayaga, vão bem depressa para VaikuNdha. Sábios como Vasisdha e Sanaka repetidamente recorrem a Prayaga. Lá, no excelente local sagrado de Prayaga, vivem todos os deuses como VisNu, Rudra e Indra. Eles recomendam que ali se dêm presentes e que também se observem restrições. Depois de se banhar e de beber água ali, não há renascimento.

 

 

 

CAPÍTULO XXVI

 

 

O Louvor ao Presente de Comida

 

 

Narada disse:

- Diga-me o seguinte: Que coisas um homem, que deseja dar presentes, deve dar aos brâmanes neste mundo?

Mahadeva disse:

- Ó melhor dos sábios celestiais, ouça a esta grande verdade. Todos os elogios são para o presente de comida. Todas as coisas estão estabelecidas na comida. Portanto, os homens devem ter o desejo de dar comida. O mundo todo, que consiste de criaturas móveis e imóveis, se mantem com a comida. No mundo a comida causa o vigor. A vida só depende da comida. Um homem que deseje o seu bem estar deve dar comida aos brâmanes, mesmo que isso provoque inconvenientes para a sua família. Ó Narada, quem dá comida a um brâmane que a pede e que está aflito, é o melhor entre os sábios. Ele está cuidando do seu próprio bem estar.

Um homem sábio, que tenha bom caráter, que esteja livre da inveja, que depois de ter abandonado a ira, dá comida a um brâmane que está cansado, que está viajando, que chegou na hora da comida ser servida, obtém toda a felicidade que se possa alcançar na terra e no céu. Ele não deve censurar o convidado. Não deve molesta-lo. Ele deve oferecer comida a um brâmane que estude os Vedas. Este é o presente superior. Quando dado a um brâmane que está cansado, que nunca foi visto antes, e que está viajando, ou que esteja aflito, obtém todo o mérito da honradez. O mérito religioso de quem satisfaz aos ancestrais, semideuses, brâmanes e convidados com comida é ilimitado. Ó grande sábio, quem depois de ter cometido um grande pecado, dá comida a um suplicante, especialmente a um brâmane, se libera do pecado. A comida dada aos brâmanes possui mérito inexaurível; comida dada a um sadra dá um grande fruto. Oferecer comida a um brâmane ou a um sadra é superior a qualquer outro presente. Ninguém deve perguntar ao brâmane sob a sua família, a escola dos Vedas a que ele pertence, ou sobre os seus estudos védicos. Deve-se dar a comida pensando apenas que ali está um brâmane que deseja comer, e também deve se dar comida a um brâmane pedinte. Para o homem que dá comida, uma árvore de auspiciosidade cheia de todos os desejos frutifica neste mundo e ele vai para o céu onde terá muita alegria.

Ó melhor dos sábios, saiba quais são os mundos a serem alcançados por quem dá comida. Para esta pessoa magnânima, que dá comida, aeroplanos cheios da satisfação de todos os desejos, com várias formas e aspectos, brilham no céu. Ela desfrutará de auspiciosidade, poços de ouro e de lagos em todos os lugares. Ela ficará satisfeita com suntosos veículos e milhares de pérolas. Ela verá montanhas cheias de comida. Ganhará ornamentos e vestes. Haverá montanhas de ghee e rios de leite. Receberá palácios alvos e brilhantes, camas resplandecentes como o ouro. Portanto, todos devem desejar dar comida. Oferecer comida dá um grande fruto. Sendo assim, neste mundo o homem deve especialmente dar comida.

 

 

 

CAPÍTULO XXVII

 

 

O Mérito de se Construir Tanques, Plantar Árvores, etc.

 

 

Mahadeva disse:

- Dar água é o melhor presente; é sempre o melhor dos presentes. Portanto, um homem deve construir reservatórios de água, poços e tanques. Escavar poços para dar água destroi metade dos pecados de uma pessoa de má conduta e ela mais tarde acaba se dedicando a boas ações. O reservatório de água onde os brâmanes, vacas e pessoas piedosas se abastecem concede ao construdor a emacipação da sua família. Também emancipa toda a família quem constrói um reservatório onde as pessoas se refrescam no verão, num local de difícil acesso ou num local arriscado e difícl de ser alcançar. Agora vou lhe contar os méritos dos tanques que se constroi. Quem construiu um tanque é honrado em todos os lugares nos três mundos. Fazer um tanque é como construir uma casa amistosa, fazer amisade e ter bom relacionamento, gera fama e as melhores coisas. Um tanque bem construido no campo, num local sagrado e num lugar muito frequentado, é, segundo os sábios, o fruto de todo dharma (honradez), artha (prosperidade material) e kama (desfrute dos sentidos). Ao construir um tanque deve-se ter em conta o bem estar de todas as entidades vivas.

Todos os tanques concedem excelente mérito virtuoso. Semideuses, homens, gandharvas, ancestrais, demônios e seres imóveis se utilizam do tanque. Quem constroi um tanque onde houver água durante a estação chuvosa recebe o fruto da manuteção do fogo sagrado. Não há dúvidas quanto a isso. Quem faz um tanque onde haja água no inverno obtém o fruto de doar mil vacas. Não há dúvidas. Se houver água no tanque durante a primavera e o verão, os sábios dizem que o construtor recebe o fruto de atiratra e do sacrifício de cavalo.

Agora ouça sobre o mérito de se plantar árvores. Ó grande sábio, quem planta árvores emancipa ambas as famílias, a do lado do pai e a do lado da mãe. Portanto, um homem deve plantar árvores. Não há dúvidas de que estas árvores serão os seus filhos e netos. Depois da morte esta atividade conduz aos planetas celestiais. As árvores adoram toda a hoste de semideuses com as suas flores, os ancestrais com as suas folhas e aos convidados com a sua sombra. Os kinnaras, serpentes, demônios, semideuses, gandhavas, seres humanos e também legiões de sábios recorrem às árvores. Por terem flores e frutos elas gratificam os seres humanos neste mundo. E no outro mundo, elas são os filhos legítimos.

Os brâmanes que constroem reservatórios de água, que plantam árvores e que realizam sacrifícios, não saem do céu, e também aqueles que falam a verdade. Só a verdade é o grande conhecimento. Só a verdade é o Brahman mais elevado. Só a verdade é a maior penitência. Só a verdade é o mais elevado sagrifício. A verdade está desperta entre os semideuses; a verdade é a posição mais elevada. Penitência, sacrifícios, mérito religioso, e também a adoração aos semidesuse e convidados, o primeiro preceito, conhecimento - tudo isso está estabelecido na verdade. A verdade é sacrifício; e também é caridade. Ela são os hinos. Ela é a deusa Sarasvati. Dizer a verdade é praticar um voto. O sol brilha devido à verdade. O fogo queima devido à verdade. O céu existe devido à verdade. A adoração aos semideuses, o banho nos locais sagrados, são considerados a verdade. Um homem veraz indubitavelmente obtém tudo neste mundo. Se mil sacrifícios de cavalo e a verdade forem comparados, a verdade certamente é supeiror a todos os tipos de sacrifícios. Semideuses, ancestrais e seres humanos ficam satisfeitos em função da verdade. Eles dizem que a verdade é o dever mais elevado. Eles dizem que a verdade é a posição mais elevada.

Eles dizem que a verdade é o Brahman Supremo; portanto estou lhe explicando a verdade. Os sábios que são devotados à verdade, que vivem se dedicando a praticar a verdade, praticam uma penitência muito severa e têm asseguradas as faculdades divinas, e deste mundo eles seguem para o céu em aeroplanos, acompanhados por maravilhosas donzelas celestiais. A verdade deve ser dita sempre. Não há nada superior à verdade. Os homnes de mentes devotadas devem tomar banho num local sagrado, profundo, amplo, divino ou num lago puro. Este banho é tido como o maior. Os homens que não mentem por motivo pessoal, nem por causa dos outros, ou por causa dos seus filhos, vão para o céu. Os Vedas, sacrifícios e hinos védicos residem nos brâmanes. Eles não se manifestam para quem abandonou a verdade. Portanto, os homens devem praticar a verdade.

Narada disse:

- Diga-me novamente, especificamente, qual é o fruto das austeridades?

Mahadeva disse:

- Todos os brâmanes têm o poder da penitência.

Vou lhe falar sobre a meditação com penitência, que satisfaz todos os desejos, e que é muito difícil para os brâmanes praticarem. Ouça ao que vou lhe dizer. A penitência é conhecida como a atividade mais elevada. Quem está sempre dedicado a penitência, desfruta juntamente com as Deidades. Um homem obtém os frutos desejados por meio da penitência (tapas). A glória é obtida por meio da penitência. A salvação é obtida por meio da penitência. Obtém-se grandes coisas através da penitência. Conhecimento, proficiência, bem estar, boa fortuna, boa forma - tudo o que um homem deseje mentalmente, ele obtém. Aqueles que nunca praticam penitência jamais vão ao mundo de Brahma. Tudo o que um homem quiser aqui e no outro mundo, ele recebe por meio da penitência. Um homem que seja um bêbado, aquele que coabita com a esposa de outro homem, aquele que mata um brâmane, aquele que molesta a esposa do seu preceptor, supera tudo isso por meio da penitência e fica completamente livre.

Mesmo o grande Senhor Siva, o ancestral Senhor VisNu, o Senhor Brahma, Agni, Indra e todos os demais semideuses se dedicam à penitência; e também os oitenta e seis mil sábios, abstendo-se do intercurso sexual, desfrutam dos planetas celestiais juntamente com os semideuses devido à penitência. Por meio da penitência assegura-se um reino. Antigamente Indra, o rei dos semideuses, protegeu a penitência de todas as maneiras e assegurou o êxito dos semideuses. Os semideuses, o sol e a lua, que estão empenhados pelo bem estar de todo mundo, brilham apenas devido às suas penitências; da mesma forma as estrelas e os planetas. Aquele que for viver na floresta subsistindo apenas de frutas e raízes, consegue tudo o que quiser e vive muito satisfeito às custas de penitência. Ó sábio, o estudo dos Vedas equivale à penitência. Por recitar um capítulo dos Vedas o brâmane recebe o dobro do mérito religioso que obtém por ensina-lo. Ó grande sábio, assim como o mundo fica escuro sem a o sol e sem a lua, da mesma maneira ele fica escuro sem os PuraNas. Portanto, deve-se refletir sobre isso. Aquele que pratica penitência tem conhecimento dos textos sagrados e ilumina as pessoas.

Portanto, um preceptor é a pessoa mais venerável de todas as pessoas dignas de serem presenteadas. Uma vez que ele salva as pessoas da queda ele é conhecido como patra (digno de receber presentes). Aqueles que dão dinheiro, grãos, ouro e vários artigos de vestuário a uma pessoa digna de receber presentes alcança a posição mais elevada. Ouça o fruto de quem dá de presente vacas, búfalos, elefantes e cavalos para um brâmane venerável. Ele obtém o fruto de um sacrifício de cavalo que é inexaurível em todos os mundos. Quem dá a um brâmane que lê assiduamente os PuraNas, um esplêndido lote de terra, aplainado e fértil, emancipa as dez gerações anteriores e as dez gerações de descendentes da sua família e vai para o mundo de VisNu num aeroplano de ouro. Os semideuses não ficam tão satisfeitos com sacrifícios, com o oferecimento de água, com a adoração com flores, quanto ficam satisfeitos com a leitura dos PuraNas. Aquele que fizer um arranjo para que haja uma leitura de escrituras védicas num templo de VisNu, ou de Parvati, ou do Senhor Siva, ou de GaNesa, e também de Surya, obtém o fruto de um sacrifício de Rajasaya ou de um sacrifício de cavalo. A leitura de um livro que contenha histórias do Mahabharata ou dos PuraNas é sempre excelente. Quem lê obtém todos os objetos desejados e é conduzido para o mundo do sol. Depois de sair do mundo do sol, ele vai para o planeta de Brahma e depois de viver lá por centenas de kalpas se torna um rei na Terra. Aquele que lê o Mahabharata (Jaya) diante de uma Deidade obtém o fruto equivalente a mil sacrifícios de cavalo. Portanto, todos devem se esforçar para fazer uma leitura auspiciosa de um livro que contenha histórias do Mahabharata e dos PuraNas num templo de VisNu. Nada mais deleita tanto o Senhor VisNu e os demais residentes do céu do que isso.

 

 

 

CAPÍTULO XXVIII

 

 

O Mérito Resultante da Explicação de Um Texto Sagrado

 

 

Mahadeva disse:

- A este respeito, vou lhe contar um velho relato histórico, um PuraNa, que é altamente meritório, que remove todos os pecados e que é muito auspicioso. Ó Narada, o filho de Brahma, Sanat Kumara, depois de saudar ao seu pai, me narrou este episódio.

Sanat Kumara disse:

- Fui ver Yamaraja. Muito feliz e cheio de devoção, ele me honrou com belas palavras e pediu-me que sentasse num assento confortável. Quando estava ali sentado, vi uma grande maravilha: O próprio Dharmaraja levantou-se apressadamente do seu assento, ó Siva, ao ver um homem que havia chegado num aeroplano de ouro, com uma altar feito de lápiz-lazuli, maravilhoso devido a inúmeras jóias e pérolas e todo decorado com inúmeros sininhos. Yamaraja o manteve à sua direita e o adorou com diversos materiais de adoração. Yama, o senhor dos semideuses, depois de cheirar a sua cabeça (uma mostra de afeição), depois de sentar diante dele e de todas as honras, lhe disse estas palavras:

- Seja bem vindo, ó conhecedor do que é direito. Estou muito satisfeito em ver você. Por favor sente-se perto de mim e me dê algum conhecimento. Você vai novamente para o local onde vive o Senhor Brahma.

Quando ele disse isso, outro homem, sentado em outro aeroplano excelente veio até o local onde Yamaraja estava sentado. Enquanto estava sentado no aeroplano ele havia sido honrado por Yamaraja, que se prostrou para mostrar-lhe respeito. Yamaraja disse o mesmo que já havia dito para o outro recem-chegado.

Então eu perguntei a Yama:

- O que foi que ele fez que o deixou tão satisfeito? Tenho curiosidade de saber disso, uma vez que você mesmo o honrou desta maneira. E de maneira surpreendente, você também honrou o outro homem. Creio que os dois devem ter realizado atividades auspiciosas, uma vez que eles chegaram até aqui de aeroplano e você os honrou devido aos seus méritos religiosos. O seu mérito religioso é tamanho que o Senhor VisNu, o Senhor Brahma e o Senhor Siva sempre adoram você. Diga-me, meu caro e onisciente Yama, o que eles fizeram para obter este fruto divino?

Ao ouvir estas minhas palavras Yamaraja respondeu:

- Ouçao que estes dois fizeram. Eles chegaram até aqui desta maneira por por terem realizado uma atividade meritória. Lá na Terra há uma cidade muito conhecida, chamada Vaidisa. Lá vive um rei chamado Dharapala. Em uma ocasião remota, a esposa do Senhor Siva, muito irada, amaldiçoou uma de suas atendentes muito irada: "Uma vez que meu esposo não se casou com nenhuma outra mulher, você vai virar um chacal por doze anos." Este chacal perambulou pela superfície da Terra. Parvati então lhe disse: "Meu filho, a maldição que eu lhe fiz acabará na confluência dos rios Vetasi e Vetravati. Ao chegar lá o chacal jejuou naquele lugar sagrado e abandou o seu corpo. Assumindo uma forma divina, ele chegou até VisNu. O rei Dharapala, vendo aquela maravilha, construiu ali um templo de VisNu e também abandonou o seu corpo naquele lugar segrado. Numa forma divina, ele instalou naquela cidade uma Deidade do Senhor VisNu, e mandou que as pessoas cuidassem dEla.

O auspicioso templo de VisNu naquela cidade está sempre cheio de gente. O rei muito inteligente, muito modesto, honrou multidões de brâmanes, e especialmente o público leitor do Mahabharata e dos PuraNas, que são os melhores brâmanes e os mais eruditos. E depois de ler os textos purânicos e de adora-los devidamente com flores e demais parafernália, ele disse aos eruditos: "Este foi o templo de VisNu que construi. Ó queridos brâmanes, sempre há uma multidão de pessoas das quatro castas desejando ouvi-los cantar os PuraNas. Por favor, leiam esta literatura maravilhosa o ano inteiro, e ganhem a sua subsistência com esta atividade. E para o meu próprio bem estar, no final de cada ano lhes darei mais uma contribuição em moedas de ouro." E desta maneira, ele iniciou a leitura dos PuraNas. Meu querido sábio, depois de um ano, ao se aproximar o final da sua vida, ele veio até esta minha cidade. VisNu e eu lhe mandamos este belo aeroplano para leva-lo até o céu. Este foi o fruto das suas atividades. Ele ouviu ao auspicioso Padma PuraNa, e as suas belas narrativas, que são muito auspiciosas, puras e que destróem todos os pecados. Os semideuses não ficam tão satisfeitos com oferendas de flores, sândalo e outras parafernálias quanto ficam ao ouvirem um PuraNa.

Todos os semideuses não ficam tão gratificados com presentes de objetos de ouro, jóias, vestes refinadas ou de vilas e cidades, quanto ficam ao ouvir a um discurso religioso. Ó melhor dos sábios, da mesma maneira, eu também tenho grande amor por ouvir às narrativas históricas do Mahabharata e dos PuraNas, que determinam a satisfação de todos os desejos. Meu caro sábio, eu aprecio muito que se dê uma filha em casamento. Mas isso nem se compara com a satisfação que sinto ao ouvir a leitura de um texto dos PuraNas. Por que falar tanto? Nada me causa tanta alegria quanto ouvir a estas auspiciosas narrativas. Dizem que isso é um segredo.

Meu querido brâmane, o outro homem que chegou aqui, foi devido à companhia. Depois de ter ouvido a um texto sagrado com fé, em sua mente foi criada a devoção. Este brâmane depois de ouvir o texto, circum-ambulou o leitor, mantendo-o pela direita e lhe deu uma moeda de ouro. Como sua mente vivia sempre em ansiedade, ele nunca mais deu nenhum outro presente. Mas não resta dúvida que agora ele está colhendo o fruto de ter dado um presente a um receptor digno. Ó sábio, acabo de lhe contar as atividades destes dois.

Mahadeva disse:

- Os homens sábios que ouvirem a grandeza deste mérito religioso nunca enfrentarão uma calamidade, existência após existência.

 

 

CAPÍTULO XXIX

 

 

A Importância de Gopicandana

 

 

Mahadeva disse:

- Agora devo lhe dizer mais alguma coisa: A importância sobre a pasta de sândalo chamada gopicandana, conforme eu ouvi falar sobre isso, ó melhor dos sábios divinos. Um brâmane, um vaisya ou um sadra, cujo corpo é untado com gopicandana fica livre do pecado de matar um brâmane. Não resta dúvida de que quando se aplica uma marca no corpo com gopicandana, ocorre a liberação do pecado de beber bebidas alcoolicas e de outros pecados graves. Um devoto de VisNu, exclusivamente devotado a Ele, com o corpo untado de gopicandana está livre de todo tipo de pecados; e também se livra de todos os pecados devido ao uso da água do Ganges. Um sadra ou um brâmane que tiver matado um brâmane, ou que seja um bêbado, ou que tenha roubado ouro, que tenha molestado a esposa do guru, fica instantaneamente livre de todos os pecados cometidos em centenas de existências por usar a gopicandana.

As doze marcas estão prescritas para todos os devotos de VisNu; elas devem ser usadas especialmente pelos brâmanes que forem devotos de VisNu e que desejarem o bem estar. Ela deve ser usada na forma de um bastão na testa e na forma de um lótus no peito. Ela deve ter a forma de uma folha de cana no ombro. A outra deve ter a forma de uma lamparina. No ombro direito deve haver quatro marcas como uma roda na parte de cima e duas marcas na forma de anel abaixo delas. Também deve-se usar duas marcas em forma de búzio. Deve haver duas marcas no meio do corpo e também duas dos lados. No ombro esquerdo deve haver a marca do disco e duas maças desenhadas separadamente. Na testa deve haver uma marca da maça e também a de um anel de selar no peito. No meio pode haver duas marcas bem feitas, ou três, de búzio. No peito, na parte de cima também deve haver marcas de maça e as lótus devem ser feitas nos braços. Na base de cada orelha devem haver três ou quatro marcas de discos e mais duas abaixo delas. Deve-se fazer cada marca separada da outra.

Seguindo os sábios, o devoto deve fazer a marca da sua seita (sampradaya). Ele deve faze-la como preferir, pois não há regras a este respeito. Só por fazer uma marca de gopicandala, até um caNala se purifica. Eu considero um difamador dos devotos de VisNu como sendo um pecador pior do que um caNala. Não tenha dúvida a este respeito. Ninguém pode ser equiparado a um brâmane que é devoto de VisNu e que se dedica em meditar em VisNu. Na verdade ele é o próprio VisNu nete mundo. Um brâmane que tenha as marcas de um disco e de um búzio em seu corpo, e que seja dedicado ao estudo dos Vedas, é considerado o próprio VisNu nos Vedas. Um brâmane que tenha a marca do disco, purifica até aqueles brâmanes que purificam todas as pessoas ao estarem sentados na mesma fila para comer. Quem for devotado a ele se purifica de todos os pecados. Não há dúvida que por ter usado uma guirlanda de tulasi um brâmane desfrutará da liberação. Um brâmane assim é a forma de VisNu, e é considerado neste mundo um devoto de VisNu. Na hora da morte, quem estiver usando uma marca de gopicandana vai direto para a morada de VisNu, num belo aeroplano.

Ó Narada, devo lhe dizer que quem usa uma marca de gopicandana jamais enfrenta uma calamidade. Um homem que use uma marca de búzio e a de um disco na mão direita e particularmente na mão esquerda, também se livra de todos os pecados. Não há dúvida que aqueles que são viciados na bebida, que mataram mulheres e crianças, que tenham praticado sexo ilícito, se liberam de todos estes pecados apenas por verem os devotos de VisNu. Nesta existência ninguém pode se encontrar com um devoto de VisNu que não seja digno. Eu mesmo me tornei um devoto de VisNu pelo favor de um devoto de VisNu. Não tenha dúvida que por morar aqui em Kasi e por proferir o nome de "Rama, Rama", qualquer um se torna Siva devido ao contato com este mérito transcendental.

CAPÍTULO XXX

A Grandeza do Voto da Lamparina

Narada disse:

- Ó Siva, diga-me qual a importância do voto, o melho de todos os votos, o excelente ritual da lamparina, chamado sanvatsara. Sei que por realizar este voto, todos os demais votos são praticados, todos os desejos satisfeitos e todos os pecados perecem.

Mahadeva disse:

Ó sábio divino, vou lhe contar um segredo que destroi todos os pecados. Por ouvi-lo, aquele que matou um brâmane, ou uma vaca, ou um amigo, e também que molestou a esposa do guru, quem foi um traidor, quem foi cruel, pode alcançar a salvação eterna, e depois de liberar centenas de familiares, vai para o mundo de VisNu. Agora vou lhe contar o excelente votoda lamparina, que demora um ano, o modo de pratica-lo e a sua grandeza.

No auspicioso décimo primeiro dia do mês de margasirsa, um homem livre da ira e depois de se restringir, depois de se levantar de manhã bem cedo, deve se banhar num local sagrado, na confluência de rios, ou no reservatório ou rio perto da sua casa.

E então ele deve recitar este hino: "Tomei banho em todos os locais sagrados. Conceda-me sempre este banho, ó Senhor!" Este é o hino a ser recitado na hora do banho. Depois de gratificar os semideuses e os homens, de murmurar os hinos e com os seus sentidos controlados, ele deve adorar ao Senhor Laksmi-NarayaNa. Depois de banhar a Deidade com pañcamrta, e depois com sândalo e água, ele deve dizer: "Deus dos deuses, ó Senhor do mundo, o Senhor tomou banho com Laksmi. Emancipe-me, ó Chefe dos deuses, pois estou aqui nesta medonha cadeia da existência material."

Depois disso, o devoto deve adora o Senhor VisNu com devoção, juntamente com Laksmi usando vaidika (tantras) e também hinos purânicos. E então, com as palavras: "Portanto, ó Senhor, estou Lhe oferecendo este sândalo e outros materiais." Ou deve cantar um hino como:"Saudações a Marsya, a Karmadeva, a Varahadeva, a Narasinhadeva, a Buddhadeva e a Kali." Ele deve adorar o Senhor dizendo: "Saudações a Rama, ao Senhor Sri VisNu; saudações à alma de todos os seres." Com este hino ele deve adorar a sua cabeça. Também há outros nomes do Senhor como Kesava, etc. e o devoto também pode adorar VisNu com eles. "Ó Senhor dos deuses, este é o fluido divino. Ele é flagrante, perfumado e é puro. Isso é incenso. Saudações ao Senhor. Aceite." Este é o hino a ser recitado ao se oferecer incenso.

"Esta lamparina destroi a escuridão. Esta lâmpada dá brilho. Portanto, que VisNu fique satisfeito com esta oferenda de lamparina." Este hino deve ser recitado na hora de se oferecer a lamparina. "Ó Deus dos deuses, ó Senhor do mundo, esta é uma oferenda de vegetais e outros comestíveis. Aceite-a juntamente com Laksmi, este é o melhor e excelente néctar." Este é o hino a ser recitado na hora de se oferecer cometíveis.

Depois de meditar em VisNu desta maneira, de tomar água e uma fruta com uma mão ou com uma concha, ele deve devotadamente oferecer os materiais de adoração. "Que todos os pecados que cometi em milhares de existências pereceçam devido a Seu favor, ó VisNu." Este é o hino a ser recitado na hora de oferecer os materiais de adoração.

Então, diante de Laksmi e VisNu, ele deve pegar um pote branco e novo cheio de ghee ou de óleo. Dentro dele deve por um vaso feito de cobre ou de barro. Dentro deste vaso deve haver um pavio feito de nove cordões. Depois de firmar bem o pote, ele deve acender a lâmpada. E estando puro, depois de ter adorado a Deidade, ele deve recitar este hino num local onde não haja brisa: "Kama (Cupido) brilha como o único imperador de tudo o que existiu e que existirá. Empregarei esta lamparina por um ano. Ó VisNu, que este incessante fogo sagrado O deixe satisfeito."

Depois de controlar os sentidos e receber o conhecimento sagrado, o devoto não deve falar com pessoas heréticas e pecaminosas. A noite ele deve se manter acordado, deve cantar e dançar, tocar instrumentos musicais, etc.; e também deve ler textos auspiciosos, relatos purânicos e jejuar. De manhã, depois de realizar os rituais matutinos, o devoto deve alimentar devotadamente os brâmanes e adora-los de acordo com a sua capacidade. Depois de quebrar o jejum, deve sauda-los e depois despedi-los.

Desta maneira, ele deve manter o voto firme um dia e uma noite. A lâmpada deve ter o peso de um pala de ouro ou metade disso. O pavio deve ser feito de prata, deve pesar dois palas ou a metade a mais do que isso. O devoto, desejando a porta da salvação, deve preparar o pote cheio de ghee e o vaso de cobre; e também deve fazer uma Deidade de Laksmi- NarayaNa de ouro, de acordo com a sua capacidade.

Depois este sábio deve convidar os melhores brâmanes. A melhor alternativa é convidar doze brâmanes. Como alternativa intermediária ele deve convidar seis brâmanes; ou simplesmente três brâmanes, e até um único brâmane que possa realizar o ritual para ele. Depois de honrar o brâmane e a sua esposa, que deve ser calmo, que realzie os rituais, que conheça especialmente relatos históricos dos PuraNas, que seja conhecedor da religião e depois de adorar a Laksmi e NarayaNa com devoção, deve dar ao brâmane o pote de ghee e o vaso de cobre, depois de meditar sobre a grandeza de VisNu com este hino: "Ó Ser imaculado, ofereci esta lâmpada, uma vez que ela destroi os pecados da existência mundana que é pervadida pela escuridão da ignorância, e uma vez que ela concede o conhecimento e a salvação." Este é o hino a ser recitado na hora de se oferecer a lâmpada. Depois de ter dado presentes aos brâmanes com devoção, ele deve alimenta-los com ghee, leite adocicado e doces. Então ele dar ao brâmane e à sua esposa vestuário e deve lhe dar uma cama com mobília, uma vaca e um bezerro. Ele deve dar presentes de acordo com a sua riqueza. Da mesma maneira, deve alimentar os seus amigos, parentes e entes queridos. Assim, ele deve fazer um grande festival no início e no fim do voto da lamparina. Então ele deve despedira Deidade, saudando-A e agradecendo-Lhe. Os homens que fizerem isso obtém um grande fruto: O mesmo mérito religioso que é obtido com os rituais Sankranti. Por intermédio de observar o voto da lamparina por por um ano, o homem aobtém o mesmo mérito religioso que é obtido pelos rituais mensais. Este voto da lamparina mantido por um ano, concede o fruto que é obtido pelos votos de dar presentes e com os votos de meditar, de acordo com o seu número.

Quem oferece uma lamparina à Deidade obtém o mesmo fruto que é obtido por uma pessoa erudita que dá vacas, terras e especialmente casas. O doador de uma lamparina obtém brilho; quem dá uma lâmpada recebe riqueza inexaurível; obtém conhecimento e a felicidade suprema. Não há dúvidas que por oferecer uma lâmapda um homem assegura boa fortuna, conhecimento puro, bem estar e grande prosperidade.

O homem que oferece uma lâmapda deve obter uma esposa amável, com todas as marcas auspiciosas, filhos, netos, bisnetos e uma prógine interminável. Um brâmane que ofereça uma lamparina deverá obter conhecimento, um ksatriya obterá um reino excelente, o vaisya obterá todo tipo de riquezas e animais e um sadra obterá a felicidade.

Uma criada que oferça uma lâmpada obtém um esposo dotado de todas as marcas auspiciosas, uma longa vida e muitos filhos e netos. Uma jovem que ofereça uma lâmapada nunca experimentará a viuvez. Ela não terá que suportar a separação do seu esposo devido ao poder do presente de uma lâmpada. As moléstias e doenças não ocorrem devido ao presente de uma lâmpada. Um homem temeroso se livra do medo, quem está preso se livra da prisão. Não resta dúvida de que o voto da lâmpada libera de todos os pecados, até mesmo os de matar um brâmane, etc. Esta declaração foi feita por Brahma.

Quem mantiver uma lâmpada queimando constantemente diante de VisNu, indubitavelmente praticou votos como candrayaNa e krcchra. Aqueles que adoraram VisNu, mantendo uma lamparina acesa por um ano, são abençoados, magnânimos e obtiveram o fruto de suas existências. E também aqueles que virem o pavio da lamparina aceso, vão para o local mais elevado, difícil de ser alcançado até pelos semideuses; e aqueles, que de acordo com a sua capacidade, colocarem óleo e pavio na lamparina, são elevados à posição mais elevada. E atambém aqueles que forem incapazes e manter a chama que está se extinguindo e forem informar aqueles que vierem abastece-la, desfrutam dos mesmos frutos.  Quem esmolar um pouco de óleo para manter a lamparina de VisNu, também obtém o mérito religioso. Até mesmo o homem que ver a lamparina acesa e juntar as palmas de suas mãos em honra a VisNu, obterá o mundo de VisNu.

Quem der a outras pessoas a idéia de acender uma lamparina em honra a VisNu, ou que fizer e acender a lâmpada, se livra de todos os pecados e obtém o mundo de VisNu. A este respeito, vou lhe narrar um fato antigo, que meramente por ouvi-lo um homem se livra de todos os seus pecados.

Nas margens encantadoras do Sarasvati havia um eremitério conhecido como Siddhasrama. Há muito tempo atrás, um brâmane chamado Kapila, que conhecia os Vedas, vivia ali. Ele era dedicado à pratica de votos e jejuns. Ele era pobre e erudito. Mantinha sua famíla esmolando. Ele satisfazia a VisNu por meio de votos, jejuns e restrições dos sentidos. Depois de adorar devidamente a VisNu, ele sempre acendia uma lâmpada. Depois de obter óleo, depois de adorar VisNu na sua casa, ele acendia uma lâmpada com grande devoção para a satisfação de VisNu. Quando este magnânimo Kaplia estava fazendo isso, um gato com presas aguçadas sempre devorava um camundongo. O gato ia até lá todos os dias para comer camundongos. Ele ficava espreitando sua presa diante da Deidade de VisNu. Lá ele comeu incontáveis camundongos. Além de comer os infelizes, ele bebia o óleo da lamparina e levava o pavio. As coisas iam seguindo desta maneira, até que num dia de ekadasi, o brâmane e sua esposa jejuavam diante da Deidade.

Naquele dia, eles louvaram o Senhor VisNu e dançaram diante da Deidade, permanecendo em vigília a noite toda. Quando era meia-noite, o brâmane caiu no sono. O gato entrou furtivamente na casa e comeu todos os coestíveis oferecidos à Deidade. Nisso ele viu uma camundonga que costumava a bebericar o óleo e que também costumava a levar embora o pavio da lamparina. Ele pulou para agarra-la, mas a ratinha entrou num buraco. Quando o gato tocou a lamparina, a chama se revigorou e ficou bem brilhante. O pote de óleo se inclinou e a lamparina ficou bem acesa. O brâmane então acordou. O gato e o rato também ficaram acordados a noite inteira; o gato na espreita e o rato com medo. Ao romper o dia, depois dos rituais matinais, o brâmane quebrou o jejum juntamente com os seus familiares. O grande kalpila foi vivendo desta maneira, juntamente com os seus familiares, filhos e netos. Ele obteve riquezas, grãos, muita saude, grande prosperidade e muito dinheiro. Quando terminou os seus dias na Terra, o brâmane assegurou a liberação devido ao voto da lamparina.

Na forma de um grande brilho, ele se juntou à Alma Suprema. No devido curso de tempo a ratinha também morreu na sua toca. Depois de embarcar num excelente aeroplano, ela partiu para o mundo de VisNu. Depois de algum tempo o gato também morreu e foi para o céu. Ele embarcou num magnífico aeroplano, recepcionado por ninfas celestiais, acompanhado por uma legião de vidyadharas, sendo louvado com coros auspiciosos de vitória pelas nagas, e seguiu para o mundo de VisNu.

Depois de desfrutar de inúmeros prazeres por milhares de bilhões de Kalpas, depois de um tempo inconcebível, ele se tornou um rei na Terra com o nome de Sudharman, que tinha uma mentalidade muito religiosa, que adorava aos semideuses e aos brâmanes, e que era muito bem afeiçoado, afortunado, muito poderoso e valente. Sua esposa, que lhe era muito querida, era dotada de todas as marcas auspiciosas, devotada ao seu esposo e tinha muito bom caráter. Seu nome era Rapasundari. Ela era a mais bela mulhar da sua época. Eles tiveram muitos  filhos e filhas. Enquanto o casal vivia assim desfrutando, chegou o mês de kartika, quando VisNu abre os Seus olhos. Durante este mês aqueles que são devotos de VisNu Lhe acendem lamparinas. Já os devotos de VisNu que têm medo da existência mundana praticam votos como o krecchra, o candrayNa e as restrições sensoriais.

Quando chegou o ekadasi Prabodhini, o rei disse à sua rainha: "Ó minha querida, este auspicioso Prabodhini é o umbigo de lótus de VisNu. Vou controlar os meus sentidos, jejuar e vou adorar a VisNu neste dia. Depois de me banhar no lugar sagrado de Puskara, vou adorar ao imperecível Senhor dos semideuses, que possui olhos de lótus, e Sua à esposa Laksmi." Depois de ouvir estas magníficas palavra, ela, que vivia se dedicando ao bem estar do seu esposo, que sempre sorria encantadoramente, disse estas palavras secretas ao seu esposo:

- Ó rei, este desejo também surgiu em meu coração. Também desejo forma e beleza. Quero ir com você até este lugar sagrado, Puskara.

Então o rei e a rainha, com uma tropa de elefantes, cavalos e carruagens e com todos os sacerdotes da família, seguiram para Puskara. Lá eles se banharam, meditaram em VisNu, gratificaram aos ancestrais e semideuses, adorando oa imperecível Senhor de olhos de lótus. Lá, num templo muito encantador, cheio de fileiras de lamparinas por todo canto, ele viu um gato desenhado num quadro. Ao ver aquilo, o rei se lembrou de sua existência anterior e do que ele havia feito, e contemplando a face de lótus do sua amada esposa, ele sorriu. Ao vê-lo sorrir, a rainha perguntou:

- Ó meu senhor, por que você sorriu depois de olhar para o meu rosto?

Lembrando-se do fruto da sua vida passada, o rei disse:

- Minha rainha. Antigamente, numa existência passada eu fui um gato na casa de um brâmane. Lá eu comi mulhares de ratos. Uma vez, acidentalmente, eu fiz brilhar uma lamparina diante da Deidade de VisNu e colhi o fruto desta atividade. Depois de alcançar o mundo de VisNu, voltei para a Terra e obtive um reino.

Rapasunadari disse:

- Eu também estou me lembrando das minhas atividades passadas e de outra existência. Eu era uma ratinha na casa do brâmane. No mês de kartika, no ekadasi de Prabodhini, qunado a lamparina estava se apagando, sai do buraco para roubar o pavio. Vendo a Deidade do Senhor VisNu adorada com flores, e vendo o brâmane dormindo, eu agarrei o pavio. Quando notei, você ia me pegar, eu fugi e entrei num buraco. Creio que ao tentar retirar o pavio, inclinei o pote de óleo, e com isso a lamparina se acendeu com grande brilho.

Ó rei, por ter feito com que a lamparina brilhasse, agora me foi assegurada esta grande beleza; você é o meu esposo, eu tenho um reino, filhos e muita felicidade. Por ter feito com que a lamparina brilhasse me foi assegurado um conhecimento que é muito difícil de ser obtido. Portanto, com todos o empenho e com grande devoção, devemos praticar especialmente o voto da lamparina, que agora nos concede tanta felicidade. Nós nos lembramos de nossas vidas passadas e nossos pecados pereceram. Portanto, todas as pessoas devem se empenhar, com os rituais adequados e com os hinos, em realizar o voto da lamparina, que é tão auspicoso e que brilha tanto quanto o sol, a lua e as estrelas.

Ao ouvir isso, ó sábio divino, o rei cehio de fé praticou o voto apropriadamente, juntamente com a sua esposa. Depois de praticar o voto da lamparina no lugar sagrado de Puskara, os dois obtiveram uma grande liberação, difícil de ser alcançada pelos demônios e semideuses.

Aqueles homens que nesta Terra ouvirem (lerem) sobre a grandeza do voto da lamparina, se livram de todos os pecados e vão para a morada de VisNu. E aqueles que em função disso, o praticarem devotadamente, se livram de todos os pecados e alcançam o Brahman ancestral. Ó sábio erudito, falei sobre o voto da lamparina que concede a liberação, que dá toda a felicidade, que é virtuoso e que é um grande voto. As doenças dos olhos, moléstias e outras doenças do corpo acabam num instante, quando este voto é praticado. Ó brâmane, não há pobreza, tristeza, desilusão e nem ilusão para quem pratica este voto. A prosperidade vem à sua casa a cada existência.

CAPÍTULO XXXI

O Voto de Janmasdami

Narada disse:

- Ó Senhor do mundo, ó Deus dos deuses, você que concede o destemor para os seus devotos, depois de me ter favorecido com a narrativa do voto da lamparina, agora fale-me sobre o voto de Janmasdami, ó Mahadeva.

Sri Mahadeva disse:

- Antigamente havia um rei chamado Hariscandra, que era um imperador soberano. Brahma ficou satisfeito com ele e lhe concedeu uma cidade muito auspiciosa, que satisfazia todos os desejos, que era cheia de jóias, brilhante e divina como o sol. Vivendo nela, o rei com muita honradez, protegia a Terra e as suas sete ilhas, como um api protege ao seu filho legítimo. O rei possuia muito dinheiro, cereais, filhos e filhas, e muito orgulhoso disso, protegia o seu reinado auspicioso. Antes dele ninguém neste planeta havia possuido um reino assim. Ele possuia um maravilhoso aeroplano, que também nunhum outro homem havia possuido. Um dia ele se indagou: "Por que atividade passada agora estou desfrutando o fruto de reinar como Indra?" Absorto neste pensamento, o rei sentado em seu excelente aeroplano viu o monte Meru, a montanha mais maravilhosa que existe. Na verdade este grande rei era como um novo sol. Numa faixa de ouro daquela montanha, o rei avistou Sanat Kumara, o sábio bramínico, devotado exclusivamente à meditação abstrata, e resolveu indagar a ele o motivo daquela sua vida maravilhosa. Muito deleitado em vê-lo, o rei saudou os pés de lótus do sábio. Ele o cumprimentou, e indagou ao sábio:

- Ó senhor, a riqueza que possuo é difícil de ser obtida neste mundo. Por que motivo eu a obtive? Quem eu era na existência passada? Se mereço este seu favor, por favor, me diga a verdade.

Sanat Kumara respondeu:

- Ouça, rei. Vou lhe contar o motivo do seu comportamento passado, e por ter se comportado desta maneira, você foi especialmente favorecido. Na sua existência prévia você foi um vaisya muito bom, puro e que falava a verdade. Você abandonou o seu dever, e por isso foi abandonado pelos seus parentes. Reduzido a uma condição miserável, incapaz de se manter, abandonado pela família, desalojado, você acompanhado por sua esposa, foi ser um servo. Mas naquela época todos estavam sendo afligidos por uma fome, e ninguém lhe deu emprego. Então, numa floresta, você viu um lago cheio de flores de lótus, e pensou: "Vamos apanhar alguns lótus." Você colheu os lótus, e resolveu seguir até a cidade de VaraNasi para vende-los. Lá ninguém comprou os lótus. Você avistou um templo e resolveu entrar nele. Lá ouviu o som de instrumentos musicais e indagou: "De onde será que vem este som?" Você ficou sabendo que era o som de uma orquestra, e que ali perto estava o rei Indradyumna, o famoso rei de Kasi.

A filha do rei, também muito famosa, se chamava Candravati, e era muito virtuosa. Naquele dia auspioso ela havia jejuado, pois era o dia do aniversário de Krsna. Você então foi até onde ela estava. Naquele local havia uma atmosfera de muita alegria, que satisfazia a mente. Estava sendo realizado um ritual sagrado, onde o Senhor VisNu estava sendo adorado juntamente com o sol. Você e a sua esposa O adoraram devotamente com aqueles lótus. A princesa ficou satisfeita ao ver aquelas flores tão belas, e surpresa indagou:

- Quem fez esta adoração?

Ao saber que havia sido você, ela ficou muito contente, e lhe deu muito dinheiro. Você não quis aceita-lo. Você foi convidado para comer, mas naquele dia você não aceitou o dinheiro e nem quis comer. O sol e o Senhor VisNu foram devidamente adorados. E desde aquele dia você passou a ser protegido pela princeza. Esta foi a boa ação que você fez na existência passada. Devido a este grande mérito religioso, na hora da sua morte um aeroplano celestial veio lhe buscar. Ó rei, agora você está colhendo o fruto da atividade que você realizou na vida passada.

Hariscandra disse:

- Se eu mereço ser favorecido por você, então me diga de que maneira, e em que dia e em que mês este asdami (oitavo dia da lua) deve ser comemorado.

Sanat Kumara disse:

- Ó rei, ouça atentamente o que vou lhe dizer. Se no mês de sravaNa, no oitavo dia da quinzena da lua nova a constelação de RohiNi for vista no céu, então este dia é chamado o dia de Jayanti. Este dia pode ser a causa de repetidas existências. Vou lhe contar a maneira de observar este dia, conforme Brahma me explicou. Por fazer isso as pessoas se liberam de todos os seus pecados e vão para o mundo de VisNu.

Depois de jejuar e de se banhar com água contendo sementes de gergelim negro, ela deve instalar um recipiente impecável contendo cinco jóias. Katyayana diz que estas cinco jóias devem ser preferencialmente o diamente, pérolas, lápiz-lazuli, topásio e safiras. Elas devem ser postas num pode de ourro contendo marcas auspiciosas. Nele deve ser posta uma Deidade de Mãe Yasoda, a esposa de Nanda Maharaja, amamentendo o seu filho com um sorriso nos lábios. Conforme as suas condições financeiras permitam, a pessoa deve fazr uma imagem de Deus em ouro sendo amamentando por Sua sua mãe, tocando o outro seio com a Sua mão, olhando-a com amor e deixando-a muito satisfeita. Se ele tiver capacidade financeira deve fazee uma imagem de ouro pesando dois niskas e se for de ferro, ela deve pesar três nistas.

Da mesma maneira, ela deve fazer uma imagem de ouro de RohiNi e uma de prata para a lua. A imagem da lua deve ser apenas do tamanho de um polegar e a de RohiNi deve ser do tamanho de quatro dedos. Ela deve colocar brincos nas orelhas e um ornamento no pescoço das imagens. Depois de ter feito isso, ela deve banahr a imagem de Krsna junto com a Sua mãe com leite e deve unta-la com pasta de sândalo. Ela deve cobrir a imagem com um tecido branco e decora-la com guirlandas de flores. A pessoa deve oferecer alimentos e frutas de muitas variedades, acender uma lamparina e fazer um arranjo de flores. O devoto deve dançar e tocar instrumentos munsicais diante da imagem,como recomendam os sábios. Depois de realizar este ritual de acordo com a sua disponibilidade financeira, o devoto deve adorar o guru.

 

 

CAPÍTULO XXXII

O Melhor Presente É o de Terra

Mahadeva disse:

- Ao ver completado e consumado o Satakratu, Indra teve um pensamento em sua mente e perguntou a Brhaspati:

- Ó senhor glorioso, fale-me sobre este presente valoroso e de fruto inexaurível, que concede a quem o dá a felicidade em todo lugar.

Depois de ouvir esta solicitação de Indra, Brhaspati, o sacerdote da família dos semideuses, respondeu:

- Ó Indra, que dá de presente ouro, ou uma vaca, ou uma porção de terra, se libera de todos os pecados. Mas quem dá um pedaço de terra, recebe o mérito de dar ouro, prata, vestuário e jóias. Por dar terra cultivável, onde se possa plantar e colher grãos, uma pessoa é honrada no céu enquanto houver a luz do sol. Quqleur pecado que tenha sido cometido na existência é eliminado com o presente de terra da medida de um gocarma. A daNa é a medida de dez cúbitos. Trinta daNas perfzaem uma vartana. Dez vartans completam um gocarna. Esta é a definição de um brahmagocarna. Ela é a porção de terra onde mil vacas podem ter os seus bezerros e onde os touros podem permanecer livres, isso é conhecido como gocarna.

Quem der este presente a um brâmane dotado de virtudes, que possua penitência e que tenha os sentidos controlados, recebe um fruto infinito, que dura por todo tempo em que existir a Terra e os oceanos. Assim como uma gota de óleo se dispersa ao cair n'água, da mesma maneira, ó Indra, o presente de uma porção de terra se dispersa em cada grão. Assim como as sementes lançadas ao solo germinam, da mesma maneira, os desejos que acompanham um presente de terra frutificam. O doador de comida é sempre feliz. Quem dá vestuário se torna bem afeiçoado. Quem dá uma porção de terra recbe de tudo, repetidamente.

Ó Indra, assim como a vaca alimenta o seu bezerro com o leite, da mesma maneira, a terra que está alimentando um brâmane é quem concede tudo. Um búzio, um assento auspicioso, um guarda-sol, cavalos excelentes e finos elefantes, dados de presente, não podem se comparar ao fruto que se recebe ao se doar terra. Doar terra é o céu, ó Indra. O sol, VaruNa, Agni, Brahma, a lua, Siva, e todos os demais semideuses saudam o doador de terra. Seus ancestrais aplaudem de deleite, dizendo: "Na nossa família surgiu um doador de terra, agora ele irá nos emancipar."

Três tipos de presentes são os considerados superiores: vacas, terra e conhecimento. Estes presentes elevam um homem do inferno através do leite, dos grãos e das palavras. Eles ajudam a enfrentar qualquer calamidade. Aqueles que dão vestuário vão para o céu com o corpo vestido. Quem não dá vestuário vai pelado. Os doadores de comida vão para o céu com gratificações. Aqueles que não doam comida vão com fome.

Os ancestrais, temendo ir para o inferno, dizem: "Este nosso filho irá para Gaya e será o nosso emancipador." Deve-se desejar ter muito filhos, e quem sabe ao menos um deles irá para Gaya. Ele poderá realziar um sacrifício de cavalo ou presentear um touro "nila." Este touro é avermelhado, com a cauda e as patas brancas, e é chamado nila. Os ancestrais se gratificam por sessentra mil anos com a água que este touro esparrama e toda a família se mancipa com a lama que se junta em seus chifres e vão para o brilhante mundo de Soma (lua).

Isso foi alcançado pelos reis Dilipa, Nrga e Nahusa, mas nenhum outro rei conseguiu. Muitos reis como Sagara deram presentes de terra. Todos eles alcançaram o fruto da doação. O presente de terra destroi o pecado de matar um brâmane, uma mulher, uma criança, é eficaz para quem é caído, ou para quem matou milhares de vaca. Quem rouba esta terra doada ou quem ajuda nesta atividade, se torna um inseto nas fezes e arrasta consigo todos os ancestrais. O doador de terra permanece no céu por sessenta mil anos; e quem o perturba pedindo mais terra vai para o inferno por um período idêntico.

Ninguém é mais meritório e ninguém é mais pecador do que quem doa terra e de quem a rouba, respectivamente. Eles permanecem no céu ou no inferno até a dissolução final. O primeiro filho do fogo é o ouro. O primeiro filho de VisNu é a Terra. As vacas são filhas do sol. Quem dá estes presentes na forma de ouro, vacas e um pedaço de terra, obtém um fruto inexaurível. Tanto quem recebe a terra quanto quem a doa são meritórios. Aqueles que usurpam a terra, ou que favorecem a sua usurpação injustamente destróem a si e a sete gerações de suas famílias. O patife, coberto pela ignorância que usurpa terra, o que favorece a sua usrpação, é amarrado pelas cordas de varuNa e nasce nas espécies de animais inferiores. Quem usurpa terra não é purificado nem quando escava milhares de reservatórios de água, nem por fazer centenas de sacrifícios de cavalo e nem por doar um bilhão de vacas.

Quaisquer que sejam as boas açòes praticadas, qualquer que tenha sido o presente doado, qualquer penitância que seja praticada, qualquer estudo que tenha sido feito, qualquer que tenha sido o mérito, ele perece por se usurpar uma porção de terra da medida de um dedo. Quem usurpa um pasto - a terra sagrada das vacas - uma estrada pública numa vila, ou uma porção de um campo crematório vai para o inferno e fica lá até a dissolução final.

Um homem mata sete mebros da sua família se conta uma mentira a respeito de sua filha, mata dez membros de sua família se mente sobre uma vaca, cem membros da família se mente sobre um cavalo e mata mil familiares se mente sobre um homem. Quem mente sobre o ouro mata todos os familiares que nasceram ou que nascerão. Quem mente sobre a terra mata tudo o que existe na terra. Portanto nunca se deve mentir sobre a terra. E mesmo que alguém esteja a ponto de perder a vida, nunca deve sequer mostrar interesse na propriedade de um brâmane. Aqueles que são queimados pelo fogo após a morte se elevam. Mas quem é queimado pela maldição de um brâmane, jamais se eleva. Quem é queimado pelo fogo se eleva, e também quem é queimado pelo sol, e aqueles que são golpeados com o cetro de um rei.

Um homem que roube a porpriedade de um brâmane vai para o inferno Raurava. O veneno é considerado veneno; mas o verdadeiro veneno é a propriedade de um brâmane, e este veneno mata os filhos e netos. Um homem pode digerir pó de ferro, pó de pedra ou até mesmo veneno. Mas quem nestes três mundos pode digerir a propriedade de um brâmane? Alguém pode sentir alguma felicidade ao roubar o que pertence ao um brâmane, ou o que pertence a uma Deidade num templo, mas isso provoca a destruição de quem rouba e da sua família inteira. O roubo de um brâmane, o assassinato de um brâmane, o roubo de um homem pobre, o ouro do preceptor ou o de um amigo, podem provocar danos até para um residente do céu.

Ó Indra, o presente que é dado a um brâmane que é comedido, que é modesto, que está acompanhado pela essência de todas as coisas, que se dedica ao estudo dos Vedas, a penitência, ao conhecimento e ao controle dos sentidos, gera um fruto inexaurível. Assim como o leite, a coalhada, o ghee e o mel vasam de um pode de barro que não tenha sido cozido, mas o pote não se afeta com isso, similarmente, um homem ignorante que receba uma vaca, ouro, vestuário, comida, terra e sementes de gergelim, fica reduzido a cinzas como a madeira queimada.

Quem constroi um novo reservatório d'água ou reforma um já existente, emancipa a família toda e é honrado no céu. Poços, tanques, lagos e árvores que crescem nos jardins, qunado reformados dão frutos como pérolas. Ó Indra, quem dá água para os outros durante o verão nunca se encontra com nenhuma dificuldade, perigo ou malefício. Ó melhor dos semideuses, a água que permanece sobre o solo, nem que seja apenas por um dia, emancipa todos os ancestrais de quem faz com que isso aconteça. O homem que oferece uma lâmpada terá um corpo forte, por meio do brilho da lâmpada. Por dar presentes a pessoa obtém memória e inteligência. Quem faz doações a uma pessoa digna (de preferência a um brâmane), mesmo depois de ter cometido alguma atividade pecaminosa, não é afetado pelos seus pecados. Quem não avisa que uma porção de terra, vacas ou servos estão sendo usurpados a força é considerado o matador de um brâmane. Aquele que, na hora de se realizar um casamento, na hora de se realizar um sacrifício ou de se dar um presente, criar algum impedimento por estar iludido, após a morte vira um inseto.

A riqueza se torna meritória por se dar parte dela em caridade, assim como a vida se torna meritória por se salvar outra vida. A não-violência dá o fruto da boa aparência, prosperidade e boa saude. Um homem obtém o fruto da adoração aos semideuses por viver de frutas e raízes. O céu é alcançado pela veracidade. Por jejuar até a morte se obtém um reino e a felicidade em toda parte. Ó Indra, um ser corporificado que perambule pela Terra como um pregador religioso mendicante, quem se porta bem depois de ser iniciado, quem sae banha três vezes ao dia, e quem costuma jejuar, alcança o resultado de todos os sacríficios. Todos devem tomar banho todos os dias, se diligentes e dedicados às orações (sandhya), aos Vedas e às preces. Quem é um adepto da não-violência vai para o céi esplendoroso, indestrutível. Quem entrea no fogo de certo será honrado no mundo de Brahma. Por abandonar o gozo sensorial obtém-se filhos e animais. Aquele que jejua veve no céu por um longo tempo. Quem sempre dorme sobre o chão nu, alcança a posição desejada. Quem assume a postura de um bravo, que dorme como um bravo e que se ocupa na posição de um bravo alcança todos os mundos inexauríveis, de acordo com o seu desejo. Ó Indra, depois de fazer jejum, receber inciação e de sebanhar por doze anos, a pessoa se eleva para a posição de um bravo. Ela pratica a honradez que é purificante e é honrada no céu.

Para os homens que lerem estes comentários de Brhaspati, incrementam-se quatro coisas: vida, conhecimento, glória e poder.

Narada disse:

- Ó rei, todas as regras sagradas contadas por Brhaspati para Indra me foram narradas pelo grande Senhor Mahesa.

CAPÍTULO XXXIII

O Hino a Saturno como Antídoto para os Problemas

Narada disse:

- Siva, diga-me como a opressão causada por Sani (Saturno) pode ser eliminada. Uma entidade viva é sempre liberada com as suas palavras.

Mahadeva disse:

- Ó sábio divino, ouça a um relato. Por ouvi-lo você se liberará de todas as amarras. Este nni é o senhor dos planetas e o grande senhor de tudo. Sua divindade é muito conhecida. Ele é um grande planeta na forma da morte. Ele possui o seu cabelo emaranhado e para os demônios ele é medonho. No mundo todos conhecem o seu poder. Tenho uma história para lhe contar que nunca contei para ninguém. Outroara, havia um rei na dinastia de Raghu, seu nome era Dasaratha. Ele foi um grande imperador e herói. Ao saberem que Saturno estava próximo de Krttika, os astrólogos lhe informaram: "Agora Saturno vai passar pela constelação de RohiNi. Esta passagem na carta astrológica é medonha, todos os semideuses e demônios a temem. Por doze anos haverá uma fome terrível." Depois de ouvir estas palavras, o rei fez uma consulta aos seus ministros: "Qual é esta calaminade que está vindo?" Em todo o mundo as pessoas estavam aflitas, dizendo: "Agora virá o fim do mundo. O mundo inteiro está aflito." O rei indagou aos brâmanes, liderados por Vasisdha: "Ó Brâmanes, que medidas devemos adotar agora?"

Vasisdha disse:

- Esta é a estrela de Prajapati. Quando ela é atravessada, como ficarão os súditos? Esta conjunção não pode ser evitada nem por Brahma e Sakra.

Tendo em mente algo arriscado, ele pegou o seu arco divino e suas armas divinas, e foi rapidamente para o céu com a sua quadriga, para um grupo de estrelas, mais de cem mil delas, que ficavam bem além do sol e que cobriam uma extensão de uma yojana e um quarto, e que residiam no dorso de RohiNi. O rei Dasaratha brilhava com as suas jóias, com a sua diadema e coroa resplandescendo no seu carro de ouro, que era decorado com jóais, e cujos cavalos tinham a cor dos cisnes, com a bandeira tremulando sobre o alto. Naquela ocasião ele brilhava no céu como um outro sol. Depois de envergar o arco até a orelha com um míssil que destruia tudo, foi ameaçar Saturno. Sani ao ver aquele míssil que provocava o pânico entre os semideuses e demônios, riu e disse:

- Ó senhor dos reis, o seu valor é grande e causa medo em seus inimigos. Ó rei, os semideuses, demônios, seres humanos, siddhas, vidyadharas e nagas ao serem vistos por mim são reduzidos a cinzas. Ó grande rei, estou satisfeito com a sua penitência e o seu valor. Peça-me uma bênção - oque você desejar. Devo concede-la.

Dasaratha respondeu:

- Você nunca deve atravessar RohiNi, enquanto existirem os rios, os oceanos, a lua, o sol e a Terra. É isso o que eu desejo, Sauri. Não desejo nenhuma outra bênção sua.

Garantindo-lhe uma bênção eterna, Sani disse:

- Que assim seja!

E solicitou mais uma vez, por estar satisfeito com o rei:

- Ó rei piedoso, peça-me uma bênção.

Então o rei pediu outra bênção de Saturno, dizendo:

- Ó filho do sol, nunca atravesse RohiNi, nunca provoque uma fome de doze anos.

Saturno respondeu:

- Nunca serei uma fome que dure doze anos. Esta sua fama se espalhará pelos três mundos.

O rei depois de obter estas duas bênçãos, vibrando de alegria, pegou o seu arco e o seu carro, e de mãos postas meditou na deusa Sarasvati e em Vinayaka, GaNesa, o líder dos serviçais de Siva. Foi então que Maharaja Dasaratha recitou este hino em louvor a Saturno:

- Minhas homenagens a Krsna, Nila (aquele que é escuro), a SitikaNdhanibha (aquele que se parece com Siva), a Kalagnirapa (aquele qeu tem a forma do fogo destrutivo), a Krtanta (morte). Minhas reverências a Nirmansadeha (aquele que tem pouca carne em seu corpo),a Dirghasmasrujata (aquele que tem um grande bigode e barba), a Visalanetra (que tem grandes olhos), que tem uma barriga magra e uma figura medonha. Minhas homenagens a Puskalagrata (aquele que tem um grande corpo), a Sthalaroman (aquele que tem cabelo espesso), a Dirgha (longo), a Suska (seco); saudações a você que tem as presas da morte. Saudações a Kodaraksa (que tem sentidos profundos), Durniriksya (difícil de ser contemplado). Saudações a Ghora (medonho), a Raudra (terível), a BhisaNa (terrível), a Kapalin (aquele que usa caveiras); minhas homenagens a Sarvabhaksa (aquele que consome tudo), a você, ó Valimukha (aquele que tem rugas na face); saudações a você, ó filho do sol, a você, ó Bhaskari (filho do sol), a Bhayada (que causa medo); homenagens a você, ó Sanvartaka (fogo da destruição), a Mandagati (que se move lentamente), saudações a Nistrinsa (impecável), àquele cujo corpo é queimado pela penitência, a você que vive absorto em meditação abstrata; constantes homenagens a Ksudharta (oprimido pela fome), a Atrpta (nunca satisfeito); saudações a você, o olho do conhecimento, o filho de Kasyapa. Quando você está satisfeito, você concede um reino; quando está irado  leva num instante.

Sendo assim satisfeito, o muito poderoso rei dos planetas, Saturno, o filho do sol, ficou vibrando de alegria e disse estas palavras para Maharaja Dasaratha:

- Ó grande rei, estou muito satisfeito com este hino que você me fez. Peça a bênção que desejar. Devo concede-la, ó descendente de Raghu.

Dasaratha disse:

- Ó Sauri (filho do sol), de hoje em diante não provoque mais problemas para ninguém - semideuses, demônios, seres humanos, animais, pássaros e serpentes.

Sani respondeu:

- Os planetas são chamdos Grahas por causa do seu grande tamanho. Dizem que eles provocam distúrbios. Vou lhe dizer algo apropriado para o que é solicitado e não pode ser concedido. Um homem que recite uma ou duas vezes este hino de louvor que você recitou, se libertará de todos os problemas na mesma hora. No final de suas existências sou eu quem determina a morte dos seres humanos, semideuses, demônios, siddha, vidyadharas e duendes. Por outro lado, nunca causarei distúrbios para quem tem fé, e que se torna clamo e puro, adore uma imagem de Sani feita de ferro com folhas de sami, e que ofereça um presente de feijão com ferro, acrescido de arroz e sementes de gergelim, e que dê uma vaca preta, umtouro a um brâmane; e que, especialmente no meu dia (sábado) me adore com este hino de mãos postas, depois de me adorar. Eu o protegerei sempre e o manterei sempre afastado das perturbações causadas por planetas durante a influência planetária, no signo do zodíaco em que a pessoa nasce, no aspecto planetário e no meio dele. Só por fazer isso, o mundo inteiro se livra de distúrbios desta natureza. Desta forma, ó rei, de uma maneira inteligente eu lhe concedo a bênção solicitada.

Depois de ter obtido estas três bênçãos, o rei Dasaratha se considerou uma pessoa bem sucedida e saudou Sani. Com a permissão de Sani, ele pegou seu carro e voltou para casa. Então o rei obteve a bem-aventurança. A pessoa que acordar cedo no sábado, deve recitar este hino de louvor a Sani, e quem ouvir este hino com devoção, fica livra de todos os pecados, e é adorado no céu.

CAPÍTULO XXXIV

Um Relato sobre Trisprsa

Narada disse:

- Ó senhor, tenha a bondade de me narrar especialmente o voto de Triprsa, que só por ouvir sobre ele as pessoas se livram imediatamente da cadeia de seus atos.

Mahadeva disse:

- Ouça sobre grande voto de Triprsa da encarnação de Krsna. Ele põe um fim na cadeia de pecados. Ele destroi a grande infelicidade. Ele concede os objetos desejados a quem os deseja, e dá a liberação àqueles que a desejam. VisNu é adorado na era de Kali por todo aquele que sempre narra o voto de Triprsa. Os pecados podem não ser elimidados por se proferir os nomes de Deus acompanhados de oferendas ao fogo. Mas sem dúvida, há um mérito inexaurível ao se proferir o nome de Triprsa. Ó brâmane, se Triprsa não for observado, não ocorre a liberação mesmo que se faça a leitura de textos sagrados, dos PuraNas e de outras escrituras, que se realize sacrifícios, visitas a bilhões de locais sagrados, que se observem multidões de votos e que se adore Deidades. Esta data (tithi) consagrada a VisNu é observada por mim para conseder a liberação. Para os brâmanes de Kali yuga, a filosofia Sankhya é difícil de ser compreendida; e também é muito difícil praticar o controle dos sentidos e não há estabilidade da mente. Triprsa dá a liberação para aqueles que são apegados ao desfrute dos sentidos, que não conseguem meditar e que têm pouca capacidade de memorização. O Portador do Disco (VisNu) há muito tempo atrás falou sobre este assunto para mim e para Brahma, ao nos prostrarmos diante dEle no Oceano de Leite. Eu tenho concedido a liberação até mesmo para aqueles que são apegados aos objetos dos sentidos e observam o voto de Triprsa. Triprsa dá a liberação aos sensualistas.

Este voto tem sido observado por inúmeros grupos de sábios. Se Triprsa ocorre na quinzena da lua cheia do mês de kartika, com a lua em Mercúrio, ele destrói bilhões de pecados. O crânio de Brahma caiu ao solo das minhas mãos bem neste momento, e eu, por possuir o pecado de assassinato, observei este voto naquele dia. A deusa Ga‰ga se livra da corrente de bilhões de pecados na era de Kai, devido ao conselho de VisNu de observar o dia de Triprsa. Narada, o pecado dos oito assassinatos que ocorreram no caso de Bahuvirya, foi removido devido ao conselho de Bhrgu de jejuar em Triprsa. Satayudha matou um brâmane numa floresta. Ele se livrou do pecado de matar um brâmane por jejuar em Triprsa. Aconselhado por Jiva, Indra se livrou do pecado de matar Namuci por jejuar no dia de Triprsa.

Ó grande brâmane, os pecados como de matar um brâmane perecem por meio de se jejuar em Triprsa. O que dizer então dos outros pecados? Se o voto de Triprsa não for observado, então não é possível se obter a liberação nem em Gaya, Kasi, Gomati ou perto de Krsna. A salvação eterna ocorre quando se abandona o corpo em Prayaga, em Gomati ou perto de Krsna, ou meramente por se banhar no Gomati. Por se jejuar em Triprsa, a liberação ocorre até dentro de casa, mesmo no caso dawuels que estão indulgenciando com os objetos dos sentidos e estão cheios de desejos de desfrutar dos prazeres sensoriais. De acordo com a filosofia Sankhya, a liberação é difícil de ser alcançada mesmo para aqueles que se afastam dos prazeres sensoriais. Portanto, ó brâmane, observe o voto de Triprsa que concede a liberação.

Narada disse:

- Ó Siva, que tipo de voto é este grandioso voto chamado Triprsa, que dá a liberação aos brâmanes e que você agora está me falando sobre ele?

Mahadeva disse:

- Narada, há muito tempo atrás, VisNu falou para Ga‰ga sobre este voto de Triprsa, por ter compaixão por ela, na margem de Praci Sarasvati.

Jahnavi disse:

- VisNu, na era de Kali as pessoas possuem bilhões de pecados como os de assassinar um brâmane e vêem se banhar nas minhas águas. Devido a sujeira destes pecados, meu corpo ficou turvo. Ó Senhor que possui o meblema de garua, como poderei me livrar destes pecados?

Praci Madhava disse:

- Ó filha, não chore. Vou contar o que você deve fazer. O Meu local é o Syama Vada e Praci Devi, a filha de Brahma, flui diante de Mim. Contemple a chefa das semideusas e todos os dias banhe-se ali. Com isso você se purificará. Não há dúvidas de que Eu, juntamente com centenas de locais sagrados e semideuses, vivo onde está Praci, a filha de Brahma. Este Meu lugar é puro e Me é muito querido. Ele destroi os pecados de bilhões de assassinatos. Uma vez que você Me é tão querida quanto a Minha vida, por estar satisfeito com você, vou da-lo de presente. Ó Jahnavi, por ordem Minha, bilhões de locais sagrados permanecem nas águas do Praci Sarasvati. Minha filha,a filha de Brahma, Praci, destrói todos os pecados daqueles que se banharem lá nas suas águas, diante de Mim. Ele elimina os pecados de matar um brâmane, de beber bebidas alcoolicas, de matar uma vaca ou uma mulher sadra, de roubar um brâmane, de não honrar o pai e a mãe, de usar um veículo inadequadamente, de trair o preceptor ou o de comer o que é proibido. Ó melhor dos rios (Ganges), vá se banhar lá. Você poderá se livrar de todos os pecados.

Jahnavi disse:

- Ó Senhor dos deuses, não poderei vir todos os dias. Ó VisNu, diga-me, como meus pecados serão eliminados?

Praci Madhava disse:

- Ó Jahnavi, uma vez que você surgiu dos Meus pés, devo lhe dizer mais alguma coisa, caso você não seja capaz de vir aqui todos os dias. Você deve observar o auspicioso voto de Triprsa, que é superior ao banho no Sarasvati, que é superior a centenas de bilhões de locais sagrados, que é superior a bilhões de sacrifícios, superior a proferir todos os hinos de sacrifícios e superior à prática de Sankhya-yoga. Este dia deve ser observado quando cai na quinzena da lua cheia ou na da lua nova. Quando ele é observado, a pessoa se libera dos pecados.

Jahnavi disse:

- Ó VisNu, diga-me o que é este Trisprsa, que Você tanto enaltece a grandeza. Este dia de Trisprsa é o mesmo dia em que o décimo, décimo-primero e décimo segundo dia se combinam, ou é um dia diferente?

Krsna disse:

- Ó deusa, este Trisprsa que você citou é demoníaco. Ele deve ser evitado como um esposo que não tem meios de subsistência. Este é o dia dos demônios e destroi a vida e o vigor físico. Deve ser evitando tanto quanto uma mulher menstruada. Este Meu dia, especialmente quando em conjunção com o décimo dia, deve ser evitado tanto quanto àquele que abandonou a sua casta e se degradou a castas inferiores. Assim como as pessoas ignorantes ficam poluídas devido ao contato com uma mulher menstruada, da mesma maneira o Meu dia em conjunção com o décimo dia é censurado. Este dia em que há conjunção do décimo primeiro, décimo segundo e décimo terceiro dia, é o chamado Trisprsa, e não aquele em cunjunção com o décimo. Um homem pode se submeter a uma expiação para eliminar uma falta. Ó rio divino, Eu não perdoo a falta cometida por se misturar o décimo dia. Quem observa o voto de ekadasi num dia conjugado com o décimo, bebe o veneno halahala. Todos devem ser cautelosos em não jejuar no Meu dia quando ele está cunjugado com o décimo dia. Todo o mérito religioso e a prógine se perdem com isso. Caso este dia seja comemorado com jejum, o infeliz cai no inferno de Raurava com toda a sua família. Depois de purificar o corpo, o devoto deve observar jejum no Meu dia. O dia em que há incrmento de sua duração deve ser evitado, exceto se conugado com algum outro dia, ou combinado com sravaNa e outras datas auspiciosas. Caso isso não seja observado não há mérito em se jejuar em ekadsi. Quando houver dúvidas quanto a duração do dia, deve-se observar o jejum no dia de dvadasi. Este dia é querido por Mim.

Jahnavi disse:

- Ó Senhor do mundo, seguindo as Suas palavras, devo observar o voto de Trisprsa. Por Sua misericórdia me verei livre de todos os pecados.

Sri Krsna disse:

- Volte para o seu lugar. Você nunca deve ter medo de nada. Ó deusa, ó melhor dos rios, o pecado nunca a afetará. Aqueles que depois de terem adorado Madhava e homenageado o Senhor do mundo, obtém a posição mais elevada.

Jahnavi disse:

- Ó Brahmam, diga-me a maneira de observar este voto. Devo segui-lo com determinação. Devo adorar o Senhor dos deuses, Damodara, Anamaya.

Praci Madhava disse:

- Ouça, deusa. Vou lhe dizer a maneira como Trisprsa deve ser observado. Até mesmo por ouvi-la um homem se libera dos pecados. De acordo com a capacidade de cada um, deve-se fazer uma imagem Minha pesando uma pala de ouro, ou meia pala. Deve ser feito um pote de cobre e cheio com sementes de gergelim. Um vasilhame branco contendo água e cinco jóias deve ser envolto com guirlandas de flores e aromatizado com incenso de agaru. Depois de banhar a Deidade de VisNu e de unta-lA com pasta de sândalo, deve-se coloca-lA no vasilhame. A imagem deve ser adorada com um par de vestes, com hinos védicos e com a recitação de passagens dos PuraNas, e também com flores brancas da estação e com folhas de tulasi tenras. Depois deve-se oferecer um guarda-sol e sandálias para VisNu, e também preparações de comida e muitas frutas. O devoto deve Me oferecer um cordão sagrado novo e forte, e uma peça de vestuário para a parte superior do corpo.

Também pode ser dada uma vara de bambu, longa, forte e bem bonita. Depois de adorar diligente e devotadamente os pés da Deidade, dizendo "para Damodara", Seus joelhos dizendo "para Madhava", Suas partes privadas dizendo "para Kamaprada", Sua cintura dizendo "para Vamanamarti", Seu umbigo dizendo "para Padmanabha", Sua barriga dizendo "para Visvayoni", Seu coração dizendo "para Jñanagamya", Sua garganta dizendo "para VaikuNdhagamin", Seus braços dizendo "para Sahasrabahu", para os Seus olhos dizendo "para Yogarapin", o devoto deve fazer uma respeitosa oferenda. Pegando com ambas as mãos um coco colocado sobre uma concha, e envolto em dois cordões, ele deve dizer: "Ó Janardana, se apenas por ser lembrado, o Senhor remove os pecados, os sonhos ruins e os maus presságios de minha mente, então, ó Senhor, proteja-me do medo de ir para o inferno e de enfrentar alguma calamidade aqui e no outro mundo; aceite estas respeitosas oferendas. Saudações a Você, ó Damodara, sempre seja benevolente comigo."

Depois o devoto deve oferecer incenso, lamparina acenado com ela sobre a cabeça do Senhor e depois deve colocar uma flor de lótus sobre a cabeça de VisNu. Depois de realizar este ritual, ele deve adorar ao preceptor. Deve dar ao guru ouro, vestuário e um traje com turbante, e também sapatos, um guarda-sol, um anel e um pote d'água, e também comestíveis, tambala, sete tipos de grãos e um presente. Depois de adorar convenientemente o seu guru, o Senhor dos semideuses, o devoto deve permanecer acordado para honrar a VisNu, com dança e música, de acordo com os preceitos sagrados. No fim da noite, depois de fazer uma respeitosa oferenda à Deidade, e depois de terminar os rituais como o do banho, ele deve comer com os brâmanes.

Siva disse:

- Ó brâmane, depois de ouvir sobre o Trisprsa, que é maravilhoso e emocionante, obtém-se o mérito religioso depois de se banhar no Ganges. Por jejuar no Trisprsa alcança-se o mérito religioso de milhares de sacrfícios Asvamedhas e de centenas de Vajapeyas. Obtém-se a liberação de toda a família do lado materno, paterno e de todos os descendentes, e o executor é honrado no mundo de VisNu. Por jejuar em Trisprsa, obtém-se o mesmo mérito religioso de ter visitado bilhões de locais sagrados. Seja o executor um brâmane, um ksatriya de má índole, vaisyas, sadras, ou uma pessoa de casta inferior, ele alcança a liberação ao partir desta terra. Assim como o hino de doze sílabas, este hino é o rei dos hinos. Este é o melhor voto a ser observado. Ele foi primeiramente observado por Brahma e depois pelos grandes sábios. Então, meu caro Narada, o que dizer das outras pessoas? Trisprsa dá a liberação. Ouça ao fruto alcançado por quem observa este voto com devoção. O devoto que observa este voto recebe o mérito de se banhar no Ganges em VaraNasi por milhares de períodos de Manu. Quem observa o voto de Trisprsa, obtém o fruto de se banhar em Prayaga e no Yamuna por bilhões de anos.

O homem que observa o voto de Trisprsa recebe o fruto de se banhar em Kuruksetra em bilhões de eclipses solares, ou de doar centenas de bharas de ouro. Por meio de um só jejum reduz-se a cinzas bilhões de pecados e centenas de pecados de se matar um brâmane. Este voto concede a libração a quem não se liberou. Ó Narada, foi o próprio Krsna que fez este voto diante de Parasarya. Aquele que, mesmo tendo cometido muito pecados, mostrar este PuraNa vaisNava a um brâmane depois de copia-lo, alcança a liberação. Este voto assegura todo o mérito religioso que se pode alcançar em centenas de eras de Manu. A existência daqueles infelizes que apesar de ouvirem sobre os méritos de se observar o voto de Trisprsa, não se apreoveitarem dele, viveram suas vidas inutilmente. Aqueles que depois de ouvirem sobre o voto de Trisprsa, o observarem ao menos uma vez, escapam de ser reduzidos ao estado de duende, mesmo que nunca lhes façam nenhum sraddha e mesmo que eles não tenham filhos.

CAPÍTULO XXXV

O Voto de Unmilani

Mahadeva disse:

- Agora vou narrar para você o excelente voto de Unmilani (ekadasi), que só por ouvir sobre ele um homem se libera das amarras da existência mundana, um pecador fica livre dos seus pecados e é honrado no céu e todos os ancestrais obtém uma boa posição. Um estudante obtém todo o conhecimento e a satisfação de todos os seus desejos por meio do voto deste ekadasi. Não nenhuma dúvida quanto a isso. Ele é honrado no céu. Ele não só assegura sua posição como é honrado no mundo de Siva. Portanto, ó rei dos sábios, honre sempre os devotos de VisNu. Quem sempre serve a um devoto de VisNu obtém uma boa posição. Até um rei só deve se alimentar depois dos devotos terem se alimentado. Eles nunca devem ser punidos. Só é capaz de adorar a VisNu quem honra os Seus devotos com devoção. Ó Narada, quem consegue uma salagrama sila deve diariamente coloca-la sobre a cabeça e usa-la devotadamente em atada em volta do pescoço. O aroma do incenso oferecido a VisNu deve ser sentido como prasada. Sempre informe os devotos sobre a importância de se acenar com uma lamparina diante da Deidade. Depois de devotadamente derramar a água de um búzio sobre a cabeça de VisNu, você teve borrifa-la sobre a sua cabeça e da-la aos devotos de VisNu.

Ó brâmane, depois de oferecer diariamente comestíveis com todos os bons ingredientes a VisNu, você deve come-los. A comida oferecida a VisNu deve ser comida em companhia dos devotos. Ofereça-Lhe todos os dias louvores com o hino que contem os mil nomes de VisNu. Ofereça uma lamparina e dance e cante respeitosamente diante dEle. Ele merece ser adorado com brotos de syama. Ó Narada, é muito difícil se ter a oportunidade de adora-lO com brotos de syama. O mérito religioso que é obtido por se adorar VisNu com brotos de grama darva é igual àquele que se obtém por doar a Terra inteira. Portanto, nesta Terra, não há nda que se equipare à darva. Quem deseja a absorção em VisNu deve adora-lO com darva. Você pode não adora-lO com arroz sagrado ou com sementes de gergelim, caso O adore com darva. O voto de dvadasi, que deve ser observado toda quinzena, destroi os grandes pecados. Ele sempre concede a liberação, a felicidade e uma vida longa.

Este voto em honra a VisNu é considerado a salvação dos devotos de VisNu. Ele concede a felicidade dos chefes de família e a salvação dos ascetas. Ele cura todas as doenças, purifica o corpo. Ó sábio, não o observa apenas por palavras. faça jejum e mantenha a vigília durante a noite. Adore VisNu diariamente com um maço de folhas de tulasi. A marca de gopicandana na testa purifica todas as pessoas, portanto você deve usar uma marca de gopicandana en sua cabeça. Todos aqueles que usam esta marca, mesmo que tenham matado brâmanes, roubado ouro, sejam alcolatras, que tenham se aproximado de mulheres que não se deve aproximar, alcançam a liberação. Use em volta do pescço uma guirlanda de flores que tenha sido oferecida a VisNu ou, feita de frutas de dhatri ou de folhas de tulasi. Leia diante de VisNu este PuraNa chamado Padma, e também o relato de Prahlada Maharaja, o rei dos demônios. A observação dos dias de ekadasi é muito importante.

O dia em que o ekadasi dura todo um dia e uma noite e um ghadika do dia seguinte é chamado Unmilani, e é especialmente querido por VisNu. Todos os sacrifícios, austeridades, visitas aos locais sagrados de peregrinação nos três mundos, não se equiparam a um bilhonésimo do mérito que se obtém ao fazer o voto de Unmilani. Bem, qual é a necessitade de ficar repetindo os méritos de Unmilani? Não há nada superior a Unmilani, assim como não há superior a VisNu. VisNu deve ser adorado com muito esmero com o nome do mês em que o dia de Unmilani cai. Este dia deve ser comemorado em companhia dos devtos, lendo ou ouvindo histórias sobre VisNu. Quem observa o voto de Unmilani desta maneira, vive no mundo de VisNu por milhares de bilhões de kalpas.

 

 

CAPÍTULO XXXVI

O Voto de Paksavardhini

Narada disse:

- Ó Mahadeva, que tipo de voto é o chamado Paksavardhini, que por se observar obtém-se a liberação de grandes pecados?

Sri Mahadeva disse:

- Paksavardhini equivale a miríades de sacrifícios de cavalo. Ele é observado quando o dia da lua nova ou o dia da lua cheia dura ao menos um dia e uma noite e sessenta ghadikas e se prolonga no dia de pratipad, isto é, o primeiro dia da quinzena. Neste dia deve-se adorar a VisNu com todo zelo, com pomposas oferendas, e repetir a prece: "Ó Senhor do mundo, estou jogado e me afogando neste oceano da existência mundana, O Senhor é o Amo dos mundos, e na verdade é o Senhor do Universo. Saudações a Você, ó Padmanabha."

Este dia de dvadasi chamado Paksavardhini deve ser observado pelos pobres que desejarem incrementar as suas posses, de acordo com a sua capacidade, pois é um voto que requer gastos significantes. Sempre deve-se jejuar e recitar textos purânicos em companhia dos devotos. As pessoas que cumprem este voto, ou que ouvem falar dele, obtém todos os méritos religiosos, que perduram até a dissolução final do Universo. Este voto foi outgrora seguido por Vaistha, e também por Bharadvaja, por Dhruva Maharaja e por Maharaja Ambarisa. Este voto voto é tão vistuoso quanto Kasi; ele é tão virtuoso quanto Dvaraka. Ao jeuar neste dia, o devoto alcança tudo oque desejar. Ele é um dia muito abençoado, muito abençoado. Destroi miríades de pecados de sangue. Ele devce ser seguido especialmente por aqueles que desejarem obter conhecimento. O Senhor de tudo o que existe é propiciado ao se observar este voto. Ele destroi todos os pecados.

 

 

CAPÍTULO XXXVII

 

 

Manter Vigília em Ekadasi e Dvadasi

 

 

Mahadeva disse:

- Ó Narada, ouça a importância de manter a vigíla durante o ekadsi. Depois de ouvir sobre assunto, até um grande pecador indubitavelmente alcança a salvação.

Narada disse:

- VisNu, o Senhor de tudo, é sempre purificante. Ó Siva, ouvi você contar a importância de se manter jejum em honra de VisNu. Mas ainda desejo saber a importância de ficar acordado na noite de ekadasi. Qual é a importância disso? De que tipo é esta devoção noturna? Fale-me sobre a adoração que deve ser feita nas diferentes horas do dia. Você é sempre adorado nos três mundos. Você é Janardana, VisNu. Você é o Deus, o Senhor do Universo, uma vez que você é um grande devoto de VisNu. Você, ó Senhor de Uma, é o maior de todos os devotos. Neste mundo você é conhecido devido à sua devoção. Portanto, ó Senhor do Universo, diga-me como as pessoas podem ser emancipadas, e também diga-me a importância de se manter vigília.

 

Mahadeva disse:

 

- No dia de ekadasi, o devoto depois de ter adorado a VisNu com devoção a noite, deve ficar acordado com os devotos de VisNu diante de uma Deidade de VisNu. Quem sempre canta, toca instrumentos musicais, dança, ouve aos PuraNas, oferece incenso, acena lamparinas diante das Deidades, oferece comidas, flores, sândalo e unguentos, frutas, respeitosas reverências, presentes com devoção e controle dos sentidos. O devoto sempre fala a verdade e as palavras apropriadas, seguidas da ação, e fica sempre desperto alegremente, livre de pecados e querido de VisNu. Quando é necessário ficar acordado, os devotos que dormem perdem o fruto de jejuar e o voto de VisNu-vrata. Ó grande sábio, quem fica acordado na noite de VisNu é chamado VisNu-jagara devido à devoção por VisNu, e não dorme de maneira alguma, repetindo mentalmente os nomes de VisNu, e todos devem saber que um devoto assim é muito abençoado. Especialmente nesta noite, a repetição dos nomes de VisNu da o fruto de se presentear com uima vaca a cada instante; o fruto é quatro vezes o de presentear com uma vaca se a vigília e o cantar dos nomes de VisNu é repetido por um ghatika; e se o nome de VisNu é repetido por três horas da noite ele é um bilhão de vezes o fruto de presentear uma vaca. Ele é infinito se o cantar e a vigília for mantida por quatro horas. Por se manter a vigília pelo tempo de um piscar de olhos, e se isso for feito diante da Deidade de VissNu, o fruto obtido é bilhonário; ele é incontável. O fruto obtido pelo homem que dança diante da Deidade nunca é perdido, nascimento após nascimento. O devoto deve, com uma mente pura, acenar uma lamparina diante da Deidade de VisNu, com alegria, energia, sem conversas pecaminosas, etc., acompanhado por saudações e por circum-ambulação da Deidade.

 

Quem fica devotadamente acordado no dia de ekadasi, que é vinte e seis vezes fruitivo, nunca nasce novamente na Terra. Aquele que sem o egotismo provocado pela riqueza, fica acordado na noite de ekadasi, está imerso na alma suprema. Quem mantem a vigília com interesses mundanos é um patife e perde a sua alma. Quem ridiculariza a vigília de ekadasi, nasce como um inseto nas fezes e permanece nesta condição por sessenta e seis mil anos. Quem mantem a vigília por um momento ou por meio memento alcança um resultado muito superior ao concedido pela honradez, bem estar material e prazeres sensoriais. Se alguém que seja versado nos Vedas e nas injunções das escrituras, ridiculariza a vigília de ekadasi vai para o inferno. Quem me adora e é dado a ridicularizar VisNu, vai para o inferno juntamente com vinte e uma gerações de sua família. VisNu é Siva e Siva é VisNu. Eles têm a mesma forma, mas permanecem separados em duas formas diferentes.

Portanto, ninguém deve ridicularizar o voto de vigília. Na era de Kali as pessoas dormem até durante o dia, o que dizer de manter vigília? Há um proveito enorme em se fazer a vigília de ekadasi na era de Kali. Não há dúvidas quanto a isso. Caso não haja ninguém que possa ler os PuraNas, os devotos devem cantar e dançar, mas caso haja alguém que leia, então primeiro deve-se ler os PuraNas.

A vigília em honra a VisNu num ekadasi é bilhões de vezes mais fruitiva do que um sacrifício de cavalo ou um Vajapeya. Quem faz a vigília emancipa os familiares do lado materno, paterno e da família da esposa. O dia de jejum que é misturado com outro dia não se presta para a vigília, para dar presentes e outras atividades auspiciosas. É como dar presentes a um ingrato.  Por quantos dias se permanecer em vigília diante de VisNu, tantas serão as yugas no mundo de VisNu.

Por quanto dias não se fizer a vigília diante de VisNu, tantas serão os milhares de anos a permanecer num inferno como o de Raurava. Quem não faz vigília em ekadasi, e que fica como um mudo sem cantar, ou que não lê os PuraNas, deve nascer mudo por sete existências, por falta de honrar a VisNu durante a vigília. O tolo que não dança diante de VisNu durante a vigília nasce como um manco por sete vidas. Mas quem canta, dança e mantém a vigília em honra a VisNu, alcança a posição de Brahma, a minha posição e a de VisNu.

O devoto de VisNu, que se mantém acordado em homenagem a VisNu e ilumina as outras pessoas, vive com os seus ancestrais por muito tempo em Viakustha. Quem dá a idéia para que os outros permaneçam acordados em honra a VisNu, viverá por sessenta mil anos em Sveta Dvipa. Ó melhor dos brâmanes, todos os pecados cometidos em bilhões de existências perecem durante uma noite de vigília diante de Sri Krsna. Para aqueles que mantém a vigília diante de uma pedra salagrama, o fruto de cada momento de vigília equivale àquele de se manter acordado por um bilhão de meses lunares. Aqueles que não se mantém acordados no dia de VisNu, desperdiçam todos os outros votos devido à censura dos devotos. Caso não se mantenha a vigília no dia de VisNu não se obtém o resultado de míriades de sacrifícios, dos prazeres dos sentidos, riquezas, filhos, fama e mundos eternos. Quem não mantem a mente alerta na vigília de dvadasi não tem o direito de adora a VisNu. O número de passos que a pessoa dá para se dirigir ao templo de VisNu para manter a vigília tem o mérito do mesmo número de sacrifícios de cavalo. Por quantos anos a pessoa fizer a vigília ela viverá no céu o número equivalente aos grãos de poeira que as pessoas espalham ao andar pela rua.

 

Portanto as pessoas devem sair de casa para fazer a vigília no templo de VisNu. Na era de Kali este voto de dvadasi destroi todos os pecados. A vigília de acordo com as injunções das escrituras deve ser feita com dança aos sons de instrumentos musicais, a música deve marcar o tempo, com luz e mel, com as preces adequadas e devoção, isso é prazeiroso e provoca deleite, encanta as pessoas. Este tipo de vigília é meritória e satisfaz a VisNu e deve ser comemorada a cada quinzena. De nada adianta uma vigília para criticar os outros, com a mente desprovida de tranquilidade, desprovida de preceitos sagrados, sem música, sem acenar luzes diante da Deidade, sem os artigos de adoração, indiferente, cheia de censura e especialmente cheia de discussão. Para quem comemora devidamente a véspera de dvadasi, qual é a necessidade de morar num lugar sagrado? Aquele que mesmo durante uma viagem e mesmo transpirando e fadigado, comemorar a vigília do dia consagrado a VisNu, é muito querido por mim, ó Narada.

 

O meu devoto que, iludido pelos seus pecados, não faz a vigília em honra a VisNu, me adora em vão, porque ele não adora a quem eu venero. Quem come no dia de VisNu não é um devoto de Siva, não é um adorador do Sol, não é um devoto de sakti e nem devoto dos meus serviçais. Ele deve ser considerado como inferior a um animal. Quem come no dia consagrado a VisNu, depois de recorrer ao poder da devoção por mim, age equivocadamente.

Quem come neste dia fica com o corpo interna e externamente coberto de pecados. Quem faz a vigília neste dia se libera dos pecados. Quem segue regularmente o voto da vigília nunca se encontra com os mensageiros de Yama. Deve-se tomar sempre o cuidado de não se fazer este voto num dia misturado com o outro. Isso é calamitoso, equivale a assassinar os semideuses e os ancestrais, ou dar tudo o que possui aos demônios.

Para aquele que faz a vigília com boa disposição, batendo palmas, dançando com a mente deleitada, cantando, manifestando alegria, permanecendo diante da Deidade, lendo histórias sobre Krsna, divertindo os devotos de VisNu, com o corpo arrepiado, oferece várias preparações de alimentos e faz com que todos se divirtam, recebe o fruto de a cada momento visitar bilhões de locais sagrados.

Quem oferece incenso e lamparinas a VisNu na noite de vigília, será o senhor da Terra. O que é querido por VisNu? Puskara, Prayaga, Naimisa, Gaya, o grande local sagrado de Salagrama, a florestaa de Arbuda, Puskara, Mathura, e todos os outros locais sagrados, e todos os sacrifícios e os quatro Vedas não O satisfazem tanto quanto a vigília de dvadasi.

Ó Melhor dos brâmanes, todos os rios como o Ganges, Sarasvati, Tapi, Yamuna, Satadruka, Candrabhaga, Vitasta, e também os reservatórios, lagos, todos os mares mantém vigília em honra a VisNu. Os homens que são amados pelos semideuses, se deleitam com a música de instrumentos musicais como o alaúde, o canto e a dança durante a vigília em honra a VisNu. E assim, depois de se manter desperto, depois de ter adorado ao grande VisNu, deve-se juntamente com os devotos de VisNu, quebrar o jejum no dia de dvadasi.

Mahadeva disse:

- Ouça, Narada. Vou explicar para você a importância de dvadasi. O dvadasi concede filhos e a liberação. Depois de tomar banho pela manhã, depois de adorar a VisNu, deve-se observar jejum, orando: "Ó VisNu, por meio deste voto, eu que estou cego devido à escuridão da ignorância, desejo satisfaze-lO. Por favor me conceda a visão do conhecimento." Depois disso, o devoto deve quebrar o jejum da maneira que for possível. Depois, ele deve realizar os rituais que desejar. Quando o dvadasi é muito curto para se quebrar o jejum, quem deseja a salvação deve quebrar o jejum a noite. Então não há culpa por se quebrar o jejum a noite e não há proibição neste sentido. O jej